Itália oferece peças ao Museu Nacional, mas diretor diz que a prioridade é ter verba

Alexander Kellner agradece intenção de italianos, mas afirma que empréstimo não interessa

Ana Luiza Albuquerque
Rio de Janeiro

Estava cheio o salão do Instituto Italiano de Cultura, no centro do Rio de Janeiro, na manhã desta quarta-feira (19). Por lá circulavam autoridades italianas, diretores de museus, curadores e pesquisadores que participavam do evento "O museu como laboratório". O ponto alto do dia, conforme adiantava o texto de divulgação do simpósio, seria um anúncio de cooperação entre Itália e Brasil para a recuperação do Museu Nacional, atingido por um grande incêndio em setembro do ano passado. 

Os italianos manifestaram a intenção de ajudar por meio de duas principais iniciativas: fazendo um empréstimo a longo prazo de peças do parque e do museu arqueológico de Herculano e Nápoles, respectivamente, e oferecendo "know how" para a restauração e recuperação das peças atingidas pelo fogo. O incêndio destruiu a maior parte do acervo do Museu Nacional, gerando grande comoção e doações para a instituição.

A ideia das autoridades italianas, representadas no evento por Lucia Borgonzoni, vice-ministra de Bens e Atividades Culturais, e por Antonio Bernardini, embaixador da Itália no Brasil, é levar para o Instituto Italiano de Cultura no Rio um determinado número de peças de Herculano e Nápoles. 

 

Quando o Museu Nacional estivesse recuperado e pronto para abrigar as coleções, o material seria transferido para a instituição. A intenção dos italianos é de que as peças fiquem por cerca de 20 anos no país. "Infelizmente não podemos fazer doação de patrimônio", disse Borgonzoni, membro do partido ultradireitista Liga. 

O anúncio dos italianos e o evento no instituto, no entanto, ocorreram ainda na fase inicial de conversações e antes do efetivo firmamento do acordo de cooperação.  

O diretor do Museu Nacional Alexander Kellner disse à Folha que vê com bons olhos a