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Gregorio Duvivier

Churros

Desde que o Jorge começou a vender churros, ninguém mais quis saber de pipoca. Minha filha engordou 15 quilos

SILVIO - Quando eu cheguei na praça, o Jorge já estava morto, deitado na gangorra. Eu chego na praça cedo. Acho que eram seis e trinta. Às sete horas da manhã, a pipoca tem que estar pronta pro pessoal da escola. Então só tinha o Jorge, morto, deitado na gangorra, todo ensanguentado. Eu não tinha nenhum motivo pra matar o Jorge. Nunca tive. Apesar dele vender churros. Quer dizer, não vou mentir pra vocês. Desde que ele surgiu na praça, a venda de pipoca caiu. Eu ainda tô pagando esse carrinho de pipoca e não vou terminar tão cedo. Quando tem churro na jogada, a criançada não quer nem saber de pipoca. Mas eu sempre gostei dele. Quando eu vi o cadáver, era como se tivesse morrido minha mãe. Um irmão. Um primo, daqueles que a gente vê pouco. Isso pra mim é coisa do Seu Peri, o diretor da escola. A filha dele tem problema de diabete por conta de tanto comer churro. Mas não vamos pensar nisso. Chegou a ambulância. Depois a gente conversa. Calma aí. Roubaram meu carrinho?

SEU PERI - Quando eu cheguei na praça, o pipoqueiro estava em cima do Jorge, chorando. Quer dizer, fingindo que estava chorando. A morte do Jorge pra ele foi uma bênção. Desde que o Jorge começou a vender churros, ninguém mais quis saber de pipoca. Isso não era bom pra ninguém. Minha filha engordou 15 quilos. As crianças começaram a voltar do recreio cheiradas de crack. Isso, crack. Não era segredo pra ninguém. Ele vendia crack. Ou seja: quem matou pode ter sido tanto o pipoqueiro quanto algum cracudo. Isso pra mim é coisa de cracudo. O Felipe da sétima B, por exemplo. Aquilo é um cracudinho. Já vi ele andando com faca e tudo. Aquilo é um cracudo. Calma aí. Chegou a ambulância. Jorge? Você tá bem?

JORGE - Quando eu cheguei na praça ainda estava escuro. Acho que eram 3h da manhã. Deitei na gangorra e me lambuzei de sangue cenográfico. Demorou até que o pessoal começasse a chegar. O primeiro foi o Silvio, que deixou o carrinho na calçada e veio correndo me acudir. Foi difícil prender o riso. Depois veio o Seu Peri, as crianças, a filha gorda do Seu Peri, gritando: "Quem é que vai fazer meus churros?". A polícia chegou. Eu abri os olhos. Disse que estava bem. Eu tinha sido assaltado, foi uma violência terrível, mas já estava melhor e estava indo pra delegacia dar queixa. Enquanto isso, ouço o Silvio gritando. "Roubaram meu carrinho!". Ótimo sinal. O Felipinho fez a parte dele. Sem carrinho, o Silvio não faz pipoca. Um dia essa cidade só vai comer churros. Os meus churros.


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