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Jornais sofrem impacto do cerco de Cristina

Proibição de que supermercados anunciem leva à queda de 15% no faturamento anual dos diários de oposição

"Clarín" deu início a programa de demissões voluntárias; decisão do governo foi adotada com congelamento de preços

SYLVIA COLOMBO DE BUENOS AIRES

A mais nova estratégia de ataque do governo argentino aos jornais que lhe fazem oposição -a proibição aos supermercados e lojas de eletrodomésticos de publicarem anúncios em suas páginas- começa a dar sinais de sucesso.

"La Nación", "Clarín" e "Perfil" acusam uma queda em seu faturamento publicitário anual de mais de 15%. "Esse número tende a aumentar se os anunciantes não voltarem", diz à Folha o secretário de Redação do "La Nación", Hector D'Amico.

Na última semana, o "Clarín" deu início a um programa de demissões voluntárias e o grupo Perfil, que publica o jornal de mesmo nome e uma série de revistas, segue reformulando produtos.

Os três buscam alternativas no mercado publicitário, mas ainda não conseguiram substituir o prejuízo causado pela saída das grandes cadeias.

A proibição teve início junto com o congelamento de preços anunciado em princípio de fevereiro.

Trata-se de um acordo entre os donos das lojas, firmado sob pressão da Secretaria de Comércio Interior, chefiada por Guillermo Moreno. "Portanto, não há nada no papel. O governo atua com base na intimidação. Os que não seguem o acordo depois são castigados de outras formas", explica D'Amico.

Entre elas, está o uso da Afip (Receita Federal) para investigar e expor a situação dos impostos dos empreendimentos e vetos a importações e exportações, das quais as mesmas dependem.

"Essa é a última e quiçá a mais aguda e criativa medida do kirchnerismo contra os meios", diz Gustavo González, editor-executivo do "Perfil".

Ele ainda lista como medidas de pressão recentes as travas à importação de papel, pressão a anunciantes de outros produtos, intervenção nos telefones da Redação e a negação de acesso dos jornalistas à informação oficial.

D'Amico identifica a medida como uma parte de uma cadeia de ações cujo objetivo é sufocar a imprensa. "Por um lado, esvaziam o jornal desse tipo de anúncio; por outro, retiram a publicidade oficial, que é destinada apenas aos jornais kirchneristas. Depois, controlam o preço do papel produzido na Argentina e aumentam as travas ao papel importado. É uma ação combinada para debilitar a imprensa."

Martín Etchevers, porta-voz do grupo Clarín, classificou a proibição de "boicote" e de "ato claramente ilegal".

No caso do conglomerado, principal inimigo do governo Cristina Kirchner, há uma retirada silenciosa de diversos tipos de anunciantes, principalmente os que dependem de regulação oficial, como a empresa Telefónica, que já não veicula mais publicidade em suas páginas.

A estratégia de manipulação do mercado publicitário é usada historicamente na Argentina. Os diretores lembram de ações que remontam aos governos militares.

O presidente do grupo Perfil, Jorge Fontevecchia, repassou, em sua coluna semanal, vários episódios. Pelo mesmo processo passaram o jornal "Perfil", desde que começou a fazer oposição ao kirchnerismo, em 2003, e o "Crítica", do jornalista independente Jorge Lanata.

"O Perfil teve que encolher, descontinuando várias publicações e reduzindo pessoal e instalações ao longo desses anos", escreveu. O "Crítica" teve que fechar suas portas em 2010. "Foi exatamente por esse motivo. Néstor [Kirchner] impediu os anunciantes de publicarem no meu jornal, e o afogou", diz Lanata à Folha.

Nas últimas semanas, a SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) e a Adepa (Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina) acusaram o governo de asfixiar os meios de comunicação do país. Já o kirchnerismo não se pronuncia sobre esses casos.

REUNIÕES

Os anúncios dos acordos entre as cadeias são divulgados diretamente pelos mesmos donos das empresas, logo depois de longas reuniões com Moreno. "Se você perguntar ao secretário, ele obviamente negará a pressão. Como não há nada escrito, é difícil apontar para o governo diretamente. É como se o acordo fosse voluntário e desinteressado, uma iniciativa dos próprios anunciantes. Não é", diz D'Amico.


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