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Jango em transe

Único texto para teatro de Glauber Rocha, 'Jango: Uma Tragedya' é montada na comemoração dos 50 anos de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol'

IARA BIDERMAN DE SÃO PAULO

O presidente deposto João Goulart (1916-76) e o político pernambucano Miguel Arraes (1916-2005) tentam um acerto de contas, enquanto fumam haxixe. Estamos em 1975.

Passada na Argélia, a cena em câmera lenta e acompanhada pela dança de uma odalisca abre o segundo ato de "Jango: Uma Tragedya", única peça teatral escrita pelo cineasta baiano Glauber Rocha (1939-81).

Pouco conhecida (foi montada uma só vez, em 1996), a peça foi escolhida para lembrar três cinquentenários: do Teatro Vila Velha, em Salvador, do golpe militar de 64 e do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol".

"É boa homenagem a Glauber. Ele tinha ligações com o teatro, se tivesse tido tempo teria escrito mais peças", diz o ator Othon Bastos, que faz o papel do cangaceiro Corisco em "Deus e o Diabo...".

Como o filme, a peça --um musical-- é barroca e delirante. Na trama, Jango transa com Carmen Miranda, canta Elizabeth Taylor e, quase sempre com um copo de uísque na mão, tem encontros com Arraes, Leonel Brizola e Francisco Julião, entre outras figuras.

"Depois que o Glauber conheceu Jango pessoalmente, começou a recolher material sobre ele", conta o escritor e diretor Luiz Carlos Maciel.

A peça foi escrita entre os dias 13 e 15 de novembro de 1976. Jango morreu no dia 6 de dezembro daquele ano.

MISSÃO

Antes de Glauber partir para sua última viagem à Europa, em 1980, entregou o texto a Maciel. Márcio Meirelles, diretor artístico do Teatro Vila Velha, diz que leu a peça em 1987, mas não podia encená-la, já que Glauber tinha deixado essa missão para Maciel.

Duas décadas depois, Meirelles procurou Lúcia e Paloma Rocha, mãe e filha do cineasta, pedindo autorização para a montagem. "Elas deixaram à minha disposição o acervo de Glauber sobre Jango, um dossiê de mais de 700 páginas", diz Meirelles.

A peça é só uma parte dessa maçaroca. "Glauber ficou fascinado com a visão política de Jango. Foi o ex-presidente que lhe disse que não dava para redemocratizar o Brasil sem a participação dos militares", afirma Maciel.

As opiniões polêmicas de Glauber jorram em discursos no palco. "Não tem de fato um enredo, são fragmentos de um libelo político", diz Meirelles.

A música atravessa a peça inteira. Glauber escreveu as letras e indicou como musicá-las: sambinha à la Caymmi, levemente bossa nova, rock febril e até um "tango jango".

As indicações foram a base para as danças, criadas pela coreógrafa baiana Cristina Castro. "Os atores circulam pelos níveis do palco, correm muito. Quis trazer os delírios de Glauber para a movimentação em cena", diz Castro.


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