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09/04/2003 - 07h02

Editora lança caixa com três obras do autor de "O Apanhador"

CASSIANO ELEK MACHADO
da Folha de S.Paulo

Antes de virar o maior ermitão da história da literatura recente, ao se trancafiar em uma choupana no topo de um morro na cidadela norte-americana de Cornish, há redondos 50 anos, o escritor J.D. Salinger, 84, espalhou por sua obra, como quem joga farelos a pombos, indícios do universo à vácuo no qual se enfurnaria.

Em seu clássico "O Apanhador no Campo de Centeio", de 1951, o adolescente por excelência das letras contemporâneas Holden Caulfield enuncia: "Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz...".

Nenhuma das editoras que publica o escritor em mais de 70 países talvez tenha levado as frases do escritor nova-iorquino tão a sério quanto a sua casa brasileira.

Foi em 1965 que o Brasil viu "O Apanhador" chegar por aqui -perdão pela digressão, mas vale dizer que o livro "veio" de Kombi. Um trio de diplomatas brasileiros no exterior, Jorio Dauster, Álvaro Alencar e Antônio Rocha, despachara dos EUA com um amigo os originais que haviam traduzido, sem ter quem os publicasse. Um dia, o rapaz viu uma Kombi passar com o nome Editora do Autor e um telefone. Ligou e pronto.

Foi por ela, essa editora criada pelos autores Fernando Sabino, Rubem Braga e Walter Acosta, que Salinger chegou ao Brasil.

Era 1965 -ano em que o escritor-eremita tornava público nos EUA seu último texto (a história "Hapworth 16, 1924", publicada na revista "New Yorker")- e as 48 horas na vida de Holden Caulfield, 16 anos, logo viraram sucesso em território brasileiro.

Dois dos outros três livros que completam a obra de Salinger chegariam ao país em 1967: "Nove Estórias" e "Franny e Zooey".

No mesmo ano, a "Kombi" mudou de donos. Sabino e Braga deixaram a Editora do Autor para criarem a concorrente Sabiá. Acosta ficou só na casa que estreara em 1960, com a publicação de "Furacão sobre Cuba", crônicas sobre a Revolução Cubana feitas por Sartre, que esteve no país em uma das primeiras noites de autógrafos em massa que o país conheceu (19/9/60, Copacabana).

E aí passou a valer a frase salingeriana. "Há coisas que deviam ficar do jeito que estão. A gente devia poder enfiá-las num daqueles mostruários enormes de vidro e deixá-las em paz."

Depois que Sabino e Braga saíram, arrastando com eles uma penca de autores do porte de Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, a Editora do Autor lançou alguns poucos títulos, mas foram basicamente dois os volumes que ficaram à mostra, em paz, em sua redoma de vidro.

Estudioso do direito, Acosta publicara na editora o livro "O Processo Penal". Com 110 mil exemplares vendidos até hoje, o trabalho dividiu o encolhido catálogo da Editora do Autor com "O Apanhador", hoje às margens dos 200 mil volumes vendidos. Aos 85 anos, um a mais do que Salinger, que ainda silencia em seu rancho, Acosta está abrindo seu mostruário de vidro de modo significativo pela primeira vez em décadas.

A Editora do Autor está colocando no mercado novamente os esgotados "Nove Estórias" e "Franny e Zooey" (este atingindo, aos 36 anos, sua segunda edição) e relançando "O Apanhador".

Os três livros de Salinger (o quarto, "Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira/Seymour: Uma Introdução", passou pelas mãos de Acosta, que achou "um livro muito esquisito", e está hoje no catálogo da Companhia das Letras) voltam com cara nova.

As mudanças gráficas são discretas. Não poderiam não ser. No contrato que guarda no cofre da sua editora, um contrato permanente, Acosta diz que as exigências de Salinger são cristalinas. Nada de fotos do autor (e não são mais do que quatro as que se conhecem dele até hoje), nada de textos introdutórios, de apresentações nas orelhas do livro ou em suas costas. Nada de desenhos nas capas, que devem trazer a tradução literal dos títulos das obras. "Na tradução original que recebemos, o título de "O Apanhador" seria "O Sentinela do Abismo". Salinger não aceitou. Rubem Braga é quem criou o título com que conhecemos o livro", conta Acosta.

Além do novo projeto gráfico, os Salingers agora repaginados não trazem grande novidade. A única reforma foi um trabalho de sintonia fina do texto. "Eu mesmo fiz a revisão. É meu hobby. Desafio os leitores a encontrarem algum erro", conta o editor.

Difícil pensar em ortografia diante da literatura transparente de Salinger (e não é por acaso que os protagonistas de "Nove Estórias" e "Franny e Zooey" são a família Glass -vidro, em inglês- e que um deles, dos personagens mais bem acabados do escritor, se chama Seymour -see more, ver mais em inglês).

Autor de talha pré-minimalista -como apontou o escritor Caio Fernando Abreu-, a literatura de Salinger é frequentemente comparada com o budismo.

Uma frase zen, de "Nove Estórias", seria um bom começo para entender o trabalho do escritor. "Nós todos conhecemos o som de duas mãos que aplaudem. Mas qual será o som de uma única mão que aplaude?"
As respostas, e os aplausos mudos, estão de volta às prateleiras.
 

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