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Inferno

Artista israelense Yael Bartana ataca edifício da Universal que reproduz templo de Salomão e diz que bispo Edir Macedo é um 'escultor'

SILAS MARTÍ DE SÃO PAULO

A artista israelense Yael Bartana tem um certo brilho nos olhos enquanto vê duas asas douradas de querubins arderem no fogo.

É o clímax da cena de destruição do que seria o templo de Salomão, o da Bíblia, erguido e destruído duas vezes em Jerusalém há mais de 2.500 anos e que está sendo replicado na zona leste de São Paulo pela Igreja Universal do Reino de Deus.

Bartana soube dos planos da igreja de construir no Brasil um templo seguindo à risca a visão bíblica e quis ver tudo em chamas. Pelo menos em "Inferno", filme que acaba de rodar e que mostrará em Miami em novembro e na Bienal de Sydney, em maio.

Em São Paulo, a artista visitou as obras do templo, no Brás (zona leste), que devem terminar no ano que vem. E recriou, no galpão de uma escola de samba, o que seria o interior da construção, com um portal dourado, as enormes asas sobre o altar e os mesmos detalhes que a Universal já anunciou sobre seu novo templo.

"Não pude deixar de pensar que isso tinha de ser destruído", diz Bartana, 43, à Folha, durante as gravações no galpão da zona norte. "É mais um projeto utópico para marcar uma identidade, só que para toda utopia existe uma distopia. Toda construção carrega a sua destruição."

A artista está acostumada a tratar de religião nas obras que faz. Já levou à Bienal de Veneza uma série de filmes sobre o retorno fictício de 3 milhões de judeus à Polônia e se consagrou com uma leitura política e religiosa do Holocausto e de outros episódios de antissemitismo.

Um dos gastos mais vultosos --e polêmicos-- da obra da Universal foi a importação de pedras de Israel para revestir toda a fachada, que só em impostos custou R$ 2,4 milhões. O orçamento total ficou em R$ 700 milhões.

Já Bartana investiu R$ 1 milhão, bancado por sua galeria de Nova York, Petzel, para destruir --na ficção-- o mesmo templo.

Na praça da Sé, Bartana encenou a chegada das pedras e de uma gigantesca menorá dourada, num pastiche judaico da abertura de "A Doce Vida", de Federico Fellini --quando um helicóptero sobrevoa Roma carregando uma imagem de Jesus Cristo.

Depois de pôr tudo no lugar, começou a destruição. Foram dois dias de explosão de vidraças, chão rachando sob os pés e bolas de fogo que chamuscavam o altar, os portais e os querubins.

A visão da destruição é inspirada em uma tela de 1867 do italiano Francesco Hayez em que fiéis se jogam de um templo em chamas. "Caos e anarquia" são elementos centrais da cena, diz a artista.

Bartana reflete sobre o que considera "megalomania" da Igreja Universal, exagero que beira as artes visuais. "O discurso do bispo Edir Macedo é que, se os fiéis não podem ir a Jerusalém, ele traz Jerusalém até eles", diz. "É quase um artista tentando fazer uma escultura gigantesca."

BAILE FUNK E JUMENTO

No pós-destruição, Bartana mostra a ruína do templo-escultura, recriando o Muro das Lamentações no parque Villa-Lobos. No dia da filmagem, achou lá um garoto com asas tatuadas nas costas e pediu que ele fizesse uma cena, rezando diante do muro.

Outros atores também contrastam com as imagens de tempos bíblicos. São, em grande parte, negros, com penteados ousados, maquiagem mais adequada a um baile funk que a um culto e cascatas de frutas e flores na cabeça e nas roupas das moças.

Havia no parque também um burro, parte da ambientação bíblica, e um carrinho que vendia lembrancinhas judaicas, camisetas e ímãs de geladeira de menorá.

"É difícil saber em que época se passa o filme", diz Bartana. "Mas não é uma crítica aos evangélicos, nem tenho a intenção de criticar nada. O filme é sobre a estética da destruição e como devem ser os lugares sagrados", diz.

É também uma reação à discussão acalorada que acontece agora em Israel, com grupos fundamentalistas judeus pressionando para a construção do que seria o Terceiro Templo, seguindo a profecia bíblica, no lugar da mesquita de Jerusalém.

"Não sou brasileira nem evangélica, mas sou israelense. Gosto de analisar essa mitologia do retorno a Israel", diz Bartana. "Não acredito em fazer arte contra algo. Tento só refletir as condições em que vivemos. Há espaço na arte para propor condições diferentes ou, pelo menos, imaginar essas condições, transitar entre arte e vida."


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