Siga a folha

Descrição de chapéu inflação juros

Anomalia pressiona inflação de alimentos, diz economista

Combinação entre real desvalorizado e alta na cotação de matérias-primas agrícolas eleva preço da comida no Brasil, afirma Alexandre Mendonça de Barros

Conteúdo restrito a assinantes e cadastrados Você atingiu o limite de
por mês.

Tenha acesso ilimitado: Assine ou Já é assinante? Faça login

São Paulo

O Brasil vive hoje uma anomalia, afirma o economista Alexandre Mendonça de Barros. Há uma forte demanda chinesa por matérias-primas —ou commodities, para usar o termo em inglês comum no mercado. Assim os exportadores brasileiros, especialmente os de produtos agrícolas, têm sido beneficiados por um verdadeiro mini boom na demanda.

Ao mesmo tempo, porém, o real sofre uma violenta desvalorização —mas deveria ocorrer o contrário.

“Quando a commoditie sobe de valor, e você tem um ganho de termos de troca, em um regime de câmbio flexível o real se valoriza. Só que o real não está se valorizando”, diz ele.

Alexandre Lahóz Mendonça de Barros, 52, é engenheiro agrônomo e doutor em economia aplicada pela Esalq/USP. É sócio-consultor da MB Agro e membro dos conselhos do Grupo Otávio Lage, Frigorífico Minerva, Guarita e Grupo Roncador. É membro do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp. - Zanone Fraissat/Folhapress

Essa situação exótica, afirma o economista, indica que boa parte do ganho com as exportações não está sendo trazida para o Brasil. Uma parcela foi usada para pagar dívidas, afirma. Outra, porém, simplesmente fica lá fora.

E aí, ele identifica duas razões para essa decisão: os juros muito baixos no Brasil e o início de uma desconfiança enorme com a política fiscal.

Diferentemente de outras crises, que parecem distantes da vida real, essa distorção entrou para a rotina do brasileiro, principalmente dos mais pobres. Impulsionou uma forte alta no preço da comida, elevando a inflação de alimentos.

*

Em apresentações, o sr. tem dito que o Brasil está vivendo, em especial no agronegócio, uma espécie de novo boom das commodities. Como é isso?
Há dois fundamentos macroeconômicos lá fora que estão levando ao que eu chamo de miniciclo de commodities. Eu queria por ênfase no mini, porque não tem nada parecido com a era Lula. Aquele era um momento de globalização, de forte crescimento econômico, de uma liquidez absurda. A gente estava vendo outro padrão internacional.

Provavelmente, no ano que vem vamos ter uma retomada da atividade econômica no mundo. Mas vamos crescer porque o mundo diminuiu de tamanho neste ano. É como voltar ao final de 2019. A gente já nota uma retomada nos preços da soja, nosso principal produto exportado. No auge da pandemia, estava US$ 8,40 por bushel [unidade de medida internacional que equivale a quase metade uma saca brasileira de 60kg]. Bateu US$ 10,40 na semana passada.

A inflação de alimentos apareceu na China porque o segundo trimestre já marcou uma retomada de crescimento. Então, por uma certa analogia, os macroeconomistas olham para o que está acontecendo na China e falam: “puxa, vai vir uma onda de demanda de commodities e isso deve impulsionar os preços”.

Existe uma coisa que a gente aprendeu durante a pandemia, no caso dos alimentos: para alguns produtos, o consumo por refeição fora de casa é maior que dentro de casa. No dia a dia, você come menos carne, toma menos café.

A retomada da atividade econômica tem uma pressão de maior demanda, seja porque a renda melhora, o emprego melhora, seja porque você volta à normalidade, e isso afeta o sistema de consumo.

É a retomada do ciclo econômico puxando o preço de commodities.

Uma segunda variável que se mostra muito consistente em estudos econométricos é que, normalmente, quando o dólar se deprecia, as commodities sobem de preço em dólar. A moeda americana se depreciou no mundo. A gente viu esse contágio pular para as commodities. As metálicas e as agrícolas andaram. Os fundos de investimento voltaram a comprar mais commodities agrícolas.

A combinação dessas duas coisas vem fazendo com que os preços de commodities subam em dólar de uma maneira muito relevante.

