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02/02/2004 - 09h35

Casa das Culturas seleciona obras brasileiras para megamostra

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LUCRECIA ZAPPI
Free-lance para a Folha de S.Paulo

A Casa das Culturas do Mundo, em Berlim, prepara para 2006 uma mostra do que há de mais representativo da arte contemporânea brasileira. A ambiciosa investida germânica trouxe em dezembro Shaheen Merali, o novo curador da Casa das Culturas do Mundo, cargo que já foi ocupado por Alfons Hug, e a consultora brasileira e curadora independente Teresa de Arruda, que mora na Alemanha há 15 anos.

O projeto ainda sem nome já mobilizou 500 mil euros, doados pela companhia de loteria alemã e pelo Senado berlinense, um dos patrocinadores mais constantes da Casa das Culturas. Além da exposição prevista para 2006, já no próximo ano uma série de palestras, exibições de filmes e workshops relacionados à cultura brasileira devem aquecer Berlim.

Mesmo sem idéia do que seria o fio condutor dessa arte que veio "investigar", Merali diz ter tido, durante esse primeiro contato com o Brasil, uma sensação de isolamento, de quase um confinamento entre as redes de cidades.

E essas experiências artísticas no território urbano se tornam freqüentemente contraditórias quando vistas a partir de um amplo território nacional. "O Brasil é tão grande que se tornou quase uma barreira para as pessoas. No momento, as cenas e linguagens de arte são locais. Você está marcado pelo local de nascimento, o que pesa muito na hora da criação", diz Merali.

"As formas que já eram feias ficaram ainda mais. E os artistas notam que não há um fio direto de comunicação entre o que as pessoas querem e como a cidade de fato emerge."

Nesse contexto a obra do artista Marcelo Cidade cativou o estrangeiro. "Ele foi a uma das ruas da cidade e tirou ladrilhos do piso e os recolocou na galeria. Há referências de formas de destruição do mobiliário das ruas sem que ninguém se dê conta disso ou tenha controle sobre isso."

Merali diz acreditar que o Brasil vive nesse momento num período de entressafra. De um lado, segundo ele, há as obras dos já consagrados, como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Cildo Meireles e Tunga, que devem entrar na mostra. Por outro, há um entusiasmo de lançar novas vozes individuais, apontado também pelo curador como uma "necessidade mercadológica", o que, segundo Merali, é muito complicado: "Arte não é algo que você aprende numa academia de arte, se forma e sai fazendo. Toma muito tempo para amadurecer".

Estereótipos brasileiros à parte, Merali diz que as diferentes influências culturais do Brasil são muito importantes, "porque preservam a herança, a linguagem e a memória, incluindo todo o processo colonial. Eu penso que o Brasil é muito importante, em muitas maneiras, para o mundo. A projeção é muito latina, latino-européia, eu diria. São Paulo, por exemplo, tem essa espécie de fusão, mas reflete um tipo de design e uma estética européia".

"Na arte os curadores mediam a sensibilidade do artista e o apetite do colecionador. De muitas maneiras é o que eu estou fazendo aqui, estou na zona de pára-choque entre os dois pólos, além de tentar criar uma conversação entre o que acontece aqui, no Brasil, e lá, em Berlim", diz Merali, ótimo exemplar do "olhar estrangeiro": filho de indianos, nasceu na Tanzânia, mora em Berlim, mas se considera britânico, porque, afinal, "30 anos na Inglaterra deixam sua marca", afirma ele, sorrindo.
 

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