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Graziano vincula migração de nordestinos à violência
JOÃO BATISTA NATALIda Folha de S.Paulo
Referindo-se às localidades mais pobres do Nordeste, o ministro José Graziano da Silva afirmou ontem, de manhã, em encontro com empresários paulistas na Fiesp: "Temos que criar emprego lá, temos que gerar oportunidade de educação lá, temos que gerar cidadania lá. Porque, se eles continuarem vindo pra cá, nós vamos ter de continuar andando de carro blindado."
Para conter as reações desse efeito no mínimo inábil de retórica, o titular da Segurança Alimentar e Combate à Fome divulgou à tarde nota na qual disse não ter exprimido preconceito contra os nordestinos ao associar "movimentos migratórios, exclusão social nos grandes centros urbanos e ambiente de violência".
Graziano foi o oitavo e último orador a discursar na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), e o fez por 17 minutos. Foi precedido por um outro ministro, Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Furlan havia se referido de um jeito quase anedótico à tranquilidade de Brasília, onde utiliza um automóvel comum, em contraste com a rotina de seus últimos dez anos em São Paulo, quando, como grande empresário, era obrigado a utilizar carro blindado.
A menção ao carro blindado fora feita primeiramente por Furlan. Graziano tomou carona na mesma expressão. Mas a recontextualizou e deu margem à confusão criada em seguida.
Terminado o encontro com os empresários, Graziano foi indagado em entrevista coletiva sobre a razão que o levara a vincular nordestinos e criminalidade.
Ele respondeu de forma óbvia e lacônica. "Há relação entre exclusão social e criminalidade." Mas o estrago já estava feito.
A verdade é que tornaram-se desimportantes os demais pontos abordados pelo ministro. Disse, por exemplo, que em Guaribas (PI) as mães que recebem o dinheiro do Fome Zero são agora obrigadas a assistir curso de arte culinária, no qual são ao mesmo tempo alfabetizadas. Até agora o governo não vinculava a distribuição de dinheiro a qualquer atividade por parte do beneficiado.
Abordou de maneira emotiva os casos de crianças subnutridas: "Criança que passou fome e não tomou leite até os seis anos, acabou. Não adianta depois dar uma vaca para cada uma delas."
E exemplificou as carências das cidades do Piauí que percorreu em companhia de outros ministros. Numa delas não havia nenhuma latrina. Foi preciso construir a primeira para a chegada dos homens do governo.
Graziano considerou o Fome Zero como um "atalho", num percurso bem maior que é o de combate à pobreza. Há uma ação emergencial reservada aos que sofrem com a desnutrição. Mas há também uma política estrutural que deseja diminuir a incidência da pobreza e da miséria.
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