São Paulo, domingo, 31 de outubro de 2004

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

28 MOSTRA DE CINEMA

"A Casa Vazia" depura o talento autoral de Kim Ki-duk com narrativa elíptica e poucos diálogos

Cineasta coreano registra invisibilidade dos seres à margem

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Numa cidade sul-coreana, um jovem vagabundo de classe média (Hee Jae) invade residências cujos donos estão viajando e se instala nelas por uma ou duas noites.
Não é um sem-teto comum, muito menos um ladrão. Trafega pela cidade com uma possante moto BMW e não rouba nada das casas. Pelo contrário: realiza nelas pequenos trabalhos, como lavar roupa ou consertar relógios e aparelhos quebrados.
Seu método é simples e engenhoso: ele pendura um folheto de telepizza no trinco da porta da casa em vista e volta no dia seguinte para conferir. Se o papel continuar lá, é sinal de que a casa está realmente vazia.
Certo dia, numa mansão invadida, o rapaz encontra uma bela modelo (Seung-yeon Lee) que tinha acabado de tomar uma surra do marido prepotente. Sem falar uma palavra, os dois jovens se entendem. Ela abandona o marido e acompanha o jovem nas invasões de casas.
A partir desse momento, o longa-metragem "A Casa Vazia" -escrito, dirigido, produzido e montado por Kim Ki-duk- abandona a insólita secura narrativa de seu início e embarca num romantismo um tanto afetado, que chega às raias do realismo fantástico quando o protagonista assume ares de herói de mangá.
Aquilo que até então era apenas metafórico -a condição espectral do protagonista, sua invisibilidade social- se torna quase literal, e o tom se desloca do poético para o sobrenatural.
O filme, que ganhou um prêmio especial de direção no último Festival de Veneza, lembra bastante "Vive l'Amour" (1994), de Tsai Ming-liang, exibido na 23 Mostra de São Paulo.
Ambos tratam de personagens à margem, "invisíveis", que se encontram em casas vazias, mas Ming-liang é mais cáustico, cético e sem concessões.
Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, "A Casa Vazia" é um filme mais agradável de ver. Com sua narrativa elíptica e sem diálogos, sobretudo em sua primeira metade, confirma e depura o talento autoral de Ki-duk, de quem a Mostra de São Paulo já exibiu "A Ilha" (2000) e "Endereço Desconhecido" (2001).


A Casa Vazia
Bin Jip
   
Direção: Kim Ki-duk
Produção: Coréia do Sul, 2004
Quando: sessões amanhã e dia 3


Texto Anterior: TV: Marlene Mattos avalia fim da sua temporada na Band
Próximo Texto: "Passagens": Pequeno grande filme retrata os caminhos da juventude chinesa
Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folhapress.