São Paulo, segunda, 27 de janeiro de 1997.

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CAPITAIS EUROPÉIAS
Escritor alemão viveu um ano em Roma e escreveu "Viagem à Itália", clássico escrito em 1816-17
Diário de Goethe é roteiro de descobertas

AURORA F. BERNARDINI
especial para a Folha

Entre os grandes viajantes que estiveram em Roma no século 18, nenhum há que rivalize em importância com o alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832).
Não apenas pela extensão de sua estada -dos quase dois anos em que ele morou na Itália (1786-1788), mais de um ele passou em Roma (de 1 de novembro a 21 de fevereiro de 1786 e, depois, na "volta" de Nápoles e da Sicília, novamente, de 8 de junho de 1787 a 14 de abril de 1788)-, ou pela grandiosidade do que lá produziu (os dramas em prosa ``Egmont'' e ``Torquato Tasso'', as operetas ``Erwin e Elmira'' e ``Claudine de Villa Bella'', um "fragmento" de ``Fausto'' e a tragédia ``Ifigênia em Táuris''), mas, sem dúvida, pela descrição viva e cuidadosa dessa estada, nos textos que compõem seu livro-diário ``Viagem à Itália''.
À parte os ricos contatos pessoais com sábios e artistas -em Roma, Goethe frequenta o dr. Hunter, com quem fala de numismática, P. Jacquier, o franciscano de Trinità dei Monti, com quem fala de matemática, estuda arquitetura com Inchi, escultura com Trippel, pintura com Tischbein e Madame Angelica-, o que o encanta é a ambiência romana, onde a "rosada" sensualidade mediterrânea acolhe a síntese das artes da Antiguidade e Renascença.
Ao acompanharmos cronologicamente seu diário romano, estaremos percorrendo o roteiro de suas descobertas pessoais:
Dia 1 de novembro: "O desejo de chegar a Roma era tão grande, que não pude deter-me em nenhum lugar, fiquei só três horas em Florença. Agora estou tranquilo... pode dizer-se que começa uma nova vida quando se vê com os próprios olhos o conjunto que se conhece somente em parte... Sim, cheguei à capital do mundo!''.
Dia 3 de novembro:``...Um dos principais motivos pelos quais procurava chegar rapidamente a Roma era a Festa de Todos os Santos, de 1 de novembro, porque pensava: `Se honram tanto a cada santo isolado, o que farão a todos eles juntos?'... Mas só tive sorte ontem, no dia dos defuntos. O papa celebra a memória deles em sua capela privada no Quirinal... Apressei-me a ir com Tischbein. A praça que há na frente do palácio é algo de absolutamente peculiar, é tanto irregular quanto grandiosa e agradável''.
Dia 7 de novembro: ``...Já estou aqui há sete dias e pouco a pouco a idéia geral desta cidade torna-se mais nítida em meu espírito. Rodamos de um lado para o outro e eu me familiarizo com os planos da Roma antiga e moderna, considero as ruínas e os monumentos. O observador tem de realizar, no começo, grande esforço para discernir como Roma sucede a Roma, não somente a cidade nova e a antiga, mas as diferentes épocas da Roma antiga e moderna...''.
Dia 10 de novembro: ``Estive hoje na pirâmide de Céstio, na porta São Paulo. E, à noite, no Palatino, acima, sobre as ruínas dos palácios imperiais que se erguem como muralhas de pedra... Verdadeiramente, aqui nada é pequeno''.
Dia 11 de novembro: ``Hoje visitei a Ninfa Egeria, na porta São Sebastião, depois o Circo de Caracalla, os túmulos em ruína na via Appia e o túmulo de Cecilia Metella, que dá a idéia de uma construção sólida. Esses homens trabalhavam para a eternidade; tudo havia sido previsto, exceto a demência dos destruidores, à qual nada resiste. Desejei ardentemente tua presença aqui'' -Goethe escreve provavelmente a Charlotte von Stein, por quem foi apaixonado.
``Os restos do Grande Aqueduto são sumamente veneráveis... À tarde, quando começava a escurecer, chegamos ao Coliseu. Ao contemplá-lo, todo o resto nos parece pequeno: é tão grande, que sua imagem não cabe no espírito."
Poderíamos acompanhar deslumbrados as outras cem páginas do périplo de Goethe à descoberta de Roma, incluindo a curiosa descrição do Carnaval, com corrida de cavalos e apresentação de blocos.
Há, porém, um aspecto especial de suas anotações com respeito à parte musical do folclore romano.
Ao lado dos Ritornelli e dos motivos melódicos do "Vaudeville", há também romanças populares, particularmente uma: "que eu ouvi cantar durante algumas semanas por um menino cego, que andava pelas ruas de Roma, e cujo motivo e feitura eram insolitamente nórdicos''. Em Roma, diz Goethe, quase não se ouvem histórias de fantasmas, e a causa provável é que nenhum cristão católico batizado é condenado.
A cena se passa à noite. Uma bruxa vela o cadáver de um justiçado, provavelmente criminoso, que foi torturado. Um desocupado se aproxima com o intuito de roubar membros do corpo. O diálogo, na arte acima, constitui a romança.


Aurora F. Bernardini é professora de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP

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