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02/12/2005 - 05h20

Chris Cornell leva Audioslave a Cuba

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MARCO AURÉLIO CANÔNICO
da Folha de S.Paulo

Visitar Cuba nos áureos tempos da União Soviética, que sustentava financeiramente a ilha, e do sonho socialista era, mais que turismo, um atestado ideológico.

Mas a visita que a banda norte-americana de rock Audioslave fez à ilha em junho passado, para gravar seu primeiro DVD ao vivo (Universal, R$ 55, em média), não teve o objetivo de ser uma pregação política pró-regime cubano, afirma o vocalista Chris Cornell em entrevista à Folha. De qualquer modo, uma viagem de um grupo dos EUA ao país governado por Fidel Castro nunca é um simples passeio turístico.

Na conversa abaixo, o vocalista fala da viagem à ilha, dos problemas criados pelo governo norte-americano e da carreira do Audioslave.

Folha - Como surgiu a idéia do Audioslave tocar em Cuba?
Chris Cornell - Dez anos antes do Audioslave surgir, ainda no começo do Rage Against the Machine, os rapazes tiveram essa idéia, eles fizeram os contatos preliminares para ir, mas no último momento acabou não acontecendo, acho que Zack [de la Rocha, vocalista do Rage] não quis ir. Quando formamos o Audioslave, uma das coisas que discutimos foi que deveríamos tocar mais na América Latina, porque o Soundgarden não tocou, o Rage não tocou muito, queríamos tocar mais em toda a América Latina, é algo que ainda vamos fazer, e Cuba foi a primeira idéia.

Folha - E o show precisou da aprovação do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos?
Cornell - Eles implicaram com a questão dos gastos para o show na ilha, para onde iria o dinheiro, com o fato de tirar dinheiro dos EUA para Cuba --o que é proibido--, com o fato de um vídeo feito em Cuba ser vendido comercialmente... tudo era um problema, não podíamos gastar mais do que US$ 70 ou algo assim, uma quantia que mal dava para comer, porque eles não queriam que deixássemos dinheiro americano lá.

O governo cubano também pôs alguns empecilhos, por exemplo, encontramos na ilha um homem que ficava atrás de nós o tempo todo, desenhando caricaturas nossas. Não pareciam nada conosco, mas eram ótimas, divertidas, ele captou alguma coisa. Pensamos em contratá-lo para fazer ilustrações da nossa passagem pela ilha, para usar no DVD, mas o governo cubano acabou vetando, não sei bem por que, certamente não foi por medo de que iríamos explorar o trabalho dele.

Folha - Com tantos problemas, vocês conseguiram se divertir?
Cornell - Sim, ignoramos tudo isso. A viagem foi tão boa, fomos tratados tão bem pelos cubanos e por todos que encontramos lá que foi algo relaxante, e quando saímos dos EUA achávamos que seria tudo menos relaxante. O Departamento de Estado norte-americano nos disse que os cubanos iriam nos vigiar, que haveria câmeras em nossos quartos, nossas conversas seriam gravadas, seríamos seguidos e nossas malas revistadas, e nada disso aconteceu. Chegamos ao aeroporto, olharam nossos passaportes e disseram "bem-vindos à Cuba", e foi tudo. Daí por diante tivemos uma experiência maravilhosa.

Folha - E onde foi o show?
Cornell - Num lugar ao ar livre, acho que se chama praça Anti-Imperialista de Havana, parece que é um lugar onde as pessoas se reúnem para gritar contra os Estados Unidos. Mas as 75 mil pessoas que estavam lá não estavam representando nenhuma postura política ou uma raiva contra os EUA. Nossa ida ao país teve a ver com a música, pagamos para ir tocar em um lugar que não tem a chance de ver uma banda de rock como a nossa, basicamente porque nosso país não deixa ninguém ir para lá. Conseguimos romper isso e acho que fomos recebidos não como pessoas que concordam com a política cubana ou como representantes da política norte-americana, mas como músicos que foram lá mostrar suas obras.

Folha - Vocês chegaram a conhecer Fidel Castro?
Cornell - Não, mas o vi na televisão, gritando alguma coisa sobre os Estados Unidos.

