Descrição de chapéu Otavio Frias Filho

Um irrequieto entre nós

Otavio quis viver mais do que lhe foi dado ou permitido, e realizar bem mais do que o muito que fez pelo jornalismo, pelo teatro, pelo pensamento e pela democracia

O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, passa entre os convidados após discursar na Sala São Paulo em comemoração aos 90 anos do jornal - Caio Guatelli-21.fev.2011/Folhapress

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Marcelo Coelho

Diretor de Redação da Folha de S.Paulo desde 24 de maio de 1984, Otavio Frias Filho nasceu em São Paulo, no dia 7 de junho de 1957. Filho mais velho do empresário Octavio Frias de Oliveira (1912-2007), fez até o quarto ano do ensino fundamental no Jardim Escola São Paulo, depois completado no colégio Santo Américo, tradicional instituição de ensino dirigida por beneditinos húngaros.

Não professou durante a vida adulta nenhum tipo de crença religiosa. O ambiente em sua casa combinava o espírito irônico, irreverente e crítico de sua mãe, Dagmar Frias de Oliveira (1925-2008), com o temperamento positivo, pragmático e decidido do pai.

Seu Frias, como era chamado, inculcou no filho hábitos de consumo muito austeros. Até os 18 anos, Otavio compartilhava com seu irmão mais novo, Luiz, o mesmo quarto, numa casa sem dúvida espaçosa, mas destituída de qualquer luxo.

Um sofá verde abacate de formato indefinido, encostado a uma parede branca em que se penduravam um ou dois quadros de nulo valor econômico, sobreviveu por décadas no apartamento de três quartos, perto do Ibirapuera, onde o herdeiro do maior jornal do país parecia mais acampar do que viver.

Octavio Frias de Oliveira, Luiz Frias e Otavio Frias Filho folheiam jornal na sala de almoço da sede da Folha, onde receberam convidados - Eduardo Knapp-4.set.06/Folhapress

Mudando-se para Higienópolis, depois de sua união com Fernanda Diamant —mãe de suas duas filhas, Miranda e Emilia—­­, Otavio persistia num desinteresse quase calvinista pelo conforto pessoal. Bancos de madeira, num mobiliário de copa, funcionavam-lhe a contento na sala de jantar, onde nada mais que uma cozinha trivial, ocasionais hambúrgueres e sorvete (ele preferia da Kibon) costumavam ser servidos.

Do ponto de vista físico, e também na personalidade, Otavio se assemelhava muito mais à mãe, mulher magra, de traços afilados, riso silencioso e gesticulação discreta, do que ao pai, expansivo, audacioso e solar.

Talvez por saber-se tão diferente do pai, Otavio dedicava-lhe mais do que um natural amor ou uma merecida admiração. Havia algo de absoluto em sua lealdade à figura paterna. O pai retribuía-lhe —em especial desde que Otavio passou a frequentar cotidianamente o jornal, em 1975— com uma confiança plena, igualmente inabalável e até surpreendente, dadas as distâncias de idade e de vivências entre os dois.

O maior sinal dessa aliança profunda deu-se em 1984, quando logo após assumir a Direção de Redação, sucedendo a Boris Casoy, Otavio enfrentou um movimento de resistência maciça ao projeto editorial que ia implantando.

Tratava-se, bem ao estilo sistemático e organizador que o caracterizava, de estabelecer critérios extremamente exigentes de padronização textual e, sobretudo, de apartidarismo e equilíbrio na prática jornalística. Pai e filho foram implacáveis na concretização dessa ideia, que marcaria a história da imprensa brasileira.

Otavio deixa inacabado um livro em que pretendia traçar um quadro, entre ensaístico e biográfico, dos tempos e da vida de seu pai, entremeando-os com suas próprias experiências atuais. Antes disso, planejara um estudo sobre Monteiro Lobato e, mais recentemente, um ensaio longo sobre Carlos Lacerda, do qual resultou uma versão resumida, publicada na revista Piauí.

