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Carlos Heitor Cony

1964 - O último dia de Jango

RIO DE JANEIRO - Lá pelas 10 horas da manhã, sentindo que nada mais tinha a fazer no Rio, João Goulart partiu para Brasília. Lá chegando, descobriu que também não tinha mais governo. Houve apelos à resistência, mas preferiu embarcar para Porto Alegre, onde foi recebido por alguns soldados que lhe prestaram a guarda regulamentar. Reuniu-se com Brizola, que desejava a resistência a qualquer preço, bastava uma palavra de Jango e o movimento militar se transformaria realmente em guerra civil.

Mas ele era homem pacífico e derrotado. Se resistisse, poderia retornar ao poder na crista de uma revolução. Sua índole não era guerreira, governava com tédio, nostálgico de seus campos e de suas invernadas. Cumprira o seu papel dentro das possibilidades de um homem introvertido, inseguro, levado pelos acontecimentos.

Ao contato com as massas, ele se transformava, tinha no sangue o carisma do caudilho de fronteira. Fizera o impossível para se manter no poder, não faria o absurdo. No dia seguinte partiria para o Uruguai, num comprido exílio que devastou seu rosto, tornando-o vincado, sofrido, velho.

O aspecto negativo de seu governo prevalecerá, mas os historiadores já começam a suspeitar que ele foi deposto mais pelas suas qualidades do que por seus defeitos. Não teve comando para domar assessores mais radicais. Criou a Eletrobras que Getúlio Vargas arrolou na carta-testamento como uma empresa "obstaculizada até ao desespero".

Iniciou os estudos para a construção de uma gigantesca usina, aproveitando o potencial do rio Paraná, e Itaipu forneceria os 12 milhões de kW necessários ao progresso do país. Embrulhado em tantos problemas de ordem institucional e em suas próprias contradições de classe, faria mais se a pressa das esquerdas em aproveitar o vento da história não o tivesse escolhido para um papel que ele dispensava e, no fundo, desprezava.


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