Descrição de chapéu Alalaô recife frevo

Mestres do frevo de PE se desdobram e seguram folia por quatro dias

Maratona exige físico, disciplina e sensibilidade para encaixar a música na hora certa

João Valadares
Recife (PE)
Maestro Oséas, 63, que comanda as melhores orquestras de Olinda e toca desde os 9 anos; na foto, ele está diante de um estandarte de bloco de carnaval e segurando um trompete
Maestro Oséas, 63, que comanda as melhores orquestras de Olinda e toca desde os 9 anos - Bernardo Dantas/Folhapress

Sem eles não há Carnaval em Olinda e no Recife. São os propulsores da festa durante os quatro dias de folia. O segredo para arrastar multidões é não parar de tocar um segundo sequer.

Os atuais mestres do frevo, responsáveis por comandar orquestras com até 40 músicos e puxar, no chão, blocos tradicionais da folia, chegam a tocar 12 horas seguidas.

Uma maratona que exige preparo físico, disciplina e sensibilidade para encaixar a música certa na hora certa. 

José Bezerra da Silva, 80, conhecido como Lessa, sabe bem o que é isso. Tem fôlego de menino. Começou tocando trombone aos 18 anos em Nazaré da Mata, zona da mata norte de Pernambuco, e não parou mais.

Já trabalhou como pedreiro e guarda municipal. “Eu era goleiro nas peladas. Nesta época, o goleiro do América se chamava Lessa. O apelido pegou”, conta. Hoje, vive só de música.

Virou um dos maestros mais requisitados da folia. Puxa 15 blocos em quatro dias. “Minha doença é dinheiro pouco. Tenho 80 anos, mas não sinto nem dor de cabeça. Resfriado não sei o que é”.

Ele refuta o carimbo de “maestro” e reverencia nomes de compositores famosos como Cabipa e Levino Ferreira, que integram a chamada primeira geração dos mestres do frevo.

Na segunda-feira de Carnaval, Lessa se multiplica. Sai de casa às 9h. Uma hora depois, está em frente à sede da Pitombeira, uma das troças mais tradicionais de Olinda. 

Às 10h, a orquestra executa o hino do bloco e só para de tocar às 13h. Corre para a Rua da Boa Hora, também na cidade histórica, para comandar o Mulher na Vara.

Depois de subir e descer ladeiras com um sol de rachar, vai até a Rua da Guia, no Recife Antigo. Quando chega ao local, é saudado pelos Amantes de Glória.

A orquestra começa a tocar “A flecha de Glória flechou e Paulinho virou rei” e só termina nas proximidades do Pátio de São Pedro às 21h.

OLINDA

Oséas Leão de Souza, ou o maestro Oséas, 63, comanda as melhores orquestras de Olinda: Ceroula, Cariri, Elefante, Trinca de Ás, O Cimento, Boi da Macuca, John Travolta e o Se Não Quer, Tem Quem Queira.

“O sol atrapalha um pouco. É tomando cerveja e passando pomada para a boca não estourar”, diverte-se. O sábado de Carnaval é a maior prova de resistência para o maestro que começou a tocar aos nove anos. 

“A guerra começa às 12h no Trinca de Ás, depois vou para o Ceroula, às 16h, emendo com o John Travolta, que começa às 21h, e de lá tenho que ir para o Cariri, bloco mais antigo de Olinda. Começa às 3h30 da manhã do domingo e só acaba às 8h.”

Duas horas de sono e, às 11h, Oséas está de pé com a orquestra do bloco O Cimento, que sai da Igreja de São Pedro, no centro do Recife.

A responsabilidade de comandar o Homem da Meia-Noite, maior ícone da folia de Olinda, é de Carlos Rodrigues da Silva, o maestro Carlos. Há 28 anos, ele se espreme na multidão para reger uma das orquestras mais afiadas.

“Já vi de tudo nesses anos. Briga, bala, músico ser agredido e por aí vai. Mas a gente tem que fazer o Carnaval. No fim, tudo fica lindo.”

Carlos, que é o grande homenageado do calunga (boneco gigante) mais famoso de Olinda neste ano, vai comandar 86 músicos.

“O bloco é a orquestra. Se for ruim, o bloco é ruim. Não tem como fugir disso”.

Veterano, José Joaquim Mendes, o maestro Mendes, 68, responsável por segurar o frevo no desfile do bloco Pisando na Jaca, diz que uma orquestra de frevo não pode descansar.

“Tenho colega que não consegue. Quem aguenta se estabelece”, diz Mendes.

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