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15/10/2006 - 09h09

Guilherme de Pádua, livre há 7 anos, diz se sentir preso

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PAULO SAMPAIO
Enviado da Folha de S.Paulo a Belo Horizonte

O ex-ator Guilherme de Pádua não quer mais nada com a carreira artística, mas desconfia que vai ser famoso para o resto da vida.

Condenado a 19 anos de prisão pelo assassinato da atriz Daniella Perez, sua colega de elenco na novela "De Corpo e Alma" (TV Globo, 1992), Guilherme cumpriu um terço da pena, foi libertado há cerca de sete anos, mas até hoje, ele diz, sai pouco de casa e, quando o faz, sente um frio na barriga.

"Continuo preso. Fui uma espécie de exemplo de justiça superexposto pela mídia, em um país repleto de impunidade. A verdade é que fiz bobagens, mas sou inofensivo, e por isso as pessoas não têm medo de me agredir na rua. Já chegaram a me cuspir no rosto, em um shopping. Se eu fosse um bandido de verdade, um Marcola, você acha que alguém gritaria "Assassino!" para mim?"

Aos 36 anos, Guilherme leva uma vida bastante restrita para quem sonhou em ser astro da Globo. Voltou para Belo Horizonte, sua cidade natal, tornou-se fiel da igreja evangélica batista da Lagoinha, localizada em um bairro de classe média baixa, trabalha na informatização do templo e casou-se há sete meses com uma colega de culto, a produtora de moda Paula Maia, 22.

Não dá entrevistas: diz que tem "trauma" de imprensa. A Folha levou alguns dias para se aproximar, incógnita, dele.

"Todo mundo disse o que quis de mim: teve um taxista que me reconheceu como o assaltante que deu um tiro no vidro do carro dele, quando eu já estava há um ano na cadeia. Como é que ele não me reconheceu antes, na novela das oito? Depois, disseram que eu era "leopardo" [integrante de um famoso show de striptease de rapazes no Rio]. Você acha que alguém veio saber de mim se eu fazia mesmo o show? Imagina: vou morrer "leopardo'".

Guilherme pode não ser o assaltante do táxi nem jamais ter trabalhado no show dos "leopardos". Mas o crime pelo qual foi condenado tornou-se tão emblemático que rivalizou em audiência com o impeachment de Fernando Collor.

Daniella foi encontrada em um matagal ermo de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, a três dias do réveillon de 1992, com 16 perfurações no pescoço, tórax e pulmões --consumadas a golpes de tesoura. Um crime "passional" clássico, que envolveu Guilherme e sua mulher na ocasião, Paula Thomaz, então com 19 anos; ela estava grávida de quatro meses e também foi condenada a 19 anos de prisão.

Um crime, várias versões
Surgiram diversas versões para tentar explicar o homicídio. Guilherme mantém a que contou no tribunal: ele teria atraído Daniella até o local do crime para provar a Paula, escondida no carro, que não estava tendo um caso com a atriz.

Mas, afinal, estava?

Ele arqueia a sobrancelha e faz um meneio de cabeça, sem responder. "Não vou entrar em detalhes. Você vai ficar com o bico seco, mas algumas coisas eu não vou dizer."

Continuando: a dada altura, já fora do carro, as duas começaram a se agredir, e ele tentou apartá-las, segurando Daniella com o braço em torno de seu pescoço (no movimento de uma "gravata") e afastando Paula com a outra mão.

"De repente, o lado de cá [de Daniella] pesou. Entende? Eu estava nervoso, não controlei a força no braço, e ela caiu desacordada", explica ele.

E as tesouradas?

"A outra [ele não fala o nome de nenhuma das duas; agora é Paula] ficou desesperada, fora de si, e, no pânico, teve a idéia de forjar um crime cometido por um fã alucinado."

E por que ele não contou essa versão no dia seguinte? [A princípio, ele negou de várias maneiras o crime --chegou a ir ao velório e prestar condolências à família da atriz. Mas a polícia tinha a placa do carro, anotada por uma testemunha, e o chamou para depor, alegando que muitos artistas estavam fazendo o mesmo. Encurralado, ele acabou assumindo a autoria do crime sozinho. Por quê?]

