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michel laub

 

01/02/2013 - 03h01

Existe amor no FB

Num dos textos mais bonitos da língua portuguesa, o "Sermão do Mandato", padre Antonio Vieira comenta as ignorâncias que impedem o amor de florescer no vale de lágrimas onde vivemos: não conhecer a si mesmo, não entender o amor, não saber onde o amor vai dar, não enxergar a natureza do objeto amado.

Não sei se Jonathan Franzen leu o padre Vieira, mas num ensaio curto, na verdade o discurso de formatura que abre a coletânea "Como Ficar Sozinho" (Companhia das Letras), de certo modo aderiu a um esporte comum quando o assunto são as redes sociais: atualizar os quatro preceitos, definindo o que seriam as relações sentimentais verdadeiras.

Franzen tem uma posição clara, referindo-se ao Facebook: "Se uma pessoa (...) dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é (...). A perspectiva da dor (...), da perda, da separação, da morte, é o que torna tão tentadora a ideia de evitar o amor e permanecer em segurança no mundo do curtir".

A tendência de quem lê esse tipo de artigo é simpatizar. Afinal, difícil passar dez minutos lendo posts de conhecidos sem se deparar com ignorância, narcisismo, arrivismo e desespero existencial travestido de alegria, sem falar naqueles vídeos de publicidade e humor. Mas dá para perguntar, também, se não há idealização em ver uma essência humana perdida a cada vez que acessamos o mundo virtual.

Melhor dizendo, não haveria uma crença exagerada na autonomia desse mundo? Como se gastar horas por dia em frente ao computador equivalesse a um "sonho anestesiado de autossuficiência", na definição de Franzen. "Passar pela vida e não sofrer é não viver", completa o escritor americano, e fico pensando se ele acredita mesmo que alguém escape de pagar contas, se explicar para o cônjuge furioso ou fazer tratamento de ciático apenas por causa de Mark Zuckerberg.

Talvez o engano se deva à pouca familiaridade com uma tecnologia que pode ser fim ou instrumento, dependendo de como é usada. Qualquer um que tenha trocado mensagens eletrônicas não profissionais sabe que, numa adaptação inevitável aos códigos de uma escrita que imita a fala, inclusive com suas modulações de sentido (ironia, ênfase, hipérbole) e expressão afetiva (doçura, raiva, choro), é possível que daí nasçam amizade, inveja, desprezo e até amor.

O que não significa, óbvio, a substituição da presença física. Nem a supervalorização dessa presença. Quando Franzen encerra o discurso com a expressão "seres reais", não sei a que ponto elevado da alma se refere. Mesmo no mundo pré-digital, um flerte começava na superfície --gostos, aparência física, maneira como se fala. Tudo isso é possível no Facebook, e quanta chateação é poupada quando uma pretendente nota que seu pretendido é analfabeto funcional. Ou quando espia suas fotos e percebe que jamais se sentirá atraída por ele.

Se não quisermos julgar o mérito de tais ações, fiquemos com o critério estatístico, as possibilidades que a tecnologia acabou trazendo para quem a utiliza. Digamos que o candidato seja um viúvo de 75 anos, cujo destino uns anos atrás era passar o resto das tardes sozinho, numa padaria triste, tomando Underberg em copo de requeijão e olhando para o vazio. O que há de errado em ele fazer contato com outra viúva que se arrasta pelo éter virtual? E que esse contato seja inicialmente frívolo, até ridículo?

Ou esperavam que o viúvo se apresentasse falando do enterro da mulher, do reumatismo, dos filhos que não o visitam há décadas --em resumo, do seu verdadeiro eu? Caso a investida dê certo, e aí será no mundo concreto, como etapa seguinte ao prólogo virtual, isso tudo virá à tona. Ou não. Viver no engano pode ser bom ou ruim --cabe aos envolvidos, e não a nós, imersos nessa nova forma de moralismo, decidir o quanto de intimidade se quer revelar e conhecer.

No "Sermão do Mandato", padre Vieira usa um exemplo de indivíduo que, do início ao fim, foi consciente e praticante das quatro condições do amor: Jesus Cristo. Mas talvez não seja um bom exemplo, vide a maneira como seu "affair" terminou. Então, perdoemos o resto da humanidade, que é filha de Deus, mas não tanto, por usar os atalhos disponíveis --incluindo o Facebook, por que não?-- para chegar lá.

michel laub

Michel Laub é escritor e jornalista. Publicou cinco romances, entre eles 'Diário da Queda' (Companhia das Letras, 2011). Escreve a cada duas semanas, sempre às sextas-feiras.

 

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