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Entrevista Luiz Felipe Scolari

Cristiano Ronaldo é mais fantástico do que Messi

Campeão em 2002, técnico da seleção vê três times à frente da espanha e afirma não ter medo de perder a copa em casa

MARTÍN FERNANDEZ DE SÃO PAULO

Luiz Felipe Scolari, 64, não se esconde. Último treinador campeão mundial com a seleção brasileira, foi chamado há cinco meses para dirigir o Brasil na Copa do Mundo, que começa daqui a 14 meses.

Assumiu o time e se impôs a missão de aproximar a torcida de uma seleção que ele sabe estar distante. Em quatro partidas, o técnico soma uma derrota para a Inglaterra, empates ante Itália e Rússia e vitória sobre a Bolívia.

Em entrevista à Folha, Felipão desafia o senso comum. Cita três times à frente da favorita Espanha, põe Cristiano Ronaldo à frente de Messi e assume o risco: "Não tenho medo de perder o Mundial".

Folha - Depois de quatro jogos, em que ponto está a seleção brasileira hoje?
No ponto certo. Já temos uma base, um estilo de jogar. Faltam algumas definições, treinar algumas alternativas.

Para estar na seleção tem que estar jogando no clube?
Não, não é preciso, não. Eu tenho que ter a convicção de que o jogador é importante para a seleção brasileira.

Até onde Neymar vai chegar?
O Neymar é muito, muito bom, como jogador e como atleta. Ele é obediente e, taticamente, está mais completo. Ele tem uma liderança muito grande. É um jogador que vai ainda ser muito melhor daqui a dois, três, cinco anos. E aí por mais dez anos.

Você tem uma preocupação de protegê-lo, mimá-lo?
Não diria mimar. Mas ele tem muitos contratos, tem muitas situações fora do futebol em que é envolvido. Se eu conseguir preservá-lo na seleção, vai ter mais descanso. Futebol é corpo, tem que estar inteiro, voando.

Nesse sentido, ir para a Europa pode ser bom para ele?
Na Europa, trabalha-se de forma diferente esse aspecto. A mídia não tem tanto acesso. O clube não permite, toma conta das áreas comerciais.

Para a seleção, seria melhor?
Eu vi o Neymar melhorar muito nos últimos dois anos, com o Muricy [Ramalho] no Santos. Se ele quiser ir, vai ser ótimo. Para a seleção seria bom. Mas ele não precisa ir.

É preciso ter volantes mais marcadores no meio?
A seleção ganhou em 1994 e quem eram os volantes? Mauro Silva e Dunga. 2002? Gilberto Silva e Kleberson. Essa história de volante goleador é muito bonita para a imprensa. É bonito, só não é bonito para o técnico e o time. Quando tu tens laterais como os nossos, Daniel Alves e Marcelo, tem que ter proteção.

Quem são os maiores rivais do Brasil para 2014?
Dos que já estão organizados, Alemanha, Itália pela tradição e porque renovou, temos a Argentina jogando muito bem. Quem mais? Num nível já muito bom são essas.

Deixou a Espanha fora dessa lista de propósito?
Eles [Espanha] vêm jogando juntos e tudo mais, mas vamos ver essa parte final da eliminatória. A Holanda joga muito bem, a Rússia vai incomodar. Mas aqueles três, com a Espanha sendo uma quarta, vão estar entre os oito.

O Brasil é favorito?
Favorito absoluto não. Está no nível de outros. Não temos diferença nenhuma para os outros. O que falta é a definição total de como jogar. Aí nossa qualidade entra.

Quando assumiu, Dunga teve a missão de resgatar o respeito pela camisa; Mano, a de renovar o time. E você?
Não recebi missão nenhuma. Tenho que montar uma boa equipe, fazer o povo acreditar que a seleção vai ganhar a Copa, resgatar a imagem, porque a gente nota que a população está um pouco...