"Ela [Paula] estava grávida, eu quis preservá-la. Mas depois que nosso filho nasceu, não achei justo pagar pelo que ela fez e continuar ouvindo-a negar sua participação."

Procurada pela Folha, Paula Thomaz não foi encontrada: seu telefone no Rio, segundo gravação da Telemar, "não está recebendo chamadas". Ela e Guilherme não se falam, e, de um tempo para cá, ele não tem visto o filho Felipe, 14.

"Faço tudo para fugir de confusões. Corro de discussão", resume Guilherme.

O advogado de Paula Thomaz, Carlos Eduardo Machado, diz que sua cliente não fala com a imprensa nem faz fotos, "para evitar mexer em uma ferida dolorosa para todos".

Sarna e dor de dentes
Há quase sete anos em liberdade, dez sem dar entrevistas, ele conta que, na cadeia, pegou sarna, micose, dividiu a cela com um tuberculoso e sofreu com dores de dentes "sem a mais remota possibilidade de ser atendido por um dentista".

Foi abusado sexualmente?

"Não. Só é estuprado quem estupra. Graças a Deus não tive problemas porque nunca fui dedo-duro, um defeito imperdoável na prisão. Quem fala demais apanha até sair."

Como se ocupava? "No início, achei que não fosse suportar. Durante um ano eu saí na capa --não é lá dentro, é na capa!-- dos principais jornais. Os presos diziam: "Você tá no mentiroso de novo". Mentiroso é o apelido de jornal na cadeia."

Apesar de um pouco mais gordo ("tenho o mesmo peso da época da TV, 88 kg para 1,77 m, mas antes era só músculo"), o rosto é praticamente igual; apenas os cabelos pretos estão mais compridos, mas não há linhas que denunciem amargura ou ressentimento. Sua voz só se altera quando ele fala das "testemunhas falsas" (como o motorista de táxi) ou da dificuldade que tem de recomeçar a vida.

"Não paguei o que eles determinaram? Paguei. Tudo o que me mandaram na cadeia, eu obedeci. "Abaixa ali; levanta; abre os braços; deita no chão sem roupa." Só não morri porque ninguém teve a idéia de me mandar dar um tiro na cabeça."

Mas um dia, logo que chegou, pensou em suicídio: "Olhei para uma torneira alta na cela e me passou pela cabeça amarrar ali a calça e me enforcar. Mas aí pensei nos meus pais: já tinha dado desgosto suficiente a eles", diz Guilherme, que é filho temporão de um professor universitário aposentado e de uma dona-de-casa, tem três irmãos e foi criado em boas escolas.

Repercussão na família
A irmã mais velha, Simone, 50, conta que, desde o episódio fatídico, a família nunca mais foi a mesma: "Éramos pessoas comuns, sem tragédias em nossa história. Não conseguia identificar aquele monstro exposto na mídia com o irmão que conhecia desde que nasceu. Não tínhamos preparo para o bombardeio que se seguiu."

Simone diz que, além do sofrimento óbvio, a família arcou com a "indescritível" repercussão. "Quando me separei do meu marido, uma revista publicou que "a irmã de Guilherme de Pádua pegou o marido transando com a mãe dela". Um dia, a multidão de repórteres era tamanha na porta da casa do meu pai que precisei sair com ele, deprimido e dopado, na mala do carro", lembra.

No dia em que deixou a cadeia, Guilherme conseguiu fugir da imprensa e hospedou-se na casa de um amigo no Rio. Comprou uma passagem de avião para Belo Horizonte, mas só para despistar os repórteres. Viajou de carro com os pais.

"Jesus faria isso?"

Guilherme dá a entrevista no terceiro dia de contato com a reportagem, em um restaurante chamado Parilla, no mercado do Cruzeiro (zona sul de Belo Horizonte). Famoso por servir carne uruguaia com batatas cobertas com queijo gorgonzola, o lugar é bem freqüentado sem ser considerado sofisticado. Nessa noite, uma quinta-feira, está praticamente vazio por volta das 21h30.

Além dele, estão na mesa sua mulher, Paula, e a irmã dela, Roberta. Todos tentam converter o repórter --especialmente Guilherme, que, desde o início, fala muito em Jesus.

