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30/04/2007 - 06h04

Empresário foi obstinado por independência e novidades

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da Folha de S.Paulo

Obcecado pelo trabalho, estabeleceu para a imprensa brasileira um patamar inédito de distanciamento frente aos poderes político e econômico, baseado na pluralidade e no espírito público do jornalismo.

Penúltimo dos nove filhos do casal Luiz Torres de Oliveira e Elvira Frias de Oliveira, Frias nasceu em Copacabana, em 5 de agosto de 1912.

Pertencia a uma família tradicional do Rio de Janeiro. Seu bisavô fora o Barão de Itambi, político influente no Segundo Reinado. Seu avô, Luiz Plinio d'Oliveira, construiu os Arcos da Lapa, adutora que trazia água de Santa Tereza para o centro da capital.

Apesar dessas raízes, sua infância foi marcada por dificuldades. Em 1918, seu pai, que era juiz de direito em Queluz (SP), licenciou-se para trabalhar com o industrial Jorge Street, casado com uma tia de Elvira, um pioneiro do setor têxtil. A família mudou-se para São Paulo, e Frias foi estudar no Colégio São Luís, mantido por padres jesuítas e um dos mais conceituados da cidade.

Antes de completar oito anos, Frias perdeu a mãe. Em seguida, a família foi abalada com a quebra da indústria de Street e passou a viver apuros financeiros. Já não era mais possível pagar em dia as mensalidades do colégio, freqüentado pela elite paulista, e o menino Frias ia às aulas com sapato furado, forrado com jornal por dentro para tapar o buraco. Gostava de história universal, sonhava em ser advogado, mas resolveu abandonar os estudos aos 14 anos para começar a trabalhar.

Seu primeiro emprego (1926) foi como office-boy na Companhia de Gás de São Paulo, que pertencia, como grande parte dos serviços públicos da época, a empresários ingleses.

Passou a ajudar nas despesas da casa e chamou a atenção de seus chefes. Em três meses foi promovido a mecanógrafo, ou seja, operador de máquinas de contabilidade.

Em 1930, foi convidado e aceitou um posto na Secretaria da Fazenda do governo do Estado, a fim de organizar a confecção mecânica dos tributos. Para aumentar a renda, vendia rádios à noite. Em 1940, já era diretor do Departamento Estadual do Serviço Público, respondendo pela diretoria de Contabilidade e Planejamento.

Embora adotasse, desde cedo, uma atitude cética em relação à política, alistou-se nas tropas da Revolução Constitucionalista, que eclodiu em julho de 1932. Permaneceu dois meses em Cunha, na região do Vale do Paraíba, onde passou o aniversário na trincheira, participou de escaramuças e viu companheiros serem mortos. Acreditava que a ação militar contra o governo central, entretanto, era uma aventura fadada ao fracasso e não alimentava simpatia pela liderança oligárquica do movimento.

Nos anos seguintes, manteve-se distante tanto do comunismo como do integralismo, as duas correntes que empolgavam a juventude. Seus interesses estavam na atividade empresarial. Passou a se dedicar aos negócios a partir do início da década de 40, contrariamente aos conselhos de seu pai, que prezava a estabilidade do serviço público.

Quando garoto, Frias assistiu a inúmeras discussões entre seu pai e seu tio-avô, o empresário Jorge Street, que ergueu três impérios empresariais e foi três vezes à falência.

Construiu, 15 anos antes da Revolução de 1930 e do advento das leis trabalhistas, a Vila Maria Zélia, no Brás, que provia os operários de moradia, escola e assistência médica. Freqüentemente, as discussões entre o juiz e o industrial, parentes por casamento, versavam sobre as vantagens e desvantagens da social-democracia escandinava, que despertava, então, grande curiosidade.

Em 1943, Frias participou, na condição de um dos acionistas-fundadores, do estabelecimento do Banco Nacional Imobiliário (BNI, mais tarde Banco Nacional Interamericano), sob a liderança de Orozimbo Roxo Loureiro. Como diretor da carteira imobiliária, lançou um programa de condomínios a preço de custo. Foram construídos, assim, mais de uma dezena de prédios, entre eles o Copan, que viria a se tornar um dos símbolos de São Paulo.

