Em estreia madura na poesia, Marcia Vinci dramatiza formas de percepção

Crédito: Bruna Barros/Editoria de Arte/Folhapress

LEONARDO GANDOLFI
ESPECIAL PARA A FOLHA

POEMAS DO SIM E DO NÃO
QUANTO: R$ 35 (104 PÁGS)
AUTOR: Marcia Vinci
EDITORA: Boto-cor-de-rosa/ Paralelo13s

Em "Poemas do Sim e do Não", estreia madura de Marcia Vinci (Poços de Caldas, 1933), deparamo-nos com versos que, buscando dar conta da memória, dramatizam formas de percepção. A ideia de tempo, construída pelo livro, faz com que o ato de recordar não seja diferente da atenção minuciosa dedicada aos dias.

Afinal de contas, para que os anos passem será preciso que passem antes os minutos no ponteiro do relógio. E tal duração, é claro, não deixa de estar sujeita a diversos extravios: "o olho/ de quem vê/ não viu/ passou/ o que era/ para ser visto."

Falando em desvios, a voz da poeta entende que perceber os outros também é se perceber. Por isso, escrever a própria história coloca-a num lugar dinâmico em que ela se torna, de maneira objetiva, espectadora de si: "A gaveta// me espreita/ no fundo/ de seus guardados/ relógio quebrado/ remédio vencido."

E esse lugar, vale dizer, guarda paralelo com uma pequena joia da poesia brasileira dos anos 1980 que é o livro "Colar de Maravilhas", de Mirian Paglia Costa. Os versos de Vinci, como os de Costa, fazem da anotação do tempo e de si um jeito de surpreender certa perspectiva moderna de poesia: "me vejo múltipla/ encantada/ me faço cacos/ no duro do chão/ me vejo/ não gosto/ ponho a venda/ me cego."

Aliás, é por meio de tal espelho partido que podemos entender o corpo como palco de uma ação em que hábitos ("Oui, ma mère,/ passei pente fino/ catei os piolhos/ lavei o vestido/ troquei a calcinha") podem não se diferenciar de cicatrizes: "toda mãe/ é sozinha/ toda mãe/ é solteira."

Outro acento do livro –e este é destacado por José Miguel Wisnik na orelha– reside no fato de Marcia escrever não exatamente sobre objetos culturais, mas por sobre eles. Wisnik se refere à "bricolagem de canções" em que aparecem trechos de Silvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Nelson Gonçalves.

Nesse mesmo registro, a escrita-palimpsesto da autora mobiliza textos de Manuel Bandeira, Olavo Bilac e outros. Do pernambucano, a poeta "" num gesto afim com o de Adélia Prado em relação a Drummond "" faz releitura crítica do poema "Irene no céu", dando a ver o ponto de vista da personagem feminina.

Quanto a Bilac, Vinci escreve "Ora direis// ouvir estrelas/ nunca mais/ estrelas morreram/ há trilhões de luzes" e por aí segue.

O livro está organizado em seções e, na última delas, a autora costura poemas com expressões idiomáticas como "sair da linha", "seguir a linha", "por um fio", entre outras. Ao convocar agulha e linha –dupla muitas vezes identificada com o espaço doméstico–, a poeta desfamiliariza o uso dessas expressões da língua. E isso, de certa forma, evidencia o movimento geral de seus versos: atingir o registro memorialístico por meio de uma intimidade deslocada.

Por fim, vale sublinhar que o livro é editado pelo selo ParaLeLo13S, da livraria Boto-cor-de-rosa, de Salvador, que tem feito a diferença, ao criar, por meio de várias ações –a edição de livros é só uma dela–, um espaço plural de mobilização, divulgação e debate de poesia.

LEONARDO GANDOLFI é poeta e professor de literatura portuguesa da UNIFESP.

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