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03/07/2004 - 03h10

"Somos uma cambada de direitistas e conservadores", afirma Felipe Ortiz

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CASSIANO ELEK MACHADO
da Folha de S.Paulo

Leia, a seguir, trechos da entrevista com o escritor Felipe Ortiz:

Folha - Na sua opinião, que características, além do fato de escreverem blogs e os ancorarem no Wunderblogs, unem os autores coligados no livro?

Felipe Ortiz -
Todos nós iniciamos cada frase com letras maiúsculas e evitamos o uso de emoticons, ou de reticências com mais de três pontos. Mesmo reticências convencionais são usadas escrupulosamente.

Além disso, quase todos nós também somos unidos pela amizade pessoal. O portal sempre foi e será o de um grupo de amigos. Caso contrário não seria brasileiro.

Por fim, pode parecer que cada um de nós, à sua maneira, está indisposto com alguns traços marcantes da cultura brasileira. Mas eu penso que, antes, sentimos muito a sua falta.

Folha - Quando você começou a escrever blogs e por quê? Você já escrevia antes com freqüência? Como?

Ortiz -
Comecei a escrever meu blog em setembro de 2002. Eu pretendia emular três blogs muito bons: o Agonizando (http://agonizando.tripod.com), do meu amigo Evandro Ferreira, o Miss Veen (http://missveen.wunderblogs.com) da Juliana Lemos, e o Ignea's (http://ignea.blogspot.com), de uma outra amiga minha, Maria Inês de Carvalho. Este último infelizmente foi abandonado pela sua autora.

Antes disso eu já escrevia com freqüência, pois durante muito tempo passei as tardes sozinho em casa e precisava anotar todos os recados telefônicos que chegavam para a minha família. Também já fiz muitas provas nesses anos todos de faculdade, para mim mesmo e para outros, além de descrições, narrações e dissertações escolares. Mas não pretendo publicar nenhuma delas no blog, por motivos de foro íntimo.

Folha - Quais as principais vantagens e desvantagens do blog em relação a outros formatos, como diários, iluminuras, livros, apostilas, panfletos etc.?

Ortiz -
O blog é publicado na hora, sem custo algum para seu autor, e atinge um público potencialmente muito mais amplo do que qualquer veículo impresso. Além disso, eu não sei gravar iluminuras. O ponto negativo é que não rende dinheiro, mas eu não sei se isso é rigorosamente uma desvantagem com relação aos outros meios que você mencionou.

Folha - Quantos posts vocês escreve em média a cada mês? Quanto tempo você gasta com os blogs? Quem é o mais prolífico dos Wunders? Quem é o mais conciso?

Ortiz -
Eu escrevo poucos, uns quatro por mês no momento. Gostaria de ter tempo para escrever mais.

Gasto de vinte minutos a duas horas para escrever um post, dependendo de seu tamanho. Os meus tendem a ser um tanto longos. Mas gasto bastante tempo, todos os dias, lendo blogs.

O mais prolífico dos Wunders é, provavelmente, o Mozart, que escreve dois ou três posts diários, nunca muito curtos. O mais bissexto talvez seja eu, ou o Marcelo de Polli. E o mais conciso é o nosso epigramista FDR.

Folha - Além dos blogs, você escreve alguma forma de ficção? Com que características?

Ortiz -
Quando era advogado, escrevi numerosas petições judiciais e pareceres sobre questões jurídicas, naturalmente influenciados pelo realismo mágico latino-americano. E os trabalhos acadêmicos que a faculdade de Economia me exigiu foram os meus exercícios no campo da sci-fi.

Folha - Como selecionou o material para o livro "Wunderblogs.com"?

Ortiz -
Excluí o que me pareceu datado, insuportavelmente mal-escrito, ou o que era simples transcrição de textos de terceiros.

Folha - Qual o perfil do leitor dos blogs Wunder? Quem são os "inimigos" do Wunder?

Ortiz -
O típico leitor dos Wunderblogs é o sujeito que morre de rir lendo a Veja, a Folha, o Estadão e uma grande parte da nossa tradição literária. Sente saudades de Paulo Francis. É conservador em algum dos muitos e equívocos sentidos desse termo, mas aprecia também humor e ironia; é chestertoniano, ainda que nunca tenha lido nada de Chesterton. E sente um certo vazio quando se lembra dos anos perdidos na USP, na Unicamp ou em alguma de nossas melhores UFs ou PUCs.

