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fernando canzian

 

29/09/2011 - 17h32

A aposta de Dilma

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O governo Dilma inverteu sua prioridade em relação ao antecessor Lula no que se refere à inflação.

Lula assumiu em 2003 derramando uma carga de juros altos sobre a inflação. Havia um descontrole geral causado, em última análise, pelo próprio Lula.

Afinal, o ex-presidente passara a vida dizendo que não pagaria a dívida externa e bradando heterodoxias na economia.

Ao assumir, caiu na real. Foi no caminho inverso e priorizou o ataque aos preços. Colheu os frutos e a reeleição.

Dilma passa uma mensagem diferente.

Seu governo aposta na gravidade da crise internacional. O desaquecimento lá fora teria magnitude suficiente para esfriar preços de commodities e bens que o Brasil importa.

A aposta não é ruim, mas não deixa de ser perigosa.

A inflação de serviços no Brasil (do barbeiro ao restaurante) subiu muito neste ano. Isso por conta do emprego em alta. Não há produto importado que mexa nisso.

Apostar na queda de preços lá fora parece certo. Mas isso pode ser neutralizado por um dólar mais caro, que encarece as importações.

O que se observa em tempos de turbulência é uma fuga em direção à moeda norte-americana, e a consequente desvalorização de outras moedas (como o real).

Em caso de crise realmente aguda, o câmbio pode mudar mesmo de patamar. Isso neutralizaria em parte o benefício que os preços menores lá fora poderiam ter sobre a inflação no Brasil.

O fundamental é a mensagem que Dilma está passando.

Em uma situação de quase pleno emprego e finalmente crescendo sem solavancos, a presidente parece ter decidido priorizar a atividade.

Mesmo que isso pressuponha um pouco mais de inflação.

É como se dissesse: uma coisa é atividade baixa e desemprego elevado com inflação. Outra é arriscar um pouco mais inflação, temporariamente, tendo uma crise gigantesca lá fora e desemprego baixo aqui dentro.

O "temporariamente" aqui é fundamental.

De novo, a aposta não é ruim. Mas não deixa de ser arriscada.

Fernando Canzian

Fernando Canzian é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de "Brasil" e do "Painel" e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006. É autor do livro "Desastre Global - Um ano na pior crise desde 1929". Escreve às segundas-feiras na Folha.com.

 

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