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29/05/2006 - 10h29

Blogs colocam na rede raridades da música brasileira

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SHIN OLIVA SUZUKI
da Folha de S.Paulo

No último dia 13 de maio, um álbum raro, lançado em 1969 pelo grupo psicodélico regional O Bando, e "Meu Samba É Assim", de Marcelo D2, só lançado oficialmente nove dias depois, tinham algo em comum. Não estavam nas lojas e achá-los nos programas de troca de arquivos na internet era tarefa impossível. Porém, para ouvi-los, bastava procurar outros caminhos dentro da própria rede: ambos eram oferecidos para download em blogs.

Mais conhecido como diário e expositor virtual da intimidade de garotos e garotas na primeira fase da adolescência, o blog agora ganha status de ferramenta para a circulação de raridades musicais. Nesses sites é possível encontrar álbuns que não ganharam reedição em CD, ou que até ganharam, mas estão com tiragem esgotada. Fora da web, esses títulos são vendidos a preço de ouro por negociantes de discos usados.

Sites como Hoje É Ainda Dia de Boa Música, Brazilian Nuggets e SaravaClub estão trazendo à luz, sem poeira nem cheiro de mofo, bolachas como "Herbie Mann & João Gilberto with Antonio Carlos Jobim" (1965) e "Secos e Molhados - Ao Vivo no Maracanãzinho" (1974) ou o divertido "Água Benta" (1978), do trapalhão Mussum. Mas há também blogs que preferem as novidades e antecipam os lançamentos, caso do mais recente disco de Marcelo D2.

As páginas, na verdade, não armazenam os discos; normalmente trazem as informações visuais e comentários relacionados às obras (ou seja, são menos impessoais do que os programas de troca de músicas). A partir deles, o internauta tem acesso aos links que levam a sites de hospedagem de arquivos digitais de tamanho considerável. É lá que são feitos, gratuitamente, os downloads.

O jornalista mineiro Hever Costa, 40, dono do blog Música do Bem, no qual predominam os discos de jazz, ressalta o caráter comunitário dessas páginas. Para ele, o novo tipo de troca de informação, mais personalizado, geralmente tem eco e constrói elos entre quem oferece e quem pesquisa. "É um trabalho de resgate de músicas esquecidas. Já cheguei a orientar um grupo de teatro que estava montando a trilha sonora de uma peça por meio do blog."

O curitibano Vinícius Franch, 22, que mantém o blog de rock psicodélico Vinil Velho, concorda. "É uma forma de conhecer, de obter informação sobre discos obscuros. E pode até ajudar a propagar a obra de algum artista", comenta.

Hever Costa, que transformou boa parte de sua coleção de vinis em 50 mil arquivos digitais, afirma que não há interesse econômico por parte dos donos desses blogs. "Eu não faço isso para ganhar dinheiro. O espírito é botar na roda material que antes não estava disponível", afirma.

E o fenômeno vem ganhando corpo. O Mercado de Pulgas, por exemplo, outro blog mineiro gerenciado por seis pessoas de gostos distintos, registra 23 mil visitas desde fevereiro deste ano, quando foi inaugurado.

O universitário André Henrique Macedo, 19, de Brasília, é um dos novos adeptos das páginas. "Serve como um complemento ao SoulSeek [programa de troca de arquivos pela internet]", diz o estudante. Apesar da vantagem de encontrar blogs temáticos, que podem reunir centenas de músicas do mesmo estilo, o sistema também tem seus problemas. "As páginas de hospedagem falham de vez em quando na hora de fazer o download", completa.

Disputa legal

No terreno legal, o advogado Nehemias Gueiros Jr., especialista em direitos autorais e professor direito da internet na Fundação Getúlio Vargas-RJ, diz que falta uma legislação específica para analisar as atividades desses blogs. "Ainda não existem instrumentos legais para punir esse tipo de troca eletrônica, muito menos jurisprudência ou precedente que possa embasar o raciocínio de um juiz", afirma.

Segundo o advogado, que lança em agosto o livro "O Direito Autoral na Internet" (ed. Millenium), somente duas pessoas foram processadas no Brasil até hoje por download ilegal. "Apesar de ser um dos países com maior número de usuários de internet, o intercâmbio de músicas ainda está restrito às camadas mais ricas da população", afirma o advogado.

A Associação Brasileira de Produtores de Discos (ABPD), entidade que reúne as grandes gravadoras do país, disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que não havia nenhum diretor disponível para comentar o assunto. Atualmente, a instituição está mais empenhada em combater a forma mais tradicional de pirataria, ou seja, a de CDs e DVDs.

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