Desconfiada?
Isso. Resgatar a imagem de que a seleção é importante, como jogo de futebol e como emblema. E a gente vem fazendo um pouquinho, melhorando essa imagem.

Você leva o peso de ser considerado o salvador da pátria?
Eu fico feliz, porque quando eu saio, o que mais ouço é isso, nos aeroportos, em qualquer lugar, é que "Estamos contigo", que "Agora vai". Eu passo a ideia de que vamos ganhar, de que temos condições de ganhar.

Teme deixar de ser o técnico que ganhou a Copa de 2002 para virar o que perdeu 2014?
Se eu pensar dessa forma... O cara que vendeu um terreno na av. Paulista, por R$ 50 milhões, nunca mais vai vender terreno? Passou. Aquela Copa foi ganha, terminou, vou atrás de outro objetivo. Tenho que pensar de forma otimista, que vou ganhar. E, se perder, será porque não tive qualidade, meus jogadores não foram superiores aos outros. Não tenho esse medo.

Em 2001 você assumiu a seleção com um presidente da CBF contestado, Ricardo Teixeira. A situação se repete agora com José Maria Marin. Isso afeta o seu trabalho?
Na minha área não. Porque divide-se muito. Nós temos a CBF entidade, lá, mas a minha área é a técnica.

Como é conviver com Marin?
A gente conversa, explica o que está fazendo. O presidente e o Marco Polo [Del Nero, vice] têm sido muito legais, nos deixam à vontade para convocar, para administrar. Está muito bom.

Os técnicos brasileiros estão desatualizados? Você está?
Não. Eu troco informações, vou a seminários. Converso com Arsène Wenger, Paulo Bento, Fabio Capello. Cada um fala o que quer. O Ronaldo, por exemplo, disse que tem outras opções para a seleção. Respeito as opções dele. Ele já fez as opções dele.

Cristiano Ronaldo ou Messi?
Messi é fantástico, mas Cristiano é mais fantástico.

Se pudesse naturalizar um deles brasileiro, qual seria?
Não dá, não posso [risos]. Já fui criticado porque naturalizei Deco e Pepe em Portugal. Imagina aqui. Gosto do Cristiano por outra razão.

Qual?
No Barcelona, as outras estrelas não se incomodam com a grande estrela, que é o Messi. No Real Madrid, a impressão que eu tenho é que as outras estrelas se sentem incomodadas com a grande estrela que é o Cristiano. Ele faz tudo que faz, iguala o Messi, então para mim é o Cristiano.

Seleção de 1982 ou 1994?
1994. Foi vencedora.

Guardiola ou Mourinho?
São dois dos melhores do mundo, do mesmo nível.

Você já disse que jogador bom é jogador com fome. Essa geração do Brasil tem fome?
O Neymar ganha o que ganha e tem fome. Cristiano Ronaldo tem fome. Já ouviu falar de o Messi faltar a treino?

Vai recriar a família Scolari?
Já passou. O termo foi ali de 2002. Agora é outro grupo, não sei que palavra nós vamos achar. Mas, pelo que vi, vamos ter um ótimo grupo.

Em 2002 seu livro de cabeceira era "A Arte da Guerra". E hoje?
Ah, já não é mais o mesmo. Estou buscando alguns livros, algumas citações.

Tem como controlar jogador?
Tem. Tu podes deixar até determinado horário, eles estão ali, tu observas. E eles também são responsáveis.

E acesso a redes sociais?
Eu acho que não deveriam falar nada. A gente pede, não exige. Nós indicamos o caminho. Mas não dá para pegar uns caras de 30 anos e dizer que está proibido, é absurdo. Se interferir no ambiente, a gente vai tomar posição.

Onde você se vê no dia 14 de julho de 2014?
Ainda no Rio. O jogo [final da Copa do Mundo] vai ter sido na noite anterior, no Maracanã. Vou querer pegar um avião para algum lugar do Brasil. E a final da Copa é no dia 13, vou levar o Zagallo.


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