Crítica: Bala de canhão, bolinha de sabão
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PEDRO ALEXANDRE SANCHESda Folha de S.Paulo
Sendo uma coletânea de canções escritas em momentos variados, "Imprensa Cantada 2003" resulta num trabalho fragmentário, descontínuo como, por exemplo, um jornal.
Agindo como cronista musical de assuntos vários (até Fórmula 1 vira tema, numa das faixas mais inspiradas), Tom Zé quer bulir com a imprensa, com os jogos de espelhos entre a arte e sua reportagem. Termina adotando a abordagem habitual, do artista que se sente tolhido pela crítica, pela seleção de seus depoimentos etc.
Isso resulta no aparente paradoxo de "censura" virar tema central do disco, em tempo de suposta ausência de censura oficial no Brasil. Falando da parceria da "bala de canhão" (a censura) com a "bolinha de sabão" (a arte), diz "Sem Saia, sem Cera, Censura": "A censura, ela morre de amor pela arte/ mas é a enxada acarinhando a fada".
Inverte-se o espelho e se chega ao oposto, que Tom Zé transmite logo nas primeiras linhas de seu livro: "Os escritores não sei o que pensam, mas em música liberdade é um inferno. Prefiro o cerceamento completo, que não deixa uma polegada para respirar".
É, pois, em linguagem de brando açoite que o disco se desenvolve, na rejeição ao cimento do rock ("Desenrock-Se"), na atualização precisa da declaração de amor à cidade feia e desumana ("São São Paulo", de 68), na zombaria amorosa ao tropicalismo no arranjo loquaz de Max de Castro para "Companheiro Bush".
Comunhão tropicalista entre a faca e a ferida, "Imprensa Cantada 2003" segue nesse prumo de música e texto, sempre expondo a carne crua do turbilhão Tom Zé.
Avaliação:
Imprensa Cantada 2003
Artista: Tom Zé
Lançamento:Trama
Quanto: R$ 26, em média
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