26/10/2004
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09h33
da Folha de S.Paulo
Ele tem quase 30 anos, fez filhos mundo afora e rapidamente tornou-se uma caricatura ao xingar o "sistema". Mais tarde, esbravejou que não estava morto. Funcionou. O punk rock remoçou, virou sucesso e hoje inspira editoriais de moda, graças a uma nova geração de bandas de Nova York.
Já o diretor Scott Crary não gostou nada dessa história e viu apenas contradições --o resumo delas está em seu documentário exibido hoje na Mostra, "Mate Seus Ídolos". Ao usar o nome de uma música da banda Sonic Youth ("Kill Your Idols"), Crary deixa claro que seu objeto de estudo é uma ramificação bem particular do estilo --a no wave. Se o punk rock era um movimento musical-político que tentava aniquilar padrões do passado, a no wave, nascida em Nova York, ia para um caminho mais ligado à vanguarda artística local.
O documentário coloca o ano de 1972 e a banda Suicide como marcos iniciais. Entram depoimentos dos primeiros nomes desta cena, como Arto Lindsay (DNA) e Lydia Lunch (Teenage Jesus & The Jerks); da segunda geração (Thurston Moore e Lee Ranaldo, do Sonic Youth) e dos novos (Liars, Yeah Yeah Yeahs).
Mas o cerne do filme não são historinhas sobre as bandas, mas sim, questões relativas à idéia de criação de ídolos. Crary segue o espírito de seu objeto de estudo e questiona a badalação em torno de outra turma, a chamada "cena nova-iorquina", hoje sinônimo de grupos como Strokes, Interpol [que resgatam a sonoridade punk, com uma roupagem mais acessível] e muitos discos vendidos. Segundo ele, essas bandas são erroneamente associadas ao espírito punk original. "Hoje, Nova York é a Disneylândia. É limpa. É inflacionada", diz Crary em entrevista à Folha.
O título do filme serve também para o diretor explorar as mudanças de valores. "A ironia é que as bandas originais da no wave e seus seguidores tornaram-se ídolos, e aquilo que eles pediam ["Mate Seus Ídolos"] acabou virando uma nota de suicídio."
"Punk não era um gênero ou uma moda --era uma larga ideologia, dissonância e rebelião eram o que o definia. Este é o dilema: o capitalismo o tornou vendável, como sempre acontece na cultura. A história ficou diluída e esquecida", explica o diretor.
"Mate Seus Ídolos", portanto, não é sobre Londres e Sex Pistols ou sobre os EUA e Ramones. É, como seu diretor o define, "uma história alternativa do punk". "Ironicamente, as atuais bandas de sucesso de Nova York estão fazendo aquilo que os punks originais e os "no wavers" tanto lutavam contra: aquela rotina de festas, celebridades, moda etc."
E não é apenas Crary quem diz isso. "Como algo revolucionário pode se basear apenas em reviver a música do começo dos anos 80? Isso pode ser bom para uma festa, nada mais", diz o músico Gogol Bordello no documentário.
No meio de tanta saraivada, há algo, enfim, que se salve? "O espírito está presente na IDM e na música eletrônica abstrata, de gente como Dorine Muraille e Oval. São muito mais punks do que os auto-proclamados punks", acredita Crary.
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Documentário "Mate Seus Ídolos" investiga as contradições do punk
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BRUNO YUTAKA SAITO da Folha de S.Paulo
Ele tem quase 30 anos, fez filhos mundo afora e rapidamente tornou-se uma caricatura ao xingar o "sistema". Mais tarde, esbravejou que não estava morto. Funcionou. O punk rock remoçou, virou sucesso e hoje inspira editoriais de moda, graças a uma nova geração de bandas de Nova York.
Já o diretor Scott Crary não gostou nada dessa história e viu apenas contradições --o resumo delas está em seu documentário exibido hoje na Mostra, "Mate Seus Ídolos". Ao usar o nome de uma música da banda Sonic Youth ("Kill Your Idols"), Crary deixa claro que seu objeto de estudo é uma ramificação bem particular do estilo --a no wave. Se o punk rock era um movimento musical-político que tentava aniquilar padrões do passado, a no wave, nascida em Nova York, ia para um caminho mais ligado à vanguarda artística local.
O documentário coloca o ano de 1972 e a banda Suicide como marcos iniciais. Entram depoimentos dos primeiros nomes desta cena, como Arto Lindsay (DNA) e Lydia Lunch (Teenage Jesus & The Jerks); da segunda geração (Thurston Moore e Lee Ranaldo, do Sonic Youth) e dos novos (Liars, Yeah Yeah Yeahs).
Mas o cerne do filme não são historinhas sobre as bandas, mas sim, questões relativas à idéia de criação de ídolos. Crary segue o espírito de seu objeto de estudo e questiona a badalação em torno de outra turma, a chamada "cena nova-iorquina", hoje sinônimo de grupos como Strokes, Interpol [que resgatam a sonoridade punk, com uma roupagem mais acessível] e muitos discos vendidos. Segundo ele, essas bandas são erroneamente associadas ao espírito punk original. "Hoje, Nova York é a Disneylândia. É limpa. É inflacionada", diz Crary em entrevista à Folha.
O título do filme serve também para o diretor explorar as mudanças de valores. "A ironia é que as bandas originais da no wave e seus seguidores tornaram-se ídolos, e aquilo que eles pediam ["Mate Seus Ídolos"] acabou virando uma nota de suicídio."
"Punk não era um gênero ou uma moda --era uma larga ideologia, dissonância e rebelião eram o que o definia. Este é o dilema: o capitalismo o tornou vendável, como sempre acontece na cultura. A história ficou diluída e esquecida", explica o diretor.
"Mate Seus Ídolos", portanto, não é sobre Londres e Sex Pistols ou sobre os EUA e Ramones. É, como seu diretor o define, "uma história alternativa do punk". "Ironicamente, as atuais bandas de sucesso de Nova York estão fazendo aquilo que os punks originais e os "no wavers" tanto lutavam contra: aquela rotina de festas, celebridades, moda etc."
E não é apenas Crary quem diz isso. "Como algo revolucionário pode se basear apenas em reviver a música do começo dos anos 80? Isso pode ser bom para uma festa, nada mais", diz o músico Gogol Bordello no documentário.
No meio de tanta saraivada, há algo, enfim, que se salve? "O espírito está presente na IDM e na música eletrônica abstrata, de gente como Dorine Muraille e Oval. São muito mais punks do que os auto-proclamados punks", acredita Crary.
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