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Aguenta coração

Cardíaco troca seleção por jogo de paciência, passa nervoso e comemora vitória do Brasil

EDUARDO OHATA DE SÃO PAULO

Pouco antes da partida deste sábado (28) entre Brasil e Chile, o aposentado Roberto Reis, 68, era só animação. Falava sem parar de futebol europeu, de Corinthians, seu time, e, claro, dos Mundiais que acompanhou.

Mas, quando as equipes entraram em campo... Reis deixou a sala e se recolheu para o quarto, onde passou a jogar paciência no computador.

Dono de personalidade forte e com histórico de um infarto, dois pré-infartos, creditados em parte ao futebol, uma ponte de safena e duas mamárias, Reis deixou de assistir as partidas da seleção na Copa do Mundo de 1982.

"Sou um pouco ignorante com isso [seleção]" diz Reis, ao aumentar seu tom de voz. Pô, o cara [chileno] vem fazer festa na minha cozinha? Não dá para assistir numa boa."

Ao se acomodar em frente ao computador, próximo à porta da sacada do quarto e pensa na distração cibernética, Reis é alvo de uma brincadeira da mulher, Nanci, 68.

"Aí, hein? Fica assim, curtindo um solzinho e jogando paciência. Em plena Copa do Mundo...", provocou, rindo.

Resignado, em um profundo silêncio, Reis foi colecionando vitórias na paciência.

De repente, gritos dos vizinhos e estouros de rojões. Não foi preciso perguntar.

"Vamos ver", exclamou Reis ao trocar o modo de seu monitor de computador para TV e assistir ao replay do gol de David Luiz, que abriu o marcador, e voltar o monitor para o modo computador.

Vez por outra ouviam-se gritinhos estridentes de Nanci, que via jogo na sala.

Quando faltavam 15 minutos para o final do segundo tempo, Reis reclamou: "Só 1 a 0? É pouco... Tá acabando [a partida], não é?".

O CHILE FEZ GOL?

Ao ser informado pela reportagem da Folha de que provavelmente haveria prorrogação, espantou-se: "Como assim? Só se o Chile fez gol. Benhê, o Chile fez gol?".

A confirmação da mulher provocou gritos de palavrões.

"Achei que o Brasil ia fazer 1 a 0, 2 a 0, 10 a 0, 15 a 0, e está empatado?", protestou.

Sem o estouro de rojões durante a prorrogação, a irritação de Reis foi progressiva.

Esqueceu a paciência.

Arfava, bufava, olhava para o relógio, inclinava-se na mesa com uma das mãos na nuca, tirava o suor da testa,e derramou a sua cerveja.

"Caralho! Tem que ser gol, gol, gol, porra", gritou, ao perceber que a prorrogação também chegava ao final.

Nas cobranças de pênaltis, foi para a cozinha, de onde saía só ao ser informado se a bola entrara. Ao assistir aos replays, xingava aos gritos os brasileiros que erravam.

Em uma frase recheada de palavrões, criticou até o cabelo de Willian, que perdeu seu pênalti. "E com esse cabelo, você vai fazer o quê?"

Já para Marcelo, que converteu e que tem corte igual ao de William, foi só elogios.

"Aí, meu menino!", disse.

O único lance da partida a que assistiu em tempo real foi a última cobrança chilena.

Comemorou o erro de Jara --e a vitória da seleção-- com uma sonora saraivada de socos aplicada no sofá e gritos.

Recebeu ligação do cardiologista. "Tudo bem, segunda estou indo fazer um exame."

PESQUISA

O cardiologista Nabil Ghorayeb pesquisa, desde a Copa de 2010, a relação entre a Copa e problemas cardíacos.

"Quando o Brasil foi eliminado pela Holanda [em 2010], o número de infartos naquele dia cresceu entre 28% e 30% [em relação aos outros dias de jogos da seleção]", diz, ao acrescentar que a pesquisa prossegue nesta Copa.


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