Ele conta que virou evangélico num momento em que, diz, a religião era a única alternativa. "Toda vez que saía da prisão, transferido, ou para ser julgado, havia uma multidão me esperando para xingar. Jogaram até cocô em mim. No meio daquilo tudo, estavam sempre dois ou três crentes com a Bíblia, pregando a paz. Eu os achava uns malucos, mas quem mais me tratava como gente?"

Em suas tentativas de converter os outros, diz que ele "era assim também". "Eu saía com três mulheres por noite, traía a minha e ria dos crentes. Achava-os uns bobões..."

Naquela época, diz, recém-chegado de Belo Horizonte no Rio, malhadão, baladeiro, ele se jogou nas noites cariocas. "Eu era doidaço", afirma.
Usava cocaína?

"[Relutando] Fiz tudo o que não presta. Não vou falar mais do que isso."
O que, exatamente, é algo que "não presta"?

"Para saber, você tem de perguntar: "Jesus faria isso?'"

Ele e Paula repetem: "A loucura para os homens é a sabedoria para Deus. E a sabedoria dos homens é a loucura para Deus". Eles frisam: "Mas só vale para coisas do bem".

Por exemplo? "Você acha uma loucura não ter relação sexual antes do casamento? Então: isso é sabedoria para Deus", prega Guilherme.

"Ele é o meu bebezão"
Morena, magra, 1,65 m, cabelos lisos e longos, Paula conheceu o marido em uma confraternização de crentes na churrascaria Porcão. Deu o telefone e Guilherme ligou no mesmo dia, à noite. "Ficamos até umas três da manhã conversando."

Guilherme contou tudo sobre o crime? (Ele interfere: "Cara, ela não vai falar disso'). "Sim, a gente conversou..."

Não teve medo? "No início, achei que não daria conta de carregar esse fardo com o Gui. Hoje vejo que não tinha homem melhor para me casar.Tenho vontade de pegá-lo no colo, protegê-lo, é o meu bebezão."

Filha de um empresário morto aos 42 anos durante uma cirurgia cardíaca, Paula mora com Guilherme em um apartamento de 70 metros quadrados da família dela, no Sion, um bairro de classe média de Belo Horizonte. Guilherme não paga aluguel ("nem poderia") e não revela ("tenho vergonha") o salário na igreja.

Por vontade de Paula, que não comemorou seus 15 anos porque o pai tinha acabado de morrer, o casamento foi celebrado com festa para 300 pessoas no salão de um hotel. Apesar de terem tentado manter segredo, um funcionário do cartório espalhou a notícia.

"Você acredita que teve uma enquete na TV para saber se eu tinha o direito de me casar?", conta Guilherme.

Alguns jornalistas se hospedaram no hotel, mas ninguém conseguiu entrar na festa.

"Os seguranças eram da igreja e não se corromperam. Aliás, a gente contratou os serviços e depois viu que todas as empresas eram de evangélicos: fomos abençoados com descontos maravilhosos", contam.

Longe dos olhos...

A experiência do casamento com uma crente, diz Guilherme, foi
transformadora. "Você não sabe como a mulher evangélica é muito melhor. Eu estou amando pela primeira vez."

O ex-mulherengo ressalva, porém, que não basta amar a própria mulher. É preciso não cobiçar as outras. "Não é simples: eu me doutrino para não perder a disciplina." Como?

"A cobiça é o quê? O olho. Então, pra que eu vou acessar um site de mulheres peladas, com aquelas gostosas de quatro? Pra quê, se eu tenho uma mulher linda em casa?"

Sua índole mudou? "Não. O evangélico tem consciência de que a carne ministra contra o espírito e que é preciso conter isso. Quando você me rondou para dar a entrevista e pensei que poderia ser mais um repórter disposto a fazer o mal, meu primeiro ímpeto foi te odiar."

Você se considera um assassino? "Andei fora do caminho de Deus. Na nossa igreja não existe pecadinho e pecadão. Todos estão perdoados, a partir do momento do batismo, mas perdoados por Deus. Na rua, pode-se continuar a pagar..."

Enquanto paga, ele se tranqüiliza com uma certeza inexorável: "Daqui a cem anos, tudo estará resolvido".

Especial
  • Leia o que já foi publicado sobre Guilherme de Pádua
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