Descrição de chapéu Amazônia sob Bolsonaro

Bolsonaro nunca incentivou invasões, diz presidente do ICMBio

Coronel da PM-SP Homero de Giorge Cerqueira culpou governos anteriores pelo desmatamento em 2019 em unidade de conservação

Fabiano Maisonnave
Floresta Nacional do Bom Futuro (RO)

Presente na reintegração de posse da Floresta Nacional (Flona) do Bom Futuro, o presidente do ICMBio, o coronel da PM-SP Homero de Giorge Cerqueira, negou que as declarações do presidente Jair Bolsonaro contra áreas protegidas tenham incentivado invasões. 

No cargo desde maio, Cerqueira culpou os governos anteriores e até seu antecessor no governo Bolsonaro pelo desmatamento de 734 hectares dentro da Flona —a maior devastação nessa unidade de conservação desde 2007. 

Em entrevista à Folha enquanto caminhava pela invasão, ele confundiu a Flona Bom Futuro com um parque nacional também de Rondônia, usou “flora” no lugar Flona e, demonstrando irritação, encerrou a entrevista falando para este repórter cortar a barba.

 

Vários dos invasores chegaram aqui no dia 22 de outubro do ano passado, motivados por declarações de Bolsonaro, de que há áreas protegidas demais. O sr. acredita que essas declarações tenham uma parcela de responsabilidade dessa e de outras invasões em unidades de conservação?
Não, absolutamente. O ministro Ricardo Salles pediu que acompanhássemos a reintegração de posse para cumprir uma determinação legal e preservar a integridade física e moral das famílias. 
Em momento nenhum, o presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, incentivou a invasão em unidades de conservação e terras indígenas. Porque aqui há uma sobreposição de unidade de conservação e terras indígenas. 

Aqui, não, isso é lá no Parque Nacional Pacaás Novos. Aqui é a Flona Bom Futuro.
Isso, eu estava confundindo Eu estava sobrevoando também Pacaás Novos. Se tiver de acontecer alguma coisa, tem de mudar a lei. E o que o presidente e o próprio Ricardo Salles têm falado é que tem de trabalhar dentro da legalidade, da transparência e do resultado. A gente está cumprindo uma ordem judicial. O governo passado deixou de cumprir, né? Deixou invadir e não fez nada. 
A gente veio aqui, deu apoio, fez transferência financeira para os órgãos que estão apoiando, as Polícias Militar, Civil e Federal e o Exército. Estamos aqui pra ver o cumprimento da ordem. Em nenhum momento, o presidente e o ministro compactuam com o desmatamento, o descaso, com o desrespeito à natureza.

 

Haverá mudanças na política do ICMBio para a Bom Futuro?
A Flona Bom Futuro vai ser o que o decreto preconiza. Para a gente diminuir ou aumentar, é preciso um projeto de lei para que o Congresso aprove. O que a gente vai fazer? No primeiro momento, retirar as famílias que invadiram um terreno que é da unidade de conservação. 

Aqui na Flona, houve um desmatamento de ao menos 700 hectares neste ano. Por que não foi possível coibir?
Isso vai antes da nossa entrada. Eu cheguei ao ICMBio em maio. A gente conversou com o Ministério Público Federal pra gente fazer isso aí. Conversamos com o comandante-geral e acertamos pra fazer a reintegração de posse agora dia 10 de setembro.

Então a fiscalização está cada vez mais intensa nas unidades de conservação. Anteriormente, não acontecia. Deixavam o hospital sem doente para não ter doença hospitalar. Ou seja, não tratavam o problema de uma forma mais serena, de frente. 

A gente tem combatido desmatamento em unidade de conservação. No Pará, lá na flora (sic) Jamanxim, tem muito garimpo, e o garimpo não foi feito em oito meses. Há muito tempo, as pessoas deixaram. Aqui a gente tem feito fiscalização, operações, o ministro Salles tem falado pra gente fazer fiscalizações próprias.

