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10/04/2007 - 07h53

Onda de suicídios atinge comunidade aborígene na Austrália

GIOVANA VITOLA
da BBC Brasil, em Sydney

Comunidades aborígenes da costa norte da Austrália detêm um recorde macabro: um em cada seis homens já pensou em cometer suicídio ou já tentou, segundo pesquisas do Birô de Estatísticas da Austrália (ABS, na sigla em inglês).

Isolados do continente, habitantes das Ilhas Tiwis, no norte do país, são os que possuem o maior índice de suicídio entre as comunidades aborígenes. Eles vivem em uma região tida como paradisíaca e desenvolveram uma cultura própria: falam tiwi e têm seu próprio governo e bandeira.

A onda de mortes começou, segundo o professor de saúde pública da Universidade de Queensland, Ernest Hunter, em 1998, quando dois tiwis, Gary Peter Tipungwuti e Patrick Raymond Kerinaiua, se enforcaram e deram início a uma "maldição".

"O suicídio é um fenômeno contagioso", disse o professor de psicopatologia e suicidologia Diego De Leo, diretor do Instituto Australiano de Pesquisa e Prevenção de Suicídio da Universidade de Griffith, em Brisbane.

O sociólogo e professor da Universidade Charles Darwin, Gary Robinson, um dos maiores especialistas da cultura tiwi, diz que nos últimos seis anos há cerca de cinco a dez suicídios por ano e 50 tentativas de morte ou auto-agressão dentro da população tiwi de 2.500 habitantes.

Robinson, no entanto, disse que é muito difícil haver números exatos de quantas pessoas tentaram cometer suicídio. "Isso depende se alguém viu, se avisou autoridades, se foi considerado suicídio e não acidente ou brincadeira", disse.

Casado com uma tiwi, ele viveu nas ilhas e passou pela experiência que causa aflição a muitos moradores das ilhas: um amigo e seu cunhado, ambos tiwi, se suicidaram.

"Por alguma razão, os tiwis são mais dramáticos que as outras comunidades", disse Robinson, que está começando uma pesquisa sobre os altos índices de suicídio na comunidade.

"Maldição"

Os índices de suicídio entre aborígenes do sexo masculino chega a ser quatro vezes maior que dos australianos, segundo Hunter. A grande maioria é homem e se enforca ou se eletrocuta.

"O índice nas Ilhas Tiwi são preocupantes", enfatizou Hunter, que disse ainda que onde não há controle social e político, há mais suicídios.

"A modernização gera medo da perda de suas terras e espaço e causa preocupação na comunidade tiwi", afirmou De Leo, que diz que os aborígines se sentem deslocados, o que torna a vida muito difícil.

A partir daí, segundo ele, surgem problemas como a bebida sem limite, a violência doméstica, a falya de auto-estima e o consumo de drogas, principalmente maconha, levando ao suicídio.

Além disso, segundo a ABS, as causas mais comuns de aborígenes serem internados em hospitais são por auto-agressão ou tentativa de suicídio.

Mito suicida

Em muitos casos, o processo que levou à tentativa de suicídio foi iniciado por uma causa banal, como briga com namorada, discussão com a mãe por causa de dinheiro ou a recusa de um cigarro pelo pai.

Muitos moradores locais lembram, no entanto, da existência de um mito tiwi, que conta que um nativo chamado Purrukapali descobriu que a esposa havia deixado o filho debaixo do sol forte até a morte enquanto tinha um caso com o seu irmão.

Purrukapali teria então matado a esposa e depois se afogado, gritando que todos deveriam morrer com ele. Os tiwis de hoje acreditam que esse homem os assombra e causa algumas das tentativas de suicídios.

Um dos organizadores dos programas de prevenção de suicídios da ilha, Kevin Doolan, disse que recentemente a situação se acalmou. "O último caso foi em fevereiro", disse.

"Antes, se alguém caminhasse para o mato, todo mundo pensaria que essa pessoa ia cometer suicídio".

Depressão

Os suicídios acontecem principalmente entre homens nascidos nos anos 70 e 80, que se vêem em uma espécie de limbo.
Pelo forte influência exercida na região por missionários cristãos no século passado, muitos dos aborígenes locais acabaram perdendo seus laços com suas tradições e cultura.

Por outro lado, eles também não se consideram aceitos na sociedade australiana. Desmotivados, muitos jovens decidem seguir o mito de seus ancestrais, tirando suas vidas-- como "Purrukapali".

Segundo últimos dados da ABS, 16% das causas de mortes de aborigene é devido a suicídios. Índice significativo, segundo Hunter, uma vez que a população aboríegene não chega a 500 mil. Além disso, se comparado com os australianos em geral, 6% dos casos de morte é devido a suicídio.

De acordo com o representante da Organização Mundial de Saúde nas Ilhas do Pacífico, Ken Chen, os maiores problemas na comunidade indigena australiana em geral são a falta de empregos, de auto-estima, medo de perder a identidade, agravada pela falta, também, de direitos humanos básicos como educação, saúde e moradia.

De acordo com Chen, isso tudo gera depressão, o que leva a problemas sérios com álcool e uso de drogas. Para evitar futuras tentativas de suicídio, o principal bar da ilha foi fechado e grades foram colocadas em postes elétricos.

O grupo tiwi de prevenção de suicídio luta agora pela colaboração das próprias famílias dos suicidas e da comunidade. "Para que haja solução do problema de forma mais eficaz, todos devem colaborar", afirma Kevin Doolan.

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