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Jura dizer a verdade, só a verdade, nada mais que a verdade?

Em duas ocasiões, Folha modifica declarações de entrevistados e reluta na hora de admitir erros

Duas vezes, na curta semana do feriado, a Folha colocou indevidamente palavras na boca de personagens do noticiário. Os erros, graves, estavam na capa do jornal.

Na segunda-feira, o texto na "Primeira Página" que resumia a entrevista com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais Claudio Beato dizia: "País deve negociar com criminosos, afirma sociólogo". "Um dos maiores especialistas em segurança no país (...) diz que, quando as mortes se acumulam numa guerra sem fim, é preciso negociar com o crime. Ele (...) defende que o Brasil torne institucionais acordos informais que faz com criminosos".

Não foi isso o que o sociólogo disse. Basta ler a entrevista publicada: ele afirma "não ser contra a negociação, eventualmente, e de forma pontual" e que, "se houve acordo [com o PCC em 2006], por que não fazer de forma transparente?".

O entrevistado sabia que estava entrando em terreno pantanoso. Ele avisa "vou falar uma coisa que será muito criticada", antes de discorrer sobre projetos de controle da violência no exterior que tiveram negociação com gangues. Mas ele não diz que o país "deve negociar" com o crime nem defende que se "institucionalizem acordos informais", como está na "Primeira Página".

Ouvindo toda a gravação da entrevista, fica mais clara a posição de Beato. Ele diz que a máxima "não se negocia com o crime" já está vencida, porque policiais fazem acordos pontuais com contraventores "para apagar incêndios, em determinados bairros". "Muitas vezes, o governo nem sabe", diz.

Em vez de reconhecer o erro e dar uma correção, como prevê o "Manual da Redação", a Folha publicou uma carta e um artigo de Beato ("Jornalismo, ética e segurança pública"), em que ele afirma que "jamais diria uma sandice dessas".

Ficou confuso: quem está dizendo a verdade? "Difícil acreditar que o jornalista publicasse algo que não foi dito, até porque as entrevistas são gravadas. Mais lógico seria afirmar que [o sociólogo] mudou seu pensamento", escreveu o leitor Reginaldo Salomão.

O problema surgiu no processo de produção do jornal: o repórter reproduziu o que está gravado, mas o sentido foi deturpado na edição.

O segundo erro, na mesma linha, foi a manchete de terça-feira: "Atraso em obras é 'regra do jogo', diz ministra do PAC".

A frase foi pinçada de uma fala de Miriam Belchior em entrevista coletiva. Questionada sobre o cronograma das obras, disse: "Atraso é da regra do jogo (...) o tamanho dele tem que se verificar proporcionalmente ao período previsto".

O jornal fez um link entre a frase dela e a do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, alguns dias antes, sobre preferir morrer a passar anos em uma cadeia no Brasil. Onde a Folha viu um surto de "sincericídio" na Esplanada dos Ministérios, havia apenas uma declaração banal da titular do Planejamento.

Belchior não disse que atraso é "a" regra do jogo, mas que é "da" regra do jogo -acontece, mas não é inevitável. A aspa correta estava no texto da reportagem, mas ganhou um "upgrade" no título do caderno "Mercado" e na manchete.

Desta vez, o jornal publicou uma correção, mas contrariado. Em resposta à carta do Ministério do Planejamento, classificou o erro de "detalhe irrelevante".

Outro erro. "Não é preciosismo a alteração de 'a' para 'da'. Se a ministra disse 'isso é da regra do jogo', significa que é comum, constante. É como dizer 'faz parte'. Já 'isso é a regra do jogo' equivale a dizer que essa é a única forma de se trabalhar", explica Sirio Possenti, 65, professor de linguística da Unicamp.

A Folha entendeu mal uma declaração e fez um carnaval em torno do nada. Depois da manchete, saíram um editorial ("A regra do atraso"), uma coluna Brasília ("No vermelho") e uma charge na página 2 descendo a lenha na ministra.

Boa parte do jornalismo consiste em fazer as pessoas dizerem o que elas preferiam manter para si. Arrancar segredos, inconfidências e afirmações polêmicas é um dos desafios de um bom repórter. Mas isso não implica carta-branca para interpretar o que alguém "quis dizer". Se a meta do jornalismo não for a exatidão, passaremos ao reino do vale-tudo.

Morte no café da manhã

Suhaib Salem/Reuters
Palestinos arrastam corpo de suposto traidor pelas ruas de Gaza
Palestinos arrastam corpo de suposto traidor pelas ruas de Gaza

A Folha estragou o café da manhã de muita gente ao estampar a fotografia ao lado na capa da quarta-feira passada. "A cena me deixou amargurado. Comecei mal o dia e não precisava, porque tem muita coisa boa acontecendo. Desnecessário importar essa desgraça", reclamou o bancário aposentado Cláudio Selles Ribeiro, 63.

A educadora Irany Mainieri Giordano, 76, ficou tão indignada que queimou o jornal. "Destacar atitudes perversas estimula as más práticas. Além disso, ninguém quer mais saber de coisa ruim", disse.

A imagem mostra palestinos arrastando o corpo de um dos seis supostos colaboradores de Israel, assassinados momentos antes. É, sem dúvida, perturbador e desagradável, mas jornalisticamente justificável, porque revela um aspecto pouco conhecido do violento conflito no Oriente Médio. O que talvez esteja faltando é fazer um contrapeso e destacar, sempre que possível, as boas notícias.


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