Barão de Cocais (MG) terá feriado municipal para que população participe de simulado de retirada

Barragem da Vale na cidade teve nível de alerta elevado para 3 com risco de ruptura iminente

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

A prefeitura municipal de Barão de Cocais (a 100 km de Belo Horizonte) vai decretar feriado municipal na cidade nesta segunda-feira (25) para que todos os moradores possam participar do simulado de evacuação de emergência, que está sendo organizado pela Defesa Civil estadual, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. 

Uma barragem de rejeitos da Vale, na mina de Gongo Soco, teve o nível de risco elevado para 3 na última sexta-feira (22), o que significa ruptura iminente ou já ocorrendo. Segundo a mineradora, a auditoria externa detectou divergência de dados nos dois sistemas de monitoramento da barragem. 

 
Estrada para a mina de Barão de Cocais, em Minas Gerais - Washington Alves/Reuters

As escolas da cidade estão com aulas suspensas entre segunda e terça. Está sendo avaliada ainda a possibilidade que a Vale desloque uma delas, mais próxima ao leito de um rio, para outro local, por segurança. 

De acordo com a Defesa Civil, entre 9h e 13h, os moradores terão reuniões preparatórias e receberão instruções sobre a simulação. O treinamento começará por volta das 16h. 

“Na hora do treinamento, a evacuação deve ser feita a pé, porque as viaturas e carros de emergência precisam transitar dentro de cada bairro para avisar com alto-falantes. Foi feito o teste com a polícia militar e, no local com maior deslocamento, gastou-se 15 minutos, com o carro em velocidade muito baixa, para dar esse aviso sonoro”, explica o tenente-coronel Flávio Godinho. 

Em outros bairros, o tempo de deslocamento do carro de alerta ficou em torno de sete minutos. As equipes estimam que isso daria tempo para que o aviso passe até três vezes durante uma retirada. A estimativa é de que a evacuação total dure entre 30 e 40 minutos.

A cidade de Barão de Cocais foi dividida em quadrantes e terá sete pontos de encontro, com estrutura logística para que as pessoas sejam atendidas, com veículos, acolhimento e cadastros. Cerca de 600 pessoas —entre contratados da Vale e voluntários— também passaram por treinamento para trabalhar na ação. 

Até segunda, devem ser instaladas 1.400 placas na cidade de Barão de Cocais, com descrição de rota de fuga, áreas seguras e pontos de encontro. Cerca de 13 mil folhetos serão entregues entre domingo e segunda nas ruas e nas casas com mais informações, além de avisos nas redes sociais. 

No dia 8 de fevereiro, 454 moradores que estavam na chamada zona de autossalvamento (ZAS) —a 10km de distância da barragem ou 30 minutos de uma inundação— foram retirados do local depois de uma alteração no nível de risco da estrutura. A região permanece com pontos de bloqueio e a Defesa Civil faz buscas ativas diárias para certificar que não há nenhum morador nas casas.

A simulação que começa nesta segunda é para pessoas que vivem na chamada zona de segurança secundária (ZSS). A primeira comunidade atingida nesta área, segundo o tenente coronel Godinho, fica a cerca de 18 km ou uma hora e doze minutos de distância da chegada da lama. 

As equipes calculam ainda que uma possível inundação chegaria em 2h36 a comunidade de Barra Feliz, e 3h06 à cidade de Santa Bárbara. O município de São Gonçalo do Rio Abaixo também poderia ser atingido, com intervalo de 6h30. As equipes irão construir um treinamento junto à Defesa Civil de cada um dos municípios. 

PROMOTORIA PEDE NOVO BLOQUEIO

No sábado (23), o Ministério Público de Minas Gerais apresentou um novo pedido, em caráter de urgência, em uma ação civil pública que já tramita junto à Justiça em Barão de Cocais, exigindo “providências para prevenção e mitigação de danos humanos e materiais” devido à situação da barragem Sul Superior, na mina do Gongo Soco. 

A Promotoria pede que a Vale se responsabilize pelo abrigamento e acolhimento de pessoas e animais em novas evacuações, além de cobrir o custeio da “alimentação, medicamentos, transporte, observando-se a dignidade e adequação dos locais às características de cada indivíduo e família, sempre em condições equivalentes ao status quo anterior à desocupação”. 

O pedido inclui ainda bloqueio de R$ 3 bilhões da Vale para garantir ressarcimento de danos causados em caso de evacuações; a apresentação de relatórios diários sobre a condição de estabilidade da barragem, enquanto durar o nível 3 de emergência e do plano de ações feitas para garantir a estabilidade e segurança da estrutura. 

O documento ainda estipula prazo de 72 horas para apresentação do estudo atualizado de ruptura, o "dam break", e de medidas a serem adotadas para evitar a poluição de cursos d’água. Além da “suspensão imediata da operação das demais estruturas e atividades do complexo minerário onde está situada a Barragem Sul Superior”. 

A Vale informa que a mina de Gongo Soco está paralisada desde abril de 2016. O nível 3 de alerta segue. A mineradora também avisa que adotou medidas para dar suporte ao simulado de evacuação. Após o treinamento, as pessoas passarão por acolhimento com uma equipe multidisciplinar —com psicólogos, policiais e bombeiros— e serão cadastradas, antes de serem liberadas. 

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