Convidado por Frias, de quem se tornou amigo, Oscar Niemeyer projetou ainda, além do Copan, a Galeria Califórnia, na rua Barão de Itapetininga, um prédio na praça da República e outro na rua Direita, antiga sede das Indústrias Matarazzo. Um discípulo de Niemeyer, o arquiteto e pintor Carlos Lemos, projetou na mesma época, com financiamento do BNI, o Teatro Maria Della Costa. Cândido Portinari e Di Cavalcanti fizeram painéis para alguns desses edifícios e também se tornaram amigos de Frias.

Como diretor de banco, viajou várias vezes aos Estados Unidos, onde tomou contato com a cultura empresarial norte-americana e foi fortemente influenciado por ela.

O BNI inovou ao criar o "canguru-mirim", campanha de estímulo à poupança infantil. Chegou a vender prédios para o advogado José Nabantino Ramos, então controlador da Folha e um dos pioneiros na introdução da psicanálise em São Paulo.

Por divergências quanto à administração, Frias deixou o banco. No dia seguinte ao rompimento com Loureiro, Frias caiu do cavalo e quase teve uma fratura de espinha. Ficou seis meses engessado. Semanas depois, o automóvel que dirigia entrou na traseira de um caminhão parado, sem sinalização, na via Dutra. Morreram Zuleika Lara de Oliveira, sua primeira mulher, e um irmão dele, José. Seis meses após sua saída do banco, o BNI foi adquirido pelo Bradesco, depois de ter entrado em liquidação.

Frias fundou, em 1953, uma empresa própria (Transaco - Transações Comerciais), uma das primeiras firmas especializadas na venda de ações diretamente ao público.

Traduziu para o português o livro "Do Fracasso ao Sucesso na Arte de Vender", clássico comercial do norte-americano Frank Bettger. Organizou cursos de vendas --algo inédito no Brasil-- para uma equipe que chegou a contar com 500 vendedores.

Frias se casou novamente com Dagmar de Arruda Camargo, que já tinha uma filha de casamento anterior, Maria Helena, e com quem teve três filhos: Otavio, Luís e Maria Cristina.

Data desse período na Transaco sua primeira ligação com a imprensa: a empresa prestou serviços profissionais à "Tribuna da Imprensa", o jornal carioca de Carlos Lacerda, e à "Folha da Manhã" de Nabantino.

Este havia transformado um diário pouco expressivo num jornal moderno. Em 1960, foram reunidos três títulos da empresa (o carro-chefe "Folha da Manhã", a "Folha da Tarde" e a mais antiga "Folha da Noite", fundada por Olival Costa e Pedro Cunha em 19 de fevereiro de 1921) num só jornal --a Folha de S.Paulo.

Em 1954, o empresário comprou um pequeno sítio nas proximidades de São José dos Campos, no interior paulista. Mas as intenções de lazer não duraram muito tempo.

Logo o sítio se transformou em granja e depois num empreendimento avícola de porte, que chegou a manter um plantel de 2 milhões de aves. Atualmente, a Granja Itambi se dedica apenas à pecuária.

Associado ao empresário Carlos Caldeira Filho, Frias fundou a Estação Rodoviária de São Paulo, inaugurada em 1961. Mas o principal empreendimento dos dois sócios seria concretizado pouco depois, em 13 de agosto de 1962, com a aquisição da Folha de S.Paulo, que disputava, com o "Diário de S.Paulo", a posição de segundo jornal da capital paulista, e que atravessava período de dificuldades financeiras.
Agastado com a greve dos jornalistas de 1961, Nabantino decidira se desfazer do controle acionário do jornal.

Frias e Caldeira, respectivamente presidente e superintendente da empresa, voltaram-se à tarefa prioritária de recuperar o equilíbrio financeiro do jornal. Para dirigir a Redação, Frias nomeou o cientista José Reis, um dos criadores da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC).

Trouxe para integrar a equipe o responsável pela modernização do rival "O Estado de S. Paulo", o jornalista Cláudio Abramo, que viria a suceder Reis e manter, com Frias, uma produtiva convivência profissional que se prolongou por mais de 20 anos.