Folha - O que você conhecia do país?
Cornell - Nada. Sendo um cidadão norte-americano criado nos Estados Unidos, você não aprende nada sobre os cubanos ou sobre Cuba. Só vê as matérias de telejornais em que eles mostram famílias cubanas em barcos precários, desesperadas para entrar nos EUA, para você ficar com a impressão de que Cuba é um lugar horrível. E essa é a atitude que o governo quer que os cidadãos americanos tenham.

Quando chegamos lá, foi uma experiência que abriu nossos olhos, um lugar muito diferente do que eu esperava. Nem acho que o DVD vá fazer dinheiro, não acho que foi nosso melhor desempenho ao vivo, mas é um evento, você vê nossa banda fazendo uma viagem fantástica que nenhuma outra de rock moderno fez. Para o público americano, é a chance de ver o que realmente acontece por lá, sem uma visão tendenciosa, o diretor apenas apontou a câmera e gravou o que aparecia.

Folha - Vocês tocaram algumas músicas de suas bandas anteriores. É algo que fazem normalmente ou foi combinado para aquele show?
Cornell - É algo que temos feito bastante, se tornou uma das nossas partes favoritas dos shows. Primeiro porque é completamente diferente de tudo que eu já fiz e, depois, porque nos permite cobrir várias sonoridades do rock. Por exemplo, tocamos músicas do Audioslave como "Like a Stone" ou "Cochise", aí eu faço uma versão acústica de "Black Hole Sun" [do Soundgarden] em que o público canta, depois passamos para "Bulls on Parade", "Testify" ou "Sleep Now in the Fire" [do Rage Against the Machine], e cada vez que tocamos cada uma dessas músicas é para valer, é uma ampla variedade de rocks tocados tão bem quanto podem ser. Não imagino outra banda que possa fazer isso. Nós provamos que éramos uma nova banda e que não precisávamos de nossos hits anteriores fazendo a turnê do primeiro álbum só com músicas do Audioslave, e a platéia não ficava gritando por músicas do Rage ou do Soundgarden.

Aí, quando saímos na turnê do segundo disco, decidimos abraçar nosso passado e tocar algumas das músicas. Tom [Morello, guitarrista] define muito bem quando diz que nós poderíamos ser uma banda nova como o Coldplay, com poucos discos e um bom repertório, ou poderíamos ser como o Led Zeppelin, com um catálogo de 15 anos de músicas, o que é bem melhor, e é o que temos feito nessa última turnê.

Folha - Quando vocês formaram o Audioslave, muitos críticos acreditavam que a banda, como muitos outros supergrupos, não duraria mais do que um disco. Agora vocês lançaram um segundo álbum, um DVD ao vivo e estão em nova turnê. Você acredita que ainda têm um longo caminho pela frente?
Cornell - Não sei bem o que você quer dizer com "longo caminho". Acabamos de terminar a pré-produção e vamos começar a gravar nosso terceiro disco. E estamos nos divertindo muito fazendo turnês e sendo o Audioslave. A banda não está preocupada em provar nada. Até estávamos um pouco, na época do primeiro disco, mas, uma vez que o lançamos e fomos fazer shows, pronto, acabaram-se as dúvidas. Acho que essa dúvida sobre o fato do Audioslave ser ou não uma banda de verdade já acabou. Somos um grupo muito mais unido do que várias bandas por aí.

A maioria das bandas é centrada em um único cara, que compõe todas as músicas e diz a todos os outros o que fazer. Algumas vezes isso funciona --o Smashing Pumpkins era uma banda assim, o Nirvana também. Mas nós compomos juntos, nós quatro numa sala, fazendo música.

Folha - Suas letras, no Soundgarden e em sua carreira solo, têm um enfoque bem pessoal, são diferentes das letras mais politizadas que o Rage Against the Machine fazia. No Audioslave, você faz as letras, e continua com seu estilo pessoal. Isso não gerou conflitos com os ex-membros do Rage?
Cornell - Não. Essa banda não é o Rage Against the Machine e, de qualquer modo, as letras políticas do Zack eram o estilo pessoal dele.

Folha - Vocês tem planos para vir ao Brasil?
Cornell - Sim, acho que em algum momento do primeiro semestre de 2006 iremos aí, com certeza.

Folha - Última pergunta: o que você tem ouvido recentemente?
Cornell - O novo disco do Sigur Rós. Eles são ótimos.

Especial
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