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julia sweig

 

10/10/2012 - 03h00

Obama, o republicano

Na campanha americana, os debates sobre política externa só ocorrerão em 15 dias, mas, a não ser que Obama tenha outra noite ruim, seu histórico garante que Romney terá dificuldade em apresentar uma alternativa conservadora. Por quê?

Em política externa, Obama é o candidato republicano.

Ataques de aviões não tripulados, a morte de Bin Laden, a contrainsurgência, o aumento de tropas no Afeganistão, as sanções mais duras até agora impostas ao Irã, a intransigência (apesar de Netanyahu dizer que não) a favor de Israel, a contenção na Ásia, os acordos de livre-comércio, as oportunidades perdidas na América Latina devido às fixações ideológicas de costume.

Mesmo que os progressistas não o reconheçam mais como um deles, esses aspectos de Obama lhe garantem apoio nos dois partidos.

Excetuando o ataque contra o consulado americano em Benghazi, a atuação de Obama jogou por terra o mito, perpetuado pela ala direitista do Partido Republicano, de que os democratas são fracos em termos de segurança nacional.

O efeito político para esta eleição já se evidenciou. Para ampliar o leque de eleitores que Romney pode atrair, ele se deslocou para o centro, afastando-se dos extremos da temporada das primárias.

Em política doméstica, o republicano está falando pouco plausivelmente sobre proteger a classe média e prometendo não reduzir impostos sobre os ricos. Mas em política externa não pode se distinguir com o deslocamento para o centro, pois o centro é ocupado com firmeza por seu rival.

E posicionar-se à direita do presidente significaria cair diretamente no legado de George W. Bush. O público americano não tem desejo de (nem dinheiro para) outra intervenção como a do Iraque.

E, embora os americanos estejam decepcionados com Obama de muitos modos, não querem retornar à animosidade global da era Bush.

As divisões entre os assessores de política externa de Romney refletem isso. O contingente realista é encarnado por Robert Zoellick, que foi representante comercial dos EUA, vice-secretário de Estado e até há pouco, e representando Obama, presidente do Banco Mundial.

O outro lado é povoado pela turma (menos Condoleezza Rice) que nos deu a guerra no Iraque e suas consequências desagradáveis, turma esta mais bem encarnada por John Bolton, que ajudou a criar o argumento sobre as falsas armas de destruição em massa.

A divisão não é nova. Mas ela se torna muito mais irreparável e politicamente problemática pela atual indefinição total das divisões entre os internacionalistas do Partido Republicano e seus equivalentes que trabalham para Obama.

Talvez não seja por acaso que o candidato que já encarnou tantas identidades diferentes não seja capaz de formular um conjunto distinto de ideias na política externa.

Como que para enfatizar exatamente isso, o mais perto que Romney já chegou de definir-se em contraposição a Obama foi evocar o legado no século 20 do general George Marshall, secretário de Estado sob o democrata Harry S. Truman.

julia sweig

Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, centro de estudos da política internacional dos EUA. Escreve às quartas-feiras, a cada duas semanas.

 

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