Em 1964, a Folha apoiou a derrubada do presidente João Goulart e o estabelecimento de um regime de tutela militar --temporária, conforme se acreditava-- sobre o país.

Superada a fase de adversidades econômico-financeiras, a nova gestão passou a se dedicar à modernização industrial e à montagem de uma estrutura de distribuição que alicerçou os saltos de circulação que estavam por vir. Foram comprados novos equipamentos e impressoras nos EUA.

Em 1968, a Folha se tornava o primeiro jornal latino-americano a ser impresso no sistema offset. Em 1971, outro pioneirismo: o jornal adotava composição "a frio", abandonando os tradicionais moldes de chumbo. A Folha crescia em circulação e melhorava sua participação no mercado publicitário.

No final dos anos 60, Frias chegou a organizar o embrião de uma rede nacional de televisão, congregando à TV Excelsior de São Paulo, líder de audiência cujo controle adquiriu em 1967, mais três emissoras no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. Por insistência de Caldeira, porém, os dois sócios abandonaram a empreitada em 1969.

Mais ágil e inovador do que o concorrente tradicional, a Folha ganhava espaço junto às camadas médias que ascenderam com o "milagre econômico", fixando-se como publicação de grande presença entre jovens e mulheres.

Ao mesmo tempo, dedicava-se com desenvoltura crescentea áreas do jornalismo até então pouco exploradas, como o noticiário econômico, esportivo, educacional e de serviços.

Em 1968, em companhia de Carlos Caldeira, Frias assumiu a Fundação Cásper Líbero, na época em sérias dificuldades financeiras. O equilíbrio econômico foi alcançado, a TV Gazeta, inaugurada. Ambos se retiraram tão logo a situação se normalizou.

A partir do final de 1973, o jornal passou a adotar uma atitude política mais independente e afirmativa, em vez da "neutralidade" acrítica do intervalo 1968-1973.

A Folha apoiou a idéia da abertura política e se colocou a serviço da redemocratização, abriu suas páginas para todas as tendências de opinião e incrementou o teor crítico de suas edições.

Frias acreditava firmemente na filosofia de uma publicação isenta e pluralista, capaz de oferecer o mais amplo leque de visões sobre os fatos. Encontrou um colaborador habilitado em Cláudio Abramo, responsável pela área editorial entre 1965 e 1973, sucedido por Ruy Lopes (1973), e Boris Casoy (1974), reconduzido a essa função em 1975, onde permaneceu até 1977, quando Casoy, em meio à crise provocada por uma tentativa de golpe militar contra o presidente Ernesto Geisel, foi convidado por Frias a retornar ao cargo.

Abramo reformulou o jornal e fez a primeira (1976) de uma série de reformas gráficas que se sucederiam.

Reuniu colunistas como Janio de Freitas, Paulo Francis, Tarso de Castro, Glauber Rocha, Flavio Rangel, Alberto Dines, Mino Carta, Osvaldo Peralva, Luiz Alberto Bahia e Fernando Henrique Cardoso.

A Folha se transformava num dos principais focos de debate público do país. Ao contrário de algumas expectativas, essa linha editorial foi preservada e desenvolvida durante o período em que Casoy foi editor-responsável.

Em 1983-84, a Folha foi o baluarte, na imprensa, do movimento Diretas-Já, a favor de eleições populares para a Presidência da República. Apoiou o Plano Cruzado, em 1986, e fez campanhas contra o fisiologismo político durante o governo José Sarney, manifestando-se contrária à prorrogação do mandato presidencial.

O jornal manteve-se em posição crítica durante a ascensão e o apogeu de Fernando Collor. Embora apoiasse suas propostas de liberalização econômica, foi a primeira publicação a recomendar o impeachment do chefe do governo, que acabou caindo em 1992.

Em 1986, tornou-se o jornal de maior circulação em todo o país, liderança que mantém desde então. Em 1995, um ano depois de ultrapassar a marca de 1 milhão de exemplares aos domingos, a Folha inaugurou seu novo parque gráfico, considerado o maior e tecnologicamente mais atualizado na América Latina, um projeto orçado em U$S 120 milhões.