O que você está falando não prospera. A gente tem feito fiscalização, e o Brasil é grande, são 334 UCs, 9,1% do território brasileiro é de unidade. A gente tem sido eficaz, eficiente, mas os órgãos de imprensa gostam de pautar só nisso. Em oito meses, falando que houve desmatamento…. Quantas vezes você viu um presidente numa unidade de conservação onde teve reintegração de posse? 

Eu, como presidente, conversando com outras pessoas, é a primeira vez que a gente vai no lugar. Vocês falam que a gente não está fiscalizando. Eu estou incentivando a fiscalização, o acompanhamento, pra que não haja esse desmando.

Coronel Homero de Giorge Cerqueira (Foto: Divulgação/Polícia Ambiental)
Coronel Homero de Giorge Cerqueira (Foto: Divulgação/Polícia Ambiental) - Divulgação/Polícia Ambiental

Na campanha, aqui em Rondônia, Bolsonaro afirmou que havia áreas protegidas demais em Rondônia. O presidente Bolsonaro tem a mesma avaliação?
Eu, como técnico, estou falando o que estou fazendo. Você, como jornalista, tem de procurar o presidente e perguntar pra ele.

Mas não é o sr. que gere a política para unidades de conservação?
Estou preservando a natureza. Está na Constituição, no artigo 225 [que obriga o poder público a preservar o meio ambiente]. Se mudar o artigo, eu vou seguir. Eu, nos 35 anos de coronel da PM, sempre trabalhei na legalidade. Nem mais nem menos.

Há ONGs que participam de gestão de unidade de conservação, com projetos de extrativismo. A orientação é manter esses convênios?
Vou fazer outra pergunta pra você. Por que na região Norte tem 10 mil ONGs e na região Nordeste não tem nenhuma?

Há muitas ONGs no Nordeste também.
Quantas?

Eu não tenho de cabeça.
Se você me responder isso, aí te respondo.

O sr. é contra projetos de ONGs em unidades de conservação?
Eu não sou contra. Tenho de ver qual é o escopo da ONG, o que ela quer fazer. Sou doutor em educação, conheço um pouco de projeto científico. A gente precisa entender o que ela está querendo dentro de uma unidade de conservação. A partir daí, isso vai melhorar as condições da população que habita os povos tradicionais ou vai trazer problema? Ou vão levar alguma coisa dessas unidades?
Estou há 112 dias no ICMBio. Em São Paulo, a gente conseguiu congelar o desmatamento. 

Mas São Paulo é outra dinâmica.
As práticas são boas.

Por que houve a decisão de militarizar o Ibama e o ICMBio?
E por que não? O que você tem contra? Tenho 35 anos de carreira. O que eu tenho feito de ruim em unidades de conservação? A gente descobriu um monte de carro sucateado. Por que não militar?

A crítica é que vocês não têm experiência com a Amazônia.
Crítica é o ponto de vista, vista de um ponto. Por que você, jornalista, usa barba? Eu não gosto de barba. É uma opinião minha.

A crítica é que são pessoas com pouca experiência na Amazônia.
Eu tenho 35 anos de comandar batalhões. Estou aqui ombreado com pessoal, sou doutor em educação, trabalhei dois anos no Ambiental como comandante, com 2.190 homens, 498 embarcações, uma aeronave. Conseguimos congelar o desmatamento.

Por que esse estigmatismo contra o militar? Se você pegar um quartel de polícia, vai ver que está tudo organizado. Tudo com norma. Estou há cem dias. O que fiz de errado?

Houve aumento no desmatamento neste ano, incluindo em unidades de conservação.
Estou há cem dias. Há 20 anos, tem garimpo em unidade de conservação, há 20 anos tem desmatamento. O desmatamento não é só fiscalização. Com tanta pesquisa, tanta ONG, será que nunca pesquisaram isso?

Obrigado, hein, meu. Corta a barba depois.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.