O que isso representa para o Brasil?
A gente diz que o Brasil está vivendo um choque de termos de troca, porque os produtos que nós exportamos estão se valorizando. Na era Lula, naquele boom de commodities, muitos economistas calcularam que até um quarto do crescimento se devia a esse ganho nos termos de troca.

Neste momento, porém, há uma anomalia no Brasil. Quando a commoditie sobe de valor, e você tem um ganho de termos de troca, em um regime de câmbio flexível o real se valoriza. Só que o real não está se valorizando. É como se o choque de commodities se ampliasse para dentro do país.

Essa é uma coisa estranha.

E por que o real não está se valorizando?
A gente vê duas razões. Para reforçar essa questão: a soja voltou para US$ 10,40. No auge daquele boom anterior de commodities, chegou a US$ 16 por bushel. O milho está se aproximando de US$ 4. Ele chegou a valer US$ 7 naquele outro momento.

Mas, em reais, os preços nunca chegaram ao que está acontecendo hoje, porque, naquela época, o real estava muito forte. O que está acontecendo é que o preço está subindo em dólar e também em reais, muito fortemente.

De onde vem essa fraqueza do real?
Primeiro, porque estamos com uma Selic de 2% e uma inflação que vai ser de 2,5%, 3% —portanto a taxa real de juro é negativa. Qual a implicação disso? Não há entrada de dólar para arbitrar diferencial de juros entre Brasil e EUA e Europa.

A gente também está vendo que muitas empresas estão matando suas dívidas em dólar lá fora e tomando dívidas em reais. Ou seja, eu realizo a exportação, mas não internalizo o mesmo volume de dólares.

A outra razão é que estamos indo para uma situação fiscal extremamente complicada. Isso eleva a percepção de risco e, com isso, o real se mantém depreciado.

É uma das coisas mais impressionantes que eu já vi. Se você faz uma conta da renda bruta dos principais produtos agrícolas brasileiros, que representam quase 90% da renda agrícola, por quatro anos, de 2016 e 2019, ficou em R$ 500 bilhões. Neste ano, estou estimando R$ 660 bilhões. Se a safra do ano que vem for boa, pode ser R$ 750 bilhões.

Estamos tendo um aporte de renda em dois anos, não só porque o preço em dólar subiu e o câmbio está depreciado, mas o fato é que é a primeira vez na história do país que você tem um choque de termos de troca relevante —porque o preço em dólar das commodities está subindo— e o real continua depreciado, o que mantém os preços em reais dessas commodities extremamente elevados, nos patamares mais altos já registrados.

Se o nosso exportador está ganhando tanto dinheiro e não estamos vendo esse sinal no câmbio, cadê o dinheiro?
Você tem dois movimentos. Quem está exportando está deixando um pedaço dos dólares lá fora, e também deixou de vir dólar para arbitrar taxa de juros. A combinação disso dá essa coisa exótica. É por isso que a inflação de alimentos é tão forte. Estamos vendo inflação de metálicos, de químicos. A gente está percebendo que tem um certo impulso na inflação decorrente dessa situação inusitada.

Isso seria apenas uma falta de atração da economia local ou início de crise de confiança?
Uma mistura das duas coisas. Neste momento não atrai porque o juro é muito baixo, mas isso vai deixar de ser verdade no futuro. De outro lado, é o início de uma desconfiança enorme com a política fiscal.

Parte de termos preços agrícolas tão altos e uma inflação tão alta também é consequência de um voucher muito forte. Ele permitiu pagar preços de alimentos muito elevados. A gente exportou muito e, ao mesmo tempo, o mercado interno foi podendo pagar preços elevados de alimento, reforçando esse ciclo externo.

Até dois meses atrás os preços agrícolas estavam caindo no mundo todo por causa da pandemia. Conforme a China começou a retomar sua expansão e puxar muito produto agrícola, houve já uma recuperação, teve o problema da safra americana, teve essa situação de desvalorização do dólar, já houve uma movimentação de elevação da inflação aqui dentro.

O que nos leva à política. A popularidade do governo aumentou muito, mas às custas de uma deterioração fiscal muito grande. E estamos à beira de uma decisão de prorrogar ou não os R$ 300 [do auxílio emergencial] para 2021.

Acho que isso vai acontecer, o que vai complicar ainda mais o quadro fiscal, que não vai melhorar tão cedo. Ao contrário, pode sair de controle.

Eu consigo ver esse ciclo durar um, dois anos. O ciclo de alta em dólar pode até ser um pouco mais. Mas é possível que, na hora em que a gente começar a subir a taxa de juros, o real comece a apreciar um pouco.

Para 2021, não será assim, vamos continuar com real depreciado, porque a taxa de juros não deve subir tão rápido assim. São preços de commodities bem mais baixos em dólar que na época do Lula, mas com um efeito em reais muito significativo.

Esse ciclo pode durar até dois anos, já temos uma inflação de alimentos muito alta. Quanto tempo demoraria até que a demanda e oferta mundial se reequilibrassem? 
Antes da pandemia, o mundo vivia um choque agrícola sem precedentes, que foi o problema de peste suína africana que apareceu na China, a maior produtora de suínos do mundo. Veio a peste e dizimou 45% do rebanho suíno chinês.

Por essa razão o preço do porco explodiu para o patamar mais alto da história. É a principal carne consumida pelos chineses, e isso fez com que eles tivessem de importar um volume absurdo de carne, o que bateu no boi e no porco brasileiro. Hoje, 40% a 45% do comércio mundial de suínos e 35% de bovinos vai para a China. Tem claramente uma demanda chinesa por falta de oferta de carne lá dentro.

Ao mesmo tempo, um bom pedaço do que foi destruído do rebanho era porco de fundo de quintal, minifúndios, que não consumia ração. Essa recomposição é feita em cima de uma tecnologia de ração.

Não é por outra razão que a demanda por soja explodiu. Os chineses já compraram a safra 2021, já alongaram as compras para a safra 2022, porque sabem que vão demandar muita ração.

Se pensarmos em inflação, e já estamos nos níveis de preços mais altos da história em muitos produtos, eu não consigo ver repetir uma inflação de alimentos da magnitude de 12%, que é o que estamos projetando para este ano.

Por outro lado, também não consigo ver devolver isso significativamente. Se as commodities subiram de preços, o mesmo vai acontecer para fertilizantes, químicos.

Com o real depreciado, o custo de produção sobe. Para 2021, estou projetando uma inflação de alimentos de 4%, muito abaixo da atual, mas não é uma variação negativa.

Muita gente no mercado tem uma leitura de que, no ano que vem, os agrícolas devolvem tudo o que subiram. Não acredito nesse cenário. O meu cenário tem uma implicação social relevante, que é manter os preços de alimentos relativamente altos enquanto o câmbio estiver onde está.

É normal ter uma venda tão antecipada da safra?
Uma venda antecipada dois anos antes eu nunca tinha visto. Para 2021, tudo bem, só que ela já começou em abril. E já foi vendido um pedaço relevante da safra 2022. Só mostra o quanto a China está ávida por grãos, soja principalmente. Fiquei assustado porque tive algumas consultas para a safra 2023.

Milho, para o ano que vem também tem muita gente vendendo. Isso gera um choque significativo de renda. Estou menos pessimista com esse crescimento. Por isso que essa inflação preocupa.

O sr. citou o coronavoucher. Ele teria sido até mais que o necessário?
Não foi adequadamente avaliado o impacto que isso teve na inflação. Tem impacto duplo, porque ele estoura as contas públicas —o que bate no câmbio, e puxa o preço dos alimentos— e, ao mesmo tempo, você teve uma transmissão de preços no mercado interno extremamente elevada por um consumo mais forte.

Não foi dado o devido peso ao coronavoucher na transmissão dos preços agrícolas. Como eu tenho renda, consigo transmitir internamente um nível de preço absurdamente alto. Consolido um quadro fiscal que gera excesso de demanda, que por sua vez gera escassez.

No fundo, você estimulou o consumo acima do normal. Não houve alta de preços de alimentos durante as paralisações na maioria dos países.

No nosso caso, no meio da recessão, os preços não pararam de subir, porque uma exportação muito agressiva se complementa com o voucher, e agora a terceira onda é subir preço em dólar com câmbio depreciado. É um choque de renda na economia brasileira muito grande.

Receba notícias da Folha

Cadastre-se e escolha quais newsletters gostaria de receber

Ativar newsletters

Relacionadas