Em 1991, Frias e Caldeira decidiram dissolver a sociedade que mantinham, cabendo ao primeiro a empresa de comunicações e ao segundo os demais negócios e imóveis em comum.

A partir de meados da década de 80, Octavio Frias de Oliveira começou a transferir a operação executiva para seus filhos Luís e Otavio, respectivamente nas funções de presidente e diretor editorial do Grupo Folha.

Até poucos meses atrás, o publisher participava do dia-a-dia do jornal, seja acompanhando os números da empresa, seja definindo a linha dos editoriais, seja criticando reportagens ou recomendando pautas jornalísticas.

Embora tenha sempre afirmado não ser jornalista, mas empresário, trouxe furos de reportagem, como a notícia de que o estado de saúde de Tancredo Neves era muito mais grave do que afirmavam, em março de 1985, médicos e autoridades do novo governo.

Consolidado o seu papel na imprensa brasileira, o Grupo Folha passou a investir em novas tecnologias. Em 1996, lançou o Universo Online (UOL), principal provedor de conteúdo e de acesso à internet do país. Líder absoluto na categoria de notícias da rede brasileira, o UOL é hoje uma empresa de capital aberto, na qual o Grupo Folha tem 41,9% das ações, o grupo de telefonia Portugal Telecom tem 29% e o restante está em poder do público.

Atualmente, a Folha é o centro de uma série de atividades na esfera da indústria das comunicações, abrangendo outros jornais --o "Agora São Paulo", campeão de vendas em bancas no Estado de São Paulo, o "Valor Econômico", lançado em 2000 em associação com as Organizações Globo, e o "Alô Negócios", o maior jornal de Curitiba em número de classificados.

Fazem parte também do grupo: o Datafolha, instituto de pesquisas de opinião, a Publifolha, editora de livros, o Banco de Dados da Folha, a Folhapress, agência de notícias, a Plural, maior indústria gráfica de impressão offset do país, a São Paulo Distribuição e Logística, em parceria com o Grupo Estado, e a Transfolha.

Na construção de todas essas empresas, Frias mostrou seus traços mais marcantes: inteligência prática e intuitiva, o tino comercial, a informalidade no trato, a curiosidade pelos empreendimentos produtivos. De hábitos simples, quase espartanos, ele era agnóstico em religião, liberal em política e economia e, até alguns anos atrás, praticante de esportes.

Nos últimos anos, recebeu uma série de homenagens. No 79º aniversário da Folha, em fevereiro de 2000, a Câmara dos Deputados, em seção solene, homenageou o Grupo Folha e seu publisher. Em 2002, a Fiam (Faculdades Integradas Alcântara Machado) inaugurou a cátedra Octavio Frias de Oliveira, com programação de seminários mensais. Frias recebeu da entidade o título de professor honoris causa em fevereiro.

Em dezembro, a Fundação Professor Edevaldo Alves da Silva, do Centro Universitário Alcântara Machado, em São Paulo, lançou o livro "Octavio Frias de Oliveira: 40 Anos de Liderança no Grupo Folha", reunindo textos de jornalistas que trabalharam ou trabalham na empresa.

Em 3 de maio do ano passado, o publisher da Folha recebeu o prêmio Personalidade da Comunicação 2006, concedido pelo 9º Congresso Brasileiro de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas.

Em agosto, foi lançado no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o livro "A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira", escrito pelo jornalista Engel Paschoal e editado pela Mega Brasil. A Publifolha relançou o livro em março deste ano (328 págs.). A obra traça um perfil do empresário e traz depoimentos de diversas personalidades do mundo político, empresarial e jornalístico.

No dia 4 de setembro passado, o então governador Cláudio Lembo condecorou Frias com a Ordem do Ipiranga, a mais elevada honraria do Estado de São Paulo.

De franqueza desconcertante, mas avesso a entrevistas, surpreendeu ao dar uma declaração em 2003 comentando o estado de endividamento da mídia no país. Estava em discussão a possibilidade de o BNDES conceder empréstimos ao setor. Disse Frias: "O que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum".

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