São Paulo, domingo, 01 de outubro de 2006

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Fala, presidente

Jânio brande a vassoura

Ex-presidente, que renunciou em 1961, afirma que se concentrará nos temas da "realidade periclitante" do Brasil atual, como a corrupção e o mau uso do português

Por Marcelo Tas

Não vou gastar o vernáculo convosco, exaustos leitores e eleitores brasileiros. Basta apertar a tecla "play" da vossa memória e pimba! O meu mais conhecido epíteto musical diz tudo o que cada um de vocês precisa ouvir neste momento: "Varre, varre, vassourinha Varre, varre a bandalheira Que o povo já tá cansado De sofrer dessa maneira"
Essa propaganda eleitoral radiofônica criada há mais de 40 anos por um Duda Mendonça qualquer da minha campanha presidencial está mais atual do que nunca. Que mico, hein amiguinhos?!
Sim, certamente vocês não estão reconhecendo a linguagem coloquial, até mesmo chula e mal cozida, com a qual me expresso aqui. Lembrem-se: a comunicação deve ser como a linha reta. A menor distância entre dois pontos.

Danço conforme a música
Propositalmente, danço conforme a música. Falo com vocês neste português esgarçado, "fast-food" para "delivery", devido à ignorância generalizada (quem me entenderia se usasse a norma culta?) e ao comunicador de TV que redige, em meu nome, estas mal traçadas linhas. Ele próprio, aliás, nascido no ano da criação do jingle básico e frugal acima: 1959. Roga-me o editor deste caderno que dirija algumas palavras a vocês, nobre eleitores, com o intuito de defender minha improvável candidatura ao pleito deste domingo, 1 de outubro de 2006. Trata-se de uma fanfarrice, evidentemente. Mas não me furto de enviar junto com ela algumas recomendações nas entrelinhas para vocês, que se acham erroneamente mais vivos do que eu.


São tantos os temas urgentes, mas se prefere gastar tinta e papel na discussão do namoro aquático da menina Cicarelli no YouTube


Não é hora para longos intróitos. Sei que devo contar com a desvantagem de ter vossa atenção fúlgida como interlocutora frágil e traiçoeira.
Em vida, fui desgostado por alguns e contrariado por não poucos. Mas recolhendo, no extremado culto da verdade, a certeza de não enganar os que me interpelam, a segurança de não ludibriar o povo.
As graves responsabilidades da candidatura virtual que agora defendo me impõem afirmações necessárias ao julgamento da opinião pública brasileira.
E, por que não dizer, do continente. Já que, atualmente, não bastasse o atual ocupante do Planalto, ainda temos que ingerir batráquios da estirpe de Morales e Chávez [presidentes da Bolívia e Venezuela] como se estadistas fossem.
Oh, cruéis tempos modernos... São tantos os temas urgentes da realidade periclitante em que vocês vivem imersos! Mas intelectuais sofisticados preferem gastar tinta e papel na discussão do namoro aquático da menina Cicarelli no YouTube. Sim, queridos e mortais leitores, vou lhes revelar um segredo: aqui onde estou tem banda larga. Quando morremos vamos para o hiperespaço. Não tem nada daquela história de céu e inferno. É tudo junto. Conectado.
Na verdade, sempre estive à frente de meu tempo. Disparava bilhetinhos quando a humanidade nem sonhavam com e-mails, torpedos ou SMS. Ontem mesmo, navegando pelo Google encontrei minha carta-renúncia. Que obra-prima! Mais atual do que nunca.
"Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando, nesse sonho, a corrupção, a mentira e a covardia que subordinam os interesses gerais aos apetites e às ambições de grupos ou de indivíduos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis levantam-se contra mim."
Mesmo com tantas evidências proféticas, tanto preto no branco, ainda há quem diga não entender que "forças terríveis" eram aquelas. Permitam-me aliviar o riso que pressiona minhas entranhas: hahahahahahaha! Ora, ora, quem ainda estiver confuso com a história do Brasil que vá até o Orkut investigar comunidades que expliquem seu mistério profundo.
Eu transcendi. Vocês, ao contrário, continuam viajando na maionese pastosa que é a realidade brasileira.

Blablablá eletrônico
Outrora eretos e ágeis, prontos para acompanhar a saída das palavras pela minha boca, meus bigodes estão envergonhados com o Brasil. Minha alma é de puro luto. O que harmoniza, mas não atenua, a minha situação patética de mortinho da Silva. Ainda bem que não os tenho mais. Meus finados ouvidos estariam esfolados pelos boquirrotos que empesteiam o horário eleitoral gratuito.
Que de gratuito, diga-se, não tem nada. O presente blablablá eletrônico custou R$ 200 milhões aos cofres públicos. Na forma de descontos no Imposto de Renda às empresas de comunicação que o transmitiram "gratuitamente".
Lá estavam os mesmos que já me acusaram de retórica populista e comportamento extravagante. Antes, riam das minhas tentativas de proibir biquínis, brigas de galo e regularizar o carteado. Agora, acham normal seus auxiliares transportarem notas de dólares não-contabilizadas nas roupas de baixo.
São tantos os desmandos atuais da nação que, se eleito, certamente seria difícil escolher por onde começar a colocar ordem nesta verdadeira casa-da-mãe-joana. Talvez pelos plurais, quiçá pelos pronomes, ambos açoitados impiedosamente pelo atual invertebrado em letras que ocupa o cargo de presidente da República.
Pobres pronomes. Não deveriam aguardar minha eleição para que se coloquem nos seus lugares. Já que estão sempre neles. A boemia dos verbos é que mutila a boa ordem das frases. Há que lhes perdoar, pobres diabos, os verbos. Sempre ansiosos. Não se desgrudam da idéia de movimento... Já estou a tergiversar. É hora de voltar à eternidade.
Pergunto-me: de que adiantou todo este falatório? A essa altura, um novo presidente já pode estar sendo irremediavelmente eleito por vocês. E pior: daqui onde estou não posso mais cravar os dentes num bom naco de perna de cabrito do Capuano [restaurante de SP].
Nem refrescar a língua com uma talagada de Sapupara Ouro. Ah, "marvada"... Sinto-lhe até o aroma. Bebe-la-ia em vossa homenagem, querida jovem e frágil democracia brasileira.
Saúde! E saudades!
MARCELO TAS é ator e jornalista e está em cartaz no Tucarena, em São Paulo, com a peça "A História do Brasil segundo Ernesto Varela".


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