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29/06/2003 - 05h37

Internet vê explosão de sites pessoais de jovens iranianos

MARIA BRANT
da Folha de S.Paulo

"Os blogs nos abriram uma nova porta para o mundo: podemos não só ver, mas também falar sobre o que acontece --é um mundo no qual temos a liberdade que não temos no mundo real."

A frase acima, dita por uma estudante de 16 anos de Teerã, é uma das explicações possíveis para um dos mais comentados fenômenos da internet: a explosão de diários de iranianos.

Os blogs, ou weblogs, são uma espécie de diário na rede. Podem tratar de assuntos pessoais ou ser um "índice" de links e reflexões sobre um determinado assunto.

A popularização de ferramentas gratuitas --que permitem que qualquer um com uma conexão à rede crie páginas pessoais, facilmente atualizáveis-- fez com que o número de blogs passasse de centenas para cerca de 2,6 milhões em cerca de três anos, diz o site especializado Blogcount.

Como em todo evento na internet, a presença americana é a mais sentida. Os brasileiros vêm em segundo lugar --em dezembro de 2002, segundo a revista "Wired", havia cerca de 200 mil blogs brasileiros. Mas o fenômeno mais inesperado foi mesmo a proliferação de blogs de jovens habitantes do Irã, que em menos de um ano se multiplicou por mil.

Segundo Hossein Derakhshan, iraniano que vive em Toronto e que possibilitou no ano passado o uso de caracteres em persa em ferramentas de blogs, há cerca de 12 mil blogs iranianos ativos hoje --sendo que 400 mil pessoas têm acesso à internet no país.

Em comparação, um estudo de maio das universidades de Granada e Zaragoza, na Espanha, estima que haja cerca de 2.000 blogs em língua espanhola.

Os estudantes iranianos também voltaram a ocupar o centro das atenções no Irã no início deste mês, quando realizaram protestos na região da Universidade de Teerã que tinham como alvo tanto os clérigos conservadores quanto o presidente moderado do Irã, Mohamad Khatami --eleito em 1997 com a promessa de introduzir reformas democráticas no país, mas, que, desde então, trava uma disputa com os clérigos.

A coincidência dos dois fenômenos --e é preciso lembrar que cerca de 70% da população do Irã (48 milhões de pessoas) têm menos de 30 anos e nasceram sob a República Islâmica, instaurada em 1979 pelo aiatolá Khomeini-- chamou a atenção de articulistas europeus e principalmente americanos nos últimos meses.

Pois, para grande parte dos analistas estrangeiros, os protestos, aliados às opiniões críticas ao regime manifestadas em 10 entre 10 blogs iranianos, foram festejados como sinal de que os jovens queriam e instaurar uma democracia "American-style".

Mas não é bem assim: no último dia 15, Derakhshan provocou reações furiosas de americanos ao reagir a uma declaração de George W. Bush em que o presidente dos EUA classificava como "positiva" a onda de protestos, que teria como objetivo "um Irã livre". O iraniano respondeu em seu site: "Será que o sr. poderia calar a boca e nos deixar lidar com nossos próprios problemas?".

Para tentar entender um pouco mais sobre o que acham dos protestos universitários, o que fazem em seu dia-a-dia e o que querem do futuro, a Folha de S.Paulo enviou perguntas a 30 autores de blogs iranianos em língua inglesa que figuram em uma lista compilada por Derakhshan. Dezessete responderam, sendo oito jovens iranianos no Irã e nove emigrados recentes a outros países.

A amostra, apesar de pequena, dá uma idéia do quão difícil é classificar as aspirações desses jovens.

Eles querem um regime mais aberto, mas não necessariamente secular. Desejam conhecer o mundo, e alguns até sonham em emigrar para outro país, mas admiram líderes nacionalistas.

Ouvem a mesma música que adolescentes no mundo inteiro, mas, escolados por 24 anos de censura, são extremamente desconfiados de qualquer órgão de mídia, incluindo as TVs por satélite iranianas com sede nos EUA.

Eles desprezam as restrições impostas pelo regime, mas dizem que os mulás devem ser respeitados quanto à sua fé religiosa.

Leia algumas das respostas enviadas à Folha de S.Paulo.

Os protestos recentes

"Participei dos protestos, que começaram, como sempre, com exigências não políticas. Mas algumas pessoas tentaram transformá-los em algo político, apesar de os estudantes terem tentado muito não deixar que isso acontecesse." Kalantar*, 23, aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade de Teerã

"Esses protestos mostram a imensa insatisfação entre os estudantes." Azam*, 22, estudante na Universidade de Teerã

"Os protestos dizem respeito a tudo o que as pessoas querem há 24 anos e não conseguem obter, como liberdade, separação entre a religião e a política e um governo livre desses loucos! Quanto à religião, eles são os melhores, pessoas verdadeiras, mas no mundo real e na política são as pessoas mais mentirosas que você pode encontrar." Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

