São Paulo, quarta-feira, 25 de dezembro de 2002

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TENDÊNCIAS/DEBATES

Renascer

FREI BETTO

Finda o ano, mas não a vida. Para quem recebe salários extras e dispõe de condições, paira o risco da voracidade: ceias pantagruélicas, muita cerveja na praia, o churrasco crepitando no quintal, uma tristeza d" alma quando o corpo entorpece atolado em comidas, como se o lazer se reduzisse apenas a um exercício compulsivo de ingestão e congestão.
Como somos exaustivamente iguais! Nesta virada do ano vamos pilotar transbordantes carrinhos de supermercado, assistir na TV à retrospectiva dos últimos 12 meses, tostar a pele junto ao mar ou à beira da piscina e acompanhar a afoita alegria dos que foram escolhidos para ministros e secretários de Estado, enquanto os preteridos se esforçarão para disfarçar seus ressentimentos.
Trafegamos sobre o fio da navalha. De um lado a qualidade total, que, niponicamente, pretende nos ensinar a trabalhar mais por menos, como se devêssemos acompanhar o ritmo do avanço da tecnologia de ponta.
De seres humanos somos gentilmente reduzidos a peças de engrenagem. Já não se trata apenas de vestir a camisa da empresa, mas de nascer com a pele tatuada com o seu logotipo.
De outro lado, a resistência a tanta pressão consumista, na busca de alternativas para uma melhor qualidade de vida. Uma alimentação sadia, exercícios aeróbios, ler os clássicos, praticar a meditação, livrar-se de toda a tentação de ostentar bens e participar de alguma causa humanitária.


Felicidade, como profundo deleite do espírito, só na intimidade amorosa, na oração sem imagens e palavras


Enquanto o sistema nos puxa pelo lado de fora -modas, status, funções de poder etc.-, algo mais profundo em nós mesmos nos induz ao lado de dentro: resgatar a capacidade de amar, reaprender a ternura, fitar o semelhante em sua suprema dignidade humana.
Ao contrário dos orientais, somos uma civilização ruidosa. Falamos em cascata, passamos horas ao telefone (executivo é um celular do qual um homem se dependura pela orelha), mantemos ligados a TV, o rádio, o som -como se, perante o silêncio, temêssemos mirar a própria face interior. Claro, o mercado não oferece silêncio porque haveria queda de consumo. Malha-se o corpo, mas não o espírito.
No entanto a vida ensina que a felicidade jorra da intimidade. Não há outra fonte. Pode haver prazer na apropriação, alegria no encontro, júbilo numa boa surpresa. Porém felicidade, como profundo deleite do espírito, só na intimidade amorosa, na oração sem imagens e palavras, na contemplação do belo, no acolhimento do ser querido, na entrega ao mistério, na eternização subjetiva de um momento, na poesia de um toque, um gesto, uma palavra que traz em si plenitude. Ausência de desejos; tão-só deixar-se sorver pelo esplendor de uma paz que ora vem como brisa suave, ora sopra como vento forte e assustador.
Tivéssemos um pouco mais de sabedoria, faríamos do Réveillon um balanço pessoal, contração e descontração, sístole e diástole, na alegria do novo ano que irrompe e dos novos homens e mulheres que se propõem a não sonegar sentimentos, não blefar com o próximo, não discriminar subalternos, não omitir-se da solidariedade às causas sociais. Quem sabe, trocar a festa pela visita às vítimas da Aids, o champanhe por uma cesta básica para a família da faxineira, os fogos de artifício por uma prece em família. Por que seguir os "modelitos" padronizados pela mídia hedonista, se isso não nos enriquece como seres humanos?
No dia 1, entre tantos discursos de posse, tome posse de si mesmo. Para nascer de novo, como disse Jesus a Nicodemos, não é preciso retornar ao ventre materno. Basta dar ouvidos à própria intuição, agir com humildade e sintonizar-se com o transcendente. Na radical disposição de, daqui para a frente, não se deixar consumir como um mingau comido pelas bordas.

Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 58, frade dominicano, escritor e assessor de movimentos pastorais e sociais, é coordenador do setor de Mobilização Social do programa Fome Zero. É autor de "Sinfonia Universal - a cosmovisão de Teilhard de Chardin" (Ática), entre outros livros.


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