Descrição de chapéu Coronavírus

Cidade amazonense cria muro de triagem em aeroporto e monitora forasteiros contra a Covid

Em Carauari, quem é de fora só entra se apresentar exame de que está livre do coronavírus

Dhiego Maia Zanone Fraissat Henrique Santana
São Paulo

O alerta da dentista Karina Gonzaga, 30, é claro: “Vocês só entrarão na cidade se apresentarem um teste negativo para Covid-19”, avisa ela, atrás de uma mesa na sala de desembarque do pequeno aeroporto de Carauari, cidade a 787 km em linha reta de Manaus.

Gonzaga e a técnica bucal Alessandra da Silva, 37, exercem um tipo de função crucial no “novo normal” —sobretudo em cidades mais isoladas e sem estrutura de saúde—, durante a pandemia do novo coronavírus.

A dupla é a responsável por fazer a triagem de quem pode entrar e quem deve ser barrado na pequena cidade encravada no sudoeste do Amazonas. O mesmo controle é seguido à risca na região portuária do município, a segunda e última forma de acesso.

A reportagem da Folha desembarcou de um avião monomotor, a partir de Manaus, no aeroporto de Carauari, no final da manhã do dia 23 de junho, uma segunda-feira, acompanhando a comitiva do Instituto Missional, organização social de Maringá (PR), que faria a entrega emergencial de cestas básicas aos ribeirinhos da Amazônia afetados pela pandemia.

Ninguém dos nove passageiros, incluindo a Folha, tinha em mãos exames recentes de Covid-19, o que criou um impasse. “Se não temos o exame, então, vamos fazê-lo”, disse Cassiano Luz, diretor do instituto.

Logo, a sala abafada de desembarque do aeroporto se transformou num laboratório improvisado. Uma técnica de enfermagem do município foi enchendo ampolas com o sangue colhido de cada um.

O resultado do teste sorológico poderia trazer alívio, mas também desespero. Caso alguém tivesse sido contaminado pelo coronavírus, todo o grupo seria forçado a retornar para Manaus e cumprir quarentena obrigatória de 14 dias.

A capacidade de processamento de exames do município, limitada, só tornou a espera pelo resultado ainda mais angustiante. A demora fez o piloto da aeronave da ONG Missão do Céu, Márcio Rempel, comunicar um segundo problema. “Temos ‘janela’ de voo até umas 15h [horário local] no máximo."

Rempel explicou que, após esse horário e por causa da distância até Manaus, parte do possível voo de retorno seria feito à noite, o que não é recomendado para aviões de pequeno porte em viagens na Amazônia. Com mais essa preocupação, a sensação era de que as horas não passavam.

Foram necessárias 3h15 para o veredito: todos estavam livres do coronavírus. Mesma sorte não teve naquele dia um grupo de seis trabalhadores da Petrobrás na hora do embarque. Eles testaram positivo e tiveram de ficar em quarentena na cidade.

Mas estar livre do vírus é só a primeira etapa cumprida do processo para entrar em Carauari na pandemia.

Pulseira é colocada em pessoa que passou por triagem em aeroporto de Carauari após teste negativo de Covid-19
Pulseira é colocada em pessoa que passou por triagem em aeroporto de Carauari após teste negativo de Covid-19 - Zanone Fraissat/Folhapress

A segunda parte da burocracia inclui ser fichado e obrigado a usar uma pulseira laranja, forma encontrada pelo município para identificar os forasteiros vindos de áreas de risco ou que tiveram contato com pessoas contaminadas.

Todos os "laranjas" precisam cumprir quarentena obrigatória de 14 dias. Até esta terça-feira (14), 118 pessoas estavam em isolamento domiciliar, segundo a secretaria de Saúde local.

A Folha ficou um dia na cidade e só pode circular porque usava máscara, luvas e jornalismo é classificado como essencial pelo governo federal na pandemia. Mas nem por isso deixou de ser questionada pela população, a maior aliada das autoridades contra quem descumpre a quarentena.

No comércio, os “laranjas” não são bem-vindos. “Vá para casa”, diziam os empresários. Carauari está assustada, e as mensagens de luto que tomam conta das fachadas de casas e lojas explicam esse comportamento.