"Os jovens esperavam que Khatami desempenhasse o papel de um líder forte e protegesse o movimento [reformista], mas ele permaneceu silencioso e inativo depois da segunda eleição. Isso fez com que as pessoas ficassem totalmente desapontadas." Ahmadreza Ali-hosseini, 27, engenheiro em uma empresa de consultoria em Teerã

Democracia

"Acho que já temos uma democracia no Irã. É uma democracia pela metade, mas acho que estamos no caminho certo para chegar a uma democracia islâmica, que é o que sempre quisemos." Kalantar*, 23, aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade de Teerã

"Gostaria que o Irã fosse uma democracia, pois em um sistema democrático dá para perceber que os limites tem alguma lógica. Aqui, os limites são impostos por pessoas sobre quem fazemos piadas todos os dias. Parece que as restrições que eles impõem só existem para tornar a nossa vida mais difícil --elas não têm nenhuma lógica!" Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

Tempo livre

"Gosto de sair com os amigos para ir nadar e fazer alpinismo. Recentemente, comecei a gostar de jogar sinuca também." Kalantar*, 23, aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade de Teerã

''Vou ao cinema, a restaurante e cafés e também faço alpinismo.'' Azam*, 22, estudante na Universidade de Teerã

Música

"Gosto de música country americana e de música new age. A canadense Loreena McKennitt é a minha favorita, mas também gosto de Enya e Sara Brightman." Ahmadreza Ali-hosseini, 27, engenheiro em uma empresa de consultoria em Teerã, recém-formado

"Adoro rap e rock. Meus favoritos são Eminem, Linkin' Park e Evanescent." Iraniangirl*, 16, aluna do ensino médio em Teerã

"O que mais ouço é música pop ocidental." Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

Livros

"Gosto de Paulo Coelho, José Saramago, Mark Twain e Dostoiévski." Kalantar*, 23, aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade de Teerã

"Leio livros de não-ficção, sobre sociologia e cultura." Hooman*, estudante, não quis revelar idade ou cidade onde vive

Filmes

"Gosto de ver filmes europeus intelectuais." Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

"A Revolução Islâmica estragou tudo, incluindo os filmes. Fora os que passam durante festivais, não há nenhum que valha a pena ver. Os filmes iranianos, assim como os livros deste país, são uma perda de tempo." Iraniangirl*, 16, aluna do ensino médio em Teerã

Como você se mantém informado?

"Leio a internet, já que todos os jornais e revistas reformistas foram proibidos nos últimos quatro anos. Odeio TVs por satélite iranianas com sede fora do Irã: elas mentem tanto quanto a agência oficial iraniana." Azam*, 22, aluna da Universidade de Teerã

"Vejo TVs por satélite, mas só confio nas européias, como a BBC e a Euronews. Também acesso a internet, mas acho que a forma mais confiável de obter informações é falando com as pessoas." Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

"Não leio jornais, pois são a fonte de informação menos confiável. Todas as informações que consigo achar vêm das TVs por satélite e da internet." Iraniangirl*, 16, aluna do ensino médio em Teerã

Influências

"Admiro Mohammad Mosadegh, que foi o líder da nacionalização da indústria de petróleo iraniana." Ahmadreza Ali-hosseini, 27, engenheiro em uma empresa de consultoria em Teerã, recém-formado

"Em primeiro lugar, admiro o imã Hussein. Será que você o conhece? Também admiro o imã Khomeini, que era um verdadeiro muçulmano, e Gandhi, um homem verdadeiramente livre." Kalantar*, 23, aluno do curso de engenharia mecânica da Universidade de Teerã

"Há dois anos, eu diria que meu ídolo era Khatami. Ainda gosto dele, mas não consigo entender o que ele está fazendo. Rezo para que ele renuncie o quanto antes, porque ele não é responsável pelo que está acontecendo e não queria que o nome dele passasse para a história assim." Azam*, 22, estudante na Universidade de Teerã

"Na política, quem eu admiro é Tony Blair." Iraniangirl*, 16, aluna do ensino médio em Teerã

Aspirações

"Viajar por todo o mundo e conhecer países diferentes é um dos meus sonhos. Na minha imaginação, a Suíça é diferente os outros países. Não sei por que, pois nunca estive lá!" Ahmadreza Ali-hosseini, 27, engenheiro em uma empresa de consultoria em Teerã, recém-formado

"Quero obter um doutorado em arquitetura e depois imigrar para os EUA e para o Canadá e abri um negócio." Babak G., 23, estudante de arquitetura em Karaj

"Há um ano, o que eu mais queria era ir para outro país, como os EUA ou a Itália, e continuar estudando lá, mas agora as coisas estão diferentes e não sei direito o que quero fazer." Iraniangirl*, 16, aluna do ensino médio em Teerã

*Pseudônimo. A maioria dos entrevistados pediu para não ter sua identidade revelada --em abril, o estudante Sina Motallebi foi detido, e ficou preso por 25 dias, por causa de seu blog crítico ao regime, e na semana passada o governo emitiu uma proibição ao sites de internet que falassem mal do regime

Colaborou Otavio Dias
 

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