Escritora e cantora Petruchévskaia lança contos e faz show em SP

Crédito: Silvia Izquierdo/Associated Press
A escritora russa Liudmila Petruchévskaia

MAURÍCIO MEIRELES
COLUNISTA DA FOLHA

A russa Liudmila Petruchévskaia vem de uma família de "inimigos do povo" –ou pelo menos era assim que o stalinismo os via. Quando nasceu, três familiares haviam acabado de ser fuzilados pelo regime. Não à toa, a escritora conheceu a penúria.

Acostumou-se a investigações, a ser seguida na rua por agentes da KGB e a ter seu telefone grampeado. Em 1991, foi alvo de um inquérito ao se manifestar contra a intervenção soviética na Lituânia, numa carta aberta em que chamava os líderes do partido comunista de fascistas.

Petruchévskaia, uma das grandes escritoras russas contemporâneas, está no Brasil desde dezembro com um de seus filhos a passeio. Ela lança nesta sexta (19) "Era uma Vez uma Mulher que Tentou Matar o Bebê da Vizinha", com um pocket show.

Os contos do volume são definidos como "contos de fadas assustadores", nos quais a autora bebe nas fontes do folclore russo e em histórias que ouviu ao longo da vida –a maioria com as mulheres como protagonistas (ela já disse, em uma ocasião, que seu país é cheio de "mulheres Homero").

A narrativa mais assustadora que conhece, porém, prefere não contar em detalhes. "Os comunistas, os fascistas e os governantes em períodos de guerra cometeram selvagerias diante das quais todos os sádicos comuns e adolescentes bêbados, todos os bruxos e adoradores do diabo com seus rituais parecem simples crianças", diz ela em entrevista à Folha por e-mail, de Búzios, no Rio.

ESCURIDÃO

Petruchévskaia, até os 30 anos, vagava pela linguagem literária como quem vagasse "pela escuridão". Enquanto procurava seu estilo, lia os vanguardistas russos dos anos 1920 e 1930 e teóricos formalistas, como Victor Shklóvski e Yuri Tynyanov –além de Proust e Thomas Mann.

Foi quando ouviu uma história. Uma amiga de trabalho, mulher simples de Moscou, depois de um dia de expediente, começou a lhe contar seus tormentos: seu marido tinha outra mulher.

"Zina contou tudo para sua amiga mais querida, uma ex-prostituta. Essa santa menina, no pleno sentido da palavra, decidiu que ia afastar o marido da amiga da amante. Então ele foi visitar a ex-prostituta, passou a noite com ela e ele, depois disso, amaldiçoando a si mesmo, voltou para a mulher."

A escrita de Petruchévskaia não se encaixava nas diretrizes estéticas do regime. A regra, então, era o realismo socialista, de exaltação aos valores da revolução. A autora ficou proibida na Rússia até os 50 anos, período durante o qual sobreviveu fazendo resenhas para revistas literárias.

"Fiquei proibida possivelmente porque quase todos os contos tinham a sua tragédia. Mas os comunistas gostavam que a literatura exaltasse as conquistas e a superioridade do poder. Praticamente toda a minha vida até a perestroika foi de tempos difíceis", diz.

Petruchévskaia é lacônica quando questionada sobre como vê a situação política do país hoje e os desdobramentos da Revolução Russa.

"Como escreveu Púchkin, 'que Deus não nos permita ver um motim russo, sem sentido e sem misericórdia'", diz ela. "Tudo na Rússia é decidido pela massa do povo, e os gostos do povo são definidos pela televisão. E ela está subordinada à classe dominante, aos chefes de todos os níveis."

Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha
Liudmila Petruchévskaia
Era Uma Vez Uma Mulher Que Tentou Matar o Bebê da Vizinha
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MÚSICA

A russa também é compositora e, nos anos 2000, passou a interpretar suas canções na noite de Moscou –ela conta ter lançado um disco com tiragem de 180 mil cópias.

"Gosto de todas as cenas. De um auditório com milhares de pessoas a um salão de escola. Em qualquer caso, devo conquistar o salão, fazer o público se emocionar, ficar em silêncio ou aplaudir. Ou rir e cantar junto."

As respostas da autora foram traduzidas do russo por HENRIQUE CANARY

ERA UMA VEZ UMA MULHER QUE TENTOU MATAR O BEBÊ DA VIZINHA
AUTORA Liudmila Petruchévskaia
TRADUÇÃO Cecília Rosas
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO O livro custa R$ 44,90 (208 págs.) e a entrada para o lançamento é grátis, com distribuição de senhas a partir de 18h
LANÇAMENTO Pocket show na Livraria Cultura, às 19h - av. Paulista, 2073, tel. (11) 3170-4033

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