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Nos livros, espíritos célebres deram lugar a anônimos

Lucius e Patrícia seriam as almas que ditam best-sellers do mercado espírita, liderado por Zibia Gasparetto

Autora mais vendida no gênero da psicografia diz que outros usam o nome do espírito que ela recebe sem razão

DA COLUNISTA DA FOLHA

No tempo de Allan Kardec, espíritos como os de Santo Agostinho e Sócrates teriam ajudado a escrever "O Livro dos Espíritos" (1857). Hoje os best-sellers do gênero são ditados por nomes insuspeitos como Lucius e Patrícia.

Essa mudança de perfil é vista por editores como decorrente das necessidades de cada período do espiritismo.

"Kardec desenvolvia uma ciência, aqueles espíritos elevados eram necessários. No Brasil, a doutrina ganhou viés místico. Os espíritos são coerentes com a nova realidade, dão mensagens de conforto", diz o editor Leonardo Möller, da Casa dos Espíritos.

A editora publica best-sellers como "Tambores de Angola", que seriam ditados por Ângelo Inácio e psicografados por Robson Pinheiro.

Ângelo, segundo Pinheiro, foi um jornalista na última encarnação, mas prefere usar o pseudônimo para não chamar a atenção de parentes.

Reginaldo Prandi, autor de "Os Mortos e os Vivos -- Uma Introdução ao Espiritismo" (Três Estrelas), acredita que a discrição dos espíritos hoje decorre tanto do fato de a doutrina já ter se firmado quanto de uma precaução.

"Houve processos por direitos autorais, com familiares dizendo: Se usa o nome do meu avô, tem de pagar'."

Um caso famoso foi vivido por Chico Xavier, que psicografou vários textos do cronista Humberto de Campos (1886-1934) até ser processado pelos herdeiros.

Na ocasião, o juiz concluiu que só podia avaliar direitos autorais de obras produzidas em vida, mas, por prudência, Xavier passou a identificar o espírito como "Irmão X".

Um desenrolar curioso dessa história envolve Zibia Gasparetto. Meio século depois de ela lançar "O Amor Venceu", que teria sido ditado por Lucius, o nome do espírito passou a figurar em livros de outros médiuns como "Exilados por Amor" (Vivaluz), de Sandra Carneiro.

"Não é o mesmo Lucius", informa Zibia. "Ele diz que não tem tempo, que trabalha só comigo mesmo."

Sandra Carneiro diz que seu Lucius deixa para o leitor concluir se é ou não o mesmo que acompanha Zibia..

Mesmo o fundador da doutrina teve de lidar com questões envolvendo créditos, como conta Marcel Souto Maior na biografia "Kardec".

Embora tenha listado na primeira edição de "O Livro dos Espíritos" os desencarnados que ajudaram no trabalho, Kardec deixou os nomes dos médiuns envolvidos de fora. Causou ciumeira.

Para Souto Maior, esse foi o menor dos desafios que o francês teve de enfrentar.

Como lidava com uma doutrina que envolvia fenômenos sobrenaturais, sua batalha por toda a vida foi a de mostrar como no centro de tudo estava não o milagre, mas a solidariedade --até hoje, a maior parte das editoras espíritas doa direitos autorais a instituições de caridade.


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