Ibirapuera consolidou o moderno na arquitetura
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LUIZ CAVERSANda Folha de S.Paulo
O começo da década de 50 foi profícuo para o arquiteto Carlos Lemos. Apesar de ter pouco mais que 20 anos, chefiava o escritório paulistano do carioca Oscar Niemeyer. E foi nessa condição que ele participou do então revolucionário projeto de construção do parque Ibirapuera, o marco dos 400 anos da cidade de São Paulo e que chega aos 50 anos em 2004 como um dos principais símbolos urbanísticos paulistanos.
Segundo Lemos, 78, Niemeyer foi chamado a assumir o projeto pelo presidente da comissão dos festejos do 4º Centenário de São Paulo, Ciccilo Matarazzo, depois que ocorreu uma desavença com o Instituto dos Arquitetos do Brasil quanto aos honorários.
Folha Imagem ![]() O prédio da Oca, em construção, no começo dos anos 50 |
"Niemeyer topou com a condição de trabalhar com profissionais de São Paulo. Mas ele trouxe praticamente tudo pronto do Rio. A gente apenas elogiava..."
A equipe composta por Eduardo Kneese de Mello, Hélio Uchôa Cavalcanti, Marinho Estelita, Zenon Lotufo e Carlos Lemos elogiava, mas também dava duro para dar conta da ousada iniciativa de transformar o imenso terreno da Vila Mariana, que era nada mais que um pasto pantanoso pouco tempo antes --tanto que "ibirapuera" quer dizer "pau podre" na língua indígena.
Moacyr Lopes Júnior/Folha Imagem ![]() O arquiteto Carlos Lemos, um dos realizadores do parque do Ibirapuera |
"Foi um exercício de criatividade, porque não sabíamos direito para que serviriam os prédios que estávamos erguendo, de que maneira eles seriam ocupados, por quantas pessoas etc.. Haveria a feira internacional do 4º Centenário, mas, e depois? O Ciccilo só dizia que queria algo grande, monumental. Assim, o prédio da Bienal acabou ficando, em largura e extensão, maior do que a rua Barão de Itapetininga [uma das ruas do calçadão no centro de São Paulo]", afirma Lemos.
O arquiteto --que depois viria a se tornar um dos principais professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP-- ficou pessoalmente responsável pela concretização do edifício onde seria instalada a Secretaria da Agricultura. O prédio, no qual hoje funciona o Detran, posteriormente foi excluído dos limites do parque por conta do alargamento da ligação 23 de Maio/Rubem Berta.Conforme Lemos, o projeto não enfrentou grandes obstáculos, além da sua própria grandiosidade --seis edificações, entre elas a gigantesca marquise, mais os três lagos artificiais, as ruas, os gramados e jardins.
"Dinheiro e vontade de fazer havia, o problema era o prazo", diz Lemos. De fato, o parque não ficou pronto para os festejos do aniversário da cidade, em 25 de janeiro de 1954. Acabou sendo inaugurado somente em 21 de agosto do mesmo ano.
Segundo o arquiteto, passada a animação do 4º Centenário, o afluxo da população ao parque ocorreu de forma bem lenta, principalmente por intermédio de feiras e exposições.
Apesar de três obras previstas inicialmente não terem sido levadas a cabo --um portal na entrada em frente ao obelisco, um restaurante e o teatro, este até hoje motivo de polêmica--, Lemos afirma que a concretização do conjunto teve um sentido conceitual didático: "A partir daquele momento houve a aceitação definitiva da arquitetura moderna no país. As pessoas se referiam a ela como 'Estilo Bienal'. Depois da criação do Ibirapuera, nenhuma outra obra pública ignorou o moderno na arquitetura".
A história de São Paulo será contada por personagens que a viveram nesta nova seção, "Eu Estava Lá", dedicada aos 450 anos da cidade.
Todas as terças-feiras um novo personagem recordará sua vivência em algum episódio importante para São Paulo e sua população, em reportagens publicadas no caderno Cotidiano da Folha de S.Paulo e na Folha Online.
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