Remuneração a acionistas aumenta 15%
TONI SCIARRETTA
da Folha de S.Paulo
Com lucros recordes no ano passado, as empresas brasileiras de capital aberto nunca repartiram tanto os seus ganhos com os acionistas. Estudo da consultoria Economática revela que as empresas com ações em Bolsa propuseram a distribuição de R$ 51,653 bilhões como remuneração aos acionistas relativos aos ganhos de 2007. Trata-se do maior valor já distribuído pelas empresas a seus donos, sejam eles acionistas controladores ou minoritários recém-admitidos à Bolsa.
O montante pago aos acionistas cresceu 15,37% no ano passado e só não foi maior por conta da queda de 20% no lucro do setor de petróleo e gás, um dos mais importantes na Bolsa. No setor, a remuneração ao acionista recuou de R$ 8,47 bilhões para R$ 6,98 bilhões.
Entre os setores da economia, o que mais distribuiu lucros no ano passado foi o bancário. Os 16 bancos pesquisados tiveram um lucro líquido de R$ 28,467 bilhões e propuseram a distribuição de R$ 10,19 bilhões aos acionistas -35,8% do total. Em seguida, o que mais pagou foi o de energia, que lucrou R$ 15,404 bilhões e distribuiu R$ 9,826 bilhões -63,8% do total.
Investimento x dividendo
Apesar da distribuição recorde de lucro, o percentual médio do total de lucros destinado aos acionistas caiu de 46,1% para 43,6% no ano passado. O principal motivo foi o aumento dos investimentos das empresas, que retira parte do lucro para o reinvestimento no negócio.
Pela lei societária, as empresas de capital aberto devem repassar pelo menos 25% de seu lucro líquido para o acionista sob a forma de dividendos, uma remuneração livre de impostos (que a empresa já pagou). As empresas também pagam ao acionista juros sobre o capital próprio, uma espécie de retorno financeiro pelo capital aplicado. Pelo juro recebido, o acionista paga 15% de IR.
A maioria das empresas, no entanto, repassa um percentual superior a esses 25% mínimos, dependendo de sua política estatutária de remuneração ao acionista e de sua necessidade de reinvestir os lucros.
Em períodos de bonança, em que as empresas vislumbram a expansão do negócio, os investimentos costumam ser maiores. Por outro lado, em épocas de baixo crescimento, os investimentos são retidos, e o lucro, repassado mais ao acionista.
"Com a economia em ritmo forte, as empresas elevaram os investimentos. Por isso, sobrou um pouco menos para o acionista. Setores como a construção civil, que acaba de entrar na Bolsa e está em pleno boom, distribuíram pouco dividendo. Preferiram reinvestir. Do contrário, teriam de levantar mais dinheiro. O investimento não contraria o interesse do acionista", diz Fernando Exel, presidente da Economática.
Setores consolidados --distribuidoras de energia, operadoras de telefonia fixa e concessionárias de rodovia-- costumam pagar mais dividendos, pois já fizeram a maioria de seus investimentos.
No estudo, os setores de energia e de telecomunicações aparecem entre os que mais destinaram lucro aos acionistas --pagaram 63,8% e 82% do total dos ganhos em 2007.
"São boas pagadoras de dividendos as empresas que já têm seu parque [industrial] consolidado. São negócios mais maduros. Em períodos de crise, são os negócios que têm menos chance de ter o resultado afetado", disse Ricardo Almeida, professor do Ibmec-SP.
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