Herdar a Folha de S.Paulo foi, para Otavio, uma missão a que se entregou com todas as armas de sua excepcional inteligência e com um empenho que se revelava, especialmente, nos momentos de maior crise e ameaça —como ocorreu, por exemplo, quando o então presidente Fernando Collor de Mello o perseguiu com uma ação penal.

Mas estar à frente da Folha também representou para Otavio o abandono das muitas atividades para as quais estava naturalmente vocacionado —ensaísta, dramaturgo, intelectual, quem sabe mesmo ator (sua experiência nos palcos está narrada em “O Terceiro Sinal”, ensaio mais tarde transformado em monólogo pela atriz Bete Coelho).

A sua grande facilidade expositiva, o senso de ordenamento das ideias, sem contar a paciência com o intelecto alheio, poderiam ter feito dele um acadêmico; chegou a manifestar, por vezes, o intuito de se tornar professor no ensino médio.

Com exceção de uma passagem pela Casa do Saber —onde deu aulas sobre a história dos Estados Unidos—, também esse projeto teve de ceder à rotina, que frequentemente o exasperava, da direção jornalística.

Otavio ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1975, sem intenção de seguir nenhum tipo de carreira jurídica. Embora fosse previsível que viesse a ocupar a direção da Folha (jornal que seu pai adquirira em 1962), sua veleidade juvenil era a de se dedicar à política.

Mostrando os atritos entre o jornalismo e a ambição política, “Cidadão Kane”, de Orson Welles, seria para sempre o filme preferido desse grande admirador de Kubrick e do cinema de ficção científica americano. Otavio planejou transpor para um roteiro de cinema o livro “Minha Razão de Viver”, de Samuel Wainer. Comédias italianas, especialmente quando apelassem à comilança e à escatologia, contavam com sua total aversão.

Na faculdade, “Otavinho” —como era chamado à época— teve participação intensa nas lutas pela direção do Centro Acadêmico XI de Agosto, contribuindo com seu talento de articulador para a primeira vitória, após anos de repressão, de uma chapa contrária ao regime militar.

Em 1977, o movimento estudantil renascia como força importante na luta pela redemocratização do país. A faculdade de direito reunia personalidades de grande destaque nesse processo, como Goffredo Telles Junior e Dalmo Dallari; sem tanta atuação pública, mas com forte influência intelectual, professores como José Eduardo Faria, Celso Lafer e Tercio Sampaio Ferraz Jr. acentuaram o interesse de Otavio para a ciência política e a sociologia.

Sob orientação de Ruth Cardoso, inscreveu-se na pós-graduação em ciência política da FFLCH-USP, com um projeto sobre o movimento de 1964, cuja conclusão interromperia para assumir o comando do jornal.

Otavio Frias Filho com a irmã Maria Cristina Frias, colunista e acionista da Folha, durante o Prêmio Empreendedor Social - Leticia Moreira-7.nov.12/Folhapress

Por muitos anos, os retratos do teórico marxista Antonio Gramsci e do sociólogo alemão Max Weber permaneceram na parede de seu quarto de estudos, enquanto se firmavam seu desencanto com as promessas de uma carreira política e seu ceticismo quanto à capacidade de indivíduos ou partidos interferirem sobre o desenvolvimento histórico a longo prazo.

Seria esse o tema de sua peça de estreia como dramaturgo, “Tutankaton”, sobre as vãs pretensões do famoso faraó egípcio em mudar o sistema religioso de seu tempo.

A formação intelectual de esquerda prosseguiria pela influência decisiva de Cláudio Abramo —que lhe deu de presente, no aniversário de 18 anos, “O Capital”, de Marx. Roberto Mangabeira Unger, em Harvard, seria outro interlocutor importante nesses anos.

Com a abertura política, o jornal pôde finalmente abrir-se à colaboração de figuras que voltavam do exílio ou do ostracismo forçado, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e logo em seguida Florestan Fernandes.

