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21/09/2003 - 04h48

Brasil pode ajudar Cuba a mudar, diz líder dissidente

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MÁRCIO SENNE DE MORAES
da Folha de S.Paulo

Às vésperas da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Cuba, na próxima sexta-feira, Oswaldo Payá, um dos principais dissidentes do regime de Fidel Castro, afirmou que, se o Brasil quiser auxiliar os cubanos, "terá de ajudar Cuba a mudar de regime, não apoiando seus atuais líderes". Lula é amigo de Fidel.

"Exortamos o presidente Lula a entrar em contato não apenas com o governo cubano, mas com todas as partes envolvidas no processo político do país", disse Payá em entrevista à Folha de S.Paulo.

Ele afirmou que, apesar do discurso socialista, as elites política e militar de Cuba têm direito à riqueza e ao luxo, enquanto a população da ilha enfrenta a pobreza, razão pela qual "a maioria do povo cubano quer mudanças".

Líder do Movimento Cristão de Libertação e do Projeto Varela pela democratização do país, ele pede um referendo sobre direitos humanos e reformas eleitorais.

Payá afirma que sua iniciativa é "uma campanha realizada em meio ao totalitarismo, em uma cultura do medo", cujo objetivo não é "tomar o poder", mas deflagrar "um processo endógeno de transformação e de libertação, um convite ao diálogo".

Nascido em 1952, Payá, católico fervoroso, passou três anos num campo de trabalhos forçados por opor-se à invasão soviética da então Tchecoslováquia, ação apoiada por Fidel. Leia a seguir trechos de sua entrevista, por telefone, à Folha de S.Paulo.

Folha de S.Paulo - Qual é a situação atual do Projeto Varela?

Oswaldo Payá - Estamos dando sequência a nosso trabalho apesar das dificuldades. Quando começamos a recolher as assinaturas para pedir o referendo, passamos a ser perseguidos pelo serviço de segurança do Estado, apesar de a nossa iniciativa ser legal. Nossos amigos que realizavam a coleta das assinaturas foram ameaçados ou detidos sem motivo aparente.

O serviço de segurança os sequestrava em plena rua, transportava-os por dezenas de quilômetros e soltava-os no meio de uma estrada, por exemplo.

Conseguimos 11 mil assinaturas [mais que o exigido pela Constituição para pedir um referendo] e enviamos o documento ao governo. Entretanto fomos atacados pelas autoridades, que disseram que os EUA estavam por trás do projeto. Também fomos atacados por parte da comunidade cubano-americana de Miami, que não concordava com uma iniciativa que visa realizar uma transformação endógena em Cuba.

Entregamos as assinaturas e criamos comitês de cidadania para continuar a campanha. Em seguida, o governo mudou a Constituição, mas os artigos a que se refere o Projeto Varela ainda existem, permitindo que continuemos a lutar por nossos objetivos.

Folha de S.Paulo - Contudo, em termos práticos, é possível dar continuidade a essa iniciativa?

Payá - Continuamos a coletar assinaturas, porém não queremos dizer quantas temos no momento. Temos milhares de novas assinaturas e comitês de cidadania em todo o país. No entanto a repressão ficou ainda maior. Depois da detenção de nossos companheiros no primeiro semestre, 85 ao todo desde janeiro --mais de 50 que trabalhavam com o Projeto Varela--, o serviço de segurança enviou agentes à casa das pessoas que assinaram o texto.

Esses agentes, que, aliás, estão escutando e gravando nossa conversa, diziam que defendiam o projeto e que tinham sido enviados por mim. Todavia tinham atitudes grotescas, afirmando que estavam lá para pagar pela assinatura do texto. Isso para tirar a legitimidade de nosso esforço.

Folha de S.Paulo - Se o Projeto Varela não tiver sucesso, como ocorrerá a transição? Só após a morte de Fidel?

Payá - Não. Trabalhamos para que o povo de Cuba seja o protagonista da mudança sem esperar a morte de Fidel. Sei que o que direi agora incomodará muita gente, pois ainda há um esforço para ter uma imagem positiva de Cuba em várias partes do planeta, mas devo fazê-lo: Cuba é um país de poucos ricos e de muitos pobres.

Há muitos anos, as pessoas que têm muito poder político ou militar e seus familiares são os chamados "novos ricos" da ilha. Eles viajam ao exterior, têm dinheiro de sobra, palácios, carros modernos.

Contudo a maioria do povo cubano quer mudanças. A marginalidade vem crescendo, os pontos positivos e as realizações do regime estão se deteriorando, e as pessoas de boa-fé, que confiavam no sistema, sentem-se hoje bastante decepcionadas. Assim, há uma contradição e um distanciamento muito grandes entre o governo e o povo. Mas a maioria das pessoas, incluindo militares e funcionários públicos, querem uma mudança pacífica.

Folha de S.Paulo - Como os outros países, sobretudo o Brasil, podem ajudar a população cubana?

Payá - Se quiser ajudar os cubanos, o Brasil terá de ajudar Cuba a mudar de regime, não apoiando seus atuais líderes. Afinal, se apoiar o regime atual, o governo brasileiro estará contribuindo para agravar as diferenças.

Nós, os oposicionistas cubanos, exortamos o presidente Lula, os partidos políticos e as instituições do Brasil a entrar em contato não apenas com o governo cubano, mas com todas as partes envolvidas no processo político do país.

Pedimos também que eles falem com representantes da sociedade civil, de nosso movimento e de outros grupos. Se isso não ocorrer, eles não terão uma verdadeira idéia da situação cubana.

O Brasil deveria defender a abertura de um diálogo entre o governo e a oposição em Cuba e exigir a libertação dos prisioneiros políticos do país, que estão presos em jaulas, vivendo num ambiente terrível.

Falo a todos aqueles que querem escutar o que digo. Falo de cardeais e de sacerdotes brasileiros, cujos testemunhos inspiravam nossa luta, pois defendiam o uso da espiritualidade nos momentos de perseguição. Falo de pessoas como Frei Betto. Ele escreveu maravilhosamente sobre o direito à libertação, mas apóia hoje o regime oligárquico cubano.
 

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