A hostilidade aos Wunderblogs provém essencialmente daquela parcela do público que sente orgulho de ser brasileira, e que dedica seu tempo à construção de uma sociedade mais justa. Quem acreditou no Fome Zero é anti-Wunderblogs. Chame isso de teste da farinha se quiser.

Folha - O que você pensa da literatura contemporânea brasileira?

Ortiz -
Eu não li nenhum autor da literatura contemporânea brasileira. A vida me exige a leitura freqüente de não-ficção; quando posso dar atenção à literatura, ela raramente é brasileira, e nunca é contemporânea.

Folha - Quem são seus 'modelos' intelectuais e literários?

Ortiz -
Meu conhecimento dos autores que mencionarei aqui é demasiado fragmentário para que eu possa responsavelmente apontar qualquer um deles como modelo. Mas, de modo um tanto impressionista, eu me atrevo a citar alguns nomes.
Antes de mais nada: quando crescer, quero ser que nem Otto Maria Carpeaux. Uma de minhas leituras favoritas durante a adolescência eram os textos da Enciclopédia Mirador. Os verbetes que ninguém mais no Brasil era capaz de redigir eram sistematicamente deixados aos cuidados dele. Como não se apaixonar?

Também gosto de uma boa parte da obra publicada de Olavo de Carvalho, especialmente das apostilas, cursos e livros que circulam pelas mãos de seus alunos e ex-alunos. E aprecio muito, é claro, o estilo de Paulo Francis.

Penso, contudo, que minhas principais referências são a Bíblia, os escritos dos Santos Padres e a tradição da Igreja Ortodoxa. Este bloco de referências oferece também, a quem buscá-los, padrões intelectuais e literários -- e que aliás são os mais elevados que conheço. Pena que minhas incursões nesse campo sejam tão solitárias.

Folha - O escritor Marçal Aquino disse ontem, em debate no Sesc Anchieta, de São Paulo, que "todos os escritores hoje são de esquerda". Comente.

Ortiz -
Como já disse, eu não estou suficientemente informado sobre a literatura contemporânea para poder julgar essa declaração. Não sei se ela se aplica fora do Brasil. Mas aqui dentro é possível que isso seja praticamente verdadeiro.

Afinal, neste país, depois de décadas de doutrinação midiática e escolar, o esquerdismo conseguiu o status de parte integrante do ethos da nação. Um escritor que denuncie abertamente a impossibilidade do igualitarismo, bem como o seu caráter essencialmente totalitário, ou não chega aos ouvidos de ninguém (as obras de Eric Voegelin, Friedrich Hayek e muitos outros são virtualmente inéditas no Brasil, apesar da consagração no exterior), ou é esfolado vivo por uma longa sucessão de coices do público e da crítica (o que atinge autores como Diogo Mainardi, Olavo de Carvalho ou Bruno Tolentino), ou é impermeabilizado por uma canonização formal que faz dele um clássico estéril e defunto (como é o caso de Paulo Francis e Nelson Rodrigues). Talvez já não seja mais possível fazer sucesso e ser tratado com respeito, no Brasil, como um escritor de direita -- não em vida. "Direita", neste país, é PSDB.

Folha - Os autores do Wunderblogs são muitas vezes chamados de direitistas, conservadores etc. O que você pensa disso?

Ortiz -
Penso que de fato somos todos uma cambada de direitistas e conservadores. E a honra de ser o pior de todos, segundo entendo, cabe a mim. Um dia ainda publicarei no meu blog, em capítulos semanais, a minha obra mais recente, Elogio do Czarismo.

Folha - Existe direita (ou termo equivalente) inteligente aqui ou fora do país hoje em dia? Exemplos?

Ortiz -
Sim, existe. No Brasil, ela abrange os nomes já citados e uns poucos mais. Fora do país, ela é numerosa. Quem quiser conhecê-la pode começar explorando os links desta página aqui: http://jkalb.org/node/view/7. E também esta aqui: http://www.mises.org. Os textos dos links naturalmente se contradizem uns aos outros, mas quem lê-los vai perceber que, lá fora, existe uma ampla vida intelectual de 'direita' --suficientemente intensa para permitir, inclusive, sua subdivisão em correntes antagônicas. Aqui, a direita luta simplesmente para continuar existindo.

Folha - Quais dessas características você acha que tem seu blog: pessimismo, otimismo, bom humor, mau humor, misticismo, moralismo, anglofilia, "antibrasileirismo", liberalismo, catolicismo, cristianismo, classicismo, ironia, passadismo.

Ortiz -
Charlatanismo. Bizantinismo. Eslavofilia.

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