Como editorialista e “secretário” do Conselho Editorial da Folha, veio de Otavio o ímpeto para engajar o jornal na campanha das Diretas Já, em 1983.

Na derrota do movimento, seu editorial “Cai a emenda, não nós” foi capaz de oferecer, no calor da hora, a resposta política e emocional que o momento exigia. Foi assim, igualmente, que sua “Carta aberta ao presidente da República”, em 1991, deu um basta às pretensões liberticidas de Fernando Collor.

O compromisso com o apartidarismo do jornal se traduzia, por vezes, em extremos de escrúpulo. Em mais de uma ocasião, Otavio chegou a contar o número de linhas dedicadas a cada candidato em determinado texto analítico, para garantir absoluta proporcionalidade de tratamento aos concorrentes.

A desilusão de Otavio com as práticas e ideais da esquerda aprofundou-se a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989; viria a reforçar-se, no plano pessoal, pelas realidades que enfrentava na empresa, exacerbando-se novamente ante as novas formas da militância feminista.

A Folha já não despertava as simpatias daquele público que ele próprio conquistara, com ousadia, na década de 1980. Otavio nunca deixou de ver nisso um fenômeno passageiro e, como gostava de dizer, obediente aos movimentos pendulares da história e da ideologia. Cabia-lhe garantir o pluralismo de sempre no jornal e, nos textos que ele próprio assinava, um senso de máximo distanciamento crítico e precisão.

O paletó quase invariavelmente preto, o tom excessivamente contido de suas intervenções, o constante desalento com a qualidade do que via impresso davam a Otavio uma aparência de melancolia que, fora das atribuições cotidianas do jornal, desaparecia rapidamente.

Os amigos —que foram muitos, no meio jornalístico, literário e teatral— conheciam seu gosto pela especulação extravagante, pela fantasia ociosa, pelo nonsense, pela brincadeira benfazeja e, sobretudo, pelo que pudesse encontrar de bizarro, de paradoxal ou de secreto no comportamento alheio.

A curiosidade científica, nesse espírito avesso à matemática, voltava-se especialmente para o ser humano: Otavio aprofundou-se em Lévi-Strauss e em Freud, antes de se apaixonar pela neurociência e pelas modernas aplicações do darwinismo. Em literatura, confessava-se pouco sensível à poesia de Drummond e algo desconfiado com relação a Machado de Assis. A Dostoiévski e Schopenhauer aderiu sem restrições.

Pouco interessado em viagens de turismo e nada apreciador de voos de avião, Otavio era movido ao mesmo tempo por um intenso desejo de aventura e novidade. Isso se refletia, de modo certamente doloroso para ele próprio, nos muitos envolvimentos amorosos que teve. Mas também acontecia nos momentos em que o autor da peça “Don Juan” (1995) se jogou, num movimento tão planejado quanto instintivo, em experiências de virtual autoanulação, como as que narra em seu livro de ensaios “Queda Livre”.

Do Santo Daime ao voluntariado no CVV (Centro de Valorização da Vida), passando pelos terrores de uma estreia teatral, o diretor de Redação da Folha quis viver mais do que lhe foi dado ou permitido, e realizar bem mais do que o muito que fez pelo jornalismo, pelo teatro, pelo pensamento e pela democracia do país.

diagnóstico de um câncer no pâncreas lhe veio em setembro de 2017. Apesar de cinco ciclos de quimioterapia e das dores que já se manifestavam, sentia-se bem, com o equilíbrio e o realismo de sempre, até dez dias atrás. Terminou um livro de contos infantis, “A Vida é Sonho e Outras Histórias para Pensar”, e preparava o livro sobre o pai. A sua força intelectual sempre foi uma arma contra o desespero.

Assistiu ao primeiro debate entre os candidatos à Presidência, na quinta-feira (9), e foi internado na sexta, com um quadro que se agravou com velocidade devastadora. A medicina já não lhe podia oferecer mais que um fim indolor e sereno, na lucidez e na humanidade que marcaram sua vida.

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