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joão pereira coutinho

 

15/11/2010 - 12h30

Comer, Rezar, Vomitar

Sou um cavalheiro. E um cavalheiro faz tudo por uma dama: trava duelos, escala montanhas, enfrenta furacões e tempestades, assiste a "Comer, Rezar, Amar" e no final, com um sorriso beatífico, comenta: "gostei".

E gostei mesmo. O filme, caso não saibam, é a história verídica de uma escritora nova-iorquina que termina um casamento sem chama (1º clichê) e, disposta a encontrar-se (2º clichê), parte em busca da felicidade (3º clichê).

A escritora é Julia Roberts, que envelheceu barbaramente bem, e eu senti-me logo identificado com a personagem: no filme, Liz surge sentada no chão do banheiro, a chorar a sua sorte e a esperar um sinal de Deus. Na cama, o marido ronca.

Aconteceu-me o mesmo durante o filme: disse que ia só ao banheiro e, quando lá entrei, deixei-me cair junto ao vaso sanitário e vomitei o jantar. O filme mal tinha começado. Mas eu já sabia que também estava no sítio errado e que precisava de me encontrar.

No filme, Liz procura encontrar-se em Roma, na Índia e em Bali. No meu caso, bastava só que me deixassem ir para casa onde eu me encontro várias vezes por dia, com resultados satisfatórios.

Mas um cavalheiro resiste a tudo. Regressei à sala e contemplei: depois de abandonar o marido, Liz procura em três sítios diferentes três dimensões da sua vida em falta.

Na Itália, a comida. São planos sucessivos de massas, pizzas e copos de vinho tinto que Liz vai triturando sem sentimento de culpa. Milagrosamente, não engorda um quilo, apesar dos italianos serem o povo mais obeso da Europa. Se o filme não vencer o Oscar para melhores efeitos visuais, eu devolvo o meu cartão de sócio à Academia.

E quando Liz não come, comemos nós: postais ilustrados de Roma e Nápoles, juntamente com todos os clichês possíveis e imaginários sobre o italiano médio: gente que fala alto; que fala com as mãos; que cultiva o prazer e o nada fazer; que venera a família e as respectivas mães; e, pormenor delicioso, que não tem água canalizada nos hotéis. Chocante: Liz é uma escritora nova-iorquina, mas em Nova York pagam pior que aos cronistas de jornal.

Da Itália, Liz procura rezar na Índia. Nunca estive na Índia, mas quando lá for juro que também rezarei: para não apanhar uma desinteria mortal ou, na melhor das hipóteses, para não ser atropelado por uma vaca sagrada. Liz recolhe-se num templo e procura, como se diz, "iluminação". Não é fácil: apesar do crescimento econômico imparável, a Índia continua com sérios problemas na sua rede elétrica.

Felizmente, existem velas, muitas velas, e um velho sábio que dá a Liz o conselho de uma vida. Qual é? Bom, também eu gostaria de saber qual é, mas nesse momento estava a roer as unhas (dos pés).

E Bali? Bali é um encanto, sobretudo quando os terroristas da rede Al Qaeda não estão a plantar bombas no lugar; ou quando não existem tsunamis; ou quando não existem surtos de malária; ou quando não há golpes de Estado. Nada disto favorece o tipo de equilíbrio que Liz procura.

Mas Liz encontra esse equilíbrio graças a um curandeiro local, rigorosamente desdentado, que lê as mãos dos turistas e, aposto, espera que um deles lhe ofereça uma dentadura postiça.

Liz, ingrata, esquece-se da dentadura no momento da despedida, mas não se esquece do amor que encontrou: um guia turístico interpretado por Javier Bardem, o espanhol mais espanhol que conheço. Difícil encontrar ator no mercado com feições tão aparentadas a um touro. Dá quase vontade de pegar na capa, na espada --e trespassá-lo.

E quando as luzes da sala se acendem, que posso eu dizer? Sim, que "gostei", e com essa palavrinha inocente e mentirosa comprar sossego para os próximos dias.

Mas, aqui entre nós, que ninguém nos ouça, "Comer, Rezar, Amar" não é apenas uma brilhante nulidade como objeto fílmico. É, pior que isso, mais um tratado desonesto sobre a natureza da felicidade.

Não tenho tempo nem espaço para elaborar longamente sobre essa natureza. Mas sempre digo que a "felicidade" não é um lugar a que se chega; nem sequer é um "estado de espírito" que seja possível manter pela eternidade. É, tão somente, aquilo que existe quando não estamos a pensar no assunto.

O que significa que ela é temporária, intermitente e, na maioria das vezes, contingente. Não se procura; encontra-nos. Estar preparado e grato para esse encontro já é um milagre da existência. Exigir mais é, paradoxalmente, uma forma de nos condenarmos à infelicidade.

Mas nada disso se aplica ao caso de Liz. Quando a vemos, no final do filme, viajando de barco a caminho do pôr-do-sol, lembramos imediatamente a velha frase de Flaubert sobre as felicidades eternas. "Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde são três requisitos para a felicidade, mas se a estupidez faltar está tudo perdido."

Por aquilo que vi de Liz, posso garantir que o futuro dela será risonho.

joão pereira coutinho

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do 'Correio da Manhã', o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro 'Avenida Paulista' (Record). Escreve às terças na versão impressa e a cada duas semanas, às segundas, no site.

 

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