A pandemia também escancarou gargalos sociais. Metade da população vive com meio salário mínimo e, agora, tem sobrevivido com os repasses do auxílio emergencial do governo federal.

As aulas presenciais nas escolas foram suspensas, mas os alunos não contam com ensino remoto por causa da estrutura deficitária de internet, um problema crônico em toda a Amazônia. Os pais precisam ir às escolas para buscar os exercícios escolares dos filhos em papel.

A cidade entrou pela primeira vez nos registros oficiais que monitoram a disseminação do novo coronavírus no dia 16 de abril, com três casos positivos e um óbito. Desde então somam 606 os contaminados, com sete mortes.

A explosão de casos fez a prefeitura criar postos de controle nos seus acessos, fechar as entradas das comunidades ribeirinhas e fazer valer um pacote de regras duríssimas de convivência que sacudiram a rotina dos 28 mil moradores. Nem mesmo Manaus, a capital do estado, foi tão severa.

A população de Carauari está sob toque de recolher. A medida, num primeiro momento, foi colocada em prática das 21h às 5h, ganhou mais força quando foi estendida das 17h às 5h e, agora, está em processo de flexibilização.

O tenente da PM Jean Willer, 50, fiscaliza o cumprimento do toque de recolher e do uso obrigatório de máscara, item aderido pela maioria da população. O trabalho da polícia tem o apoio de 35 câmeras, que ajudam a monitorar as principais ruas e avenidas da cidade.

“Tivemos que optar pela forma mais drástica de contenção da doença porque Carauari estava recebendo embarcações vindas de Manaus com 50% dos passageiros contaminados”, diz Willer.

A polícia faz blitz surpresa nas ruas e também fica de olho em cada passo dado por quem usa a pulseira laranja. “Quem for flagrado na rua descumprindo a quarentena é autuado”, completa o tenente.

Carauari contabiliza ao menos 61 casos de pessoas que respondem na Justiça por infração contra o decreto criado pela prefeitura para barrar o avanço da Covid-19. Segundo o Código Penal, a pena para esse tipo de crime varia de um mês a um ano de detenção, além de multa.

Entre os Oliveira, família tradicional do município, nenhuma medida mais enérgica será capaz de trazer de volta José Amâncio, 92, um dos sete mortos por Covid-19 da cidade.

Amâncio foi juiz, mas é lembrado como pastor da Assembleia de Deus. Da cadeira de fios posicionada no alpendre de sua casa, costumava aconselhar os fiéis e orar em favor das queixas que chegavam até o seu ouvido.

“Quando a pandemia chegou, aqui era álcool o tempo todo. A gente colocou até uma placa na frente da casa dele para informar que ninguém deveria ficar perto dele”, diz a nora Patrícia Souza, 24.

O filho Adonildo Oliveira, 46, que falou com a Folha vestindo uma camiseta que estampava o rosto do pai, conta que o religioso se manteve firme até o último fio de consciência. “Quando foi avisado que seria intubado, ele pediu um minuto ao médico: abaixou a cabeça e, eu entendo que ali, entregou a vida dele para Deus."

Amâncio deixou 18 filhos, 41 netos, 53 bisnetos e 14 tataranetos. Mas, em meio a tanta tristeza, a família Oliveira e os demais carauarienses têm visto um horizonte mais ameno por causa das medidas de isolamento. Até esta quarta (15), não havia mais nenhuma pessoa internada por Covid-19 na cidade.

Adonildo Alves de Oliveiras, 46, pedreiro, ao lado da cadeira de balanço do pai, o pastor Jose Amâncio, morto por Covid-19, e da esposa, Patricia Souza, 24 e os filhos, Lara, Krislaine, Kaindra e Kaleli
Adonildo Alves de Oliveiras, 46, pedreiro, ao lado da cadeira de balanço do pai, o pastor Jose Amâncio, morto por Covid-19, da esposa, Patricia Souza, 24, e das filhas, Lara, Krislaine, Kaindra e Kaleli - Zanone Fraissat/Folhapress

A reportagem da Folha viajou a convite do Instituto UniCesumar e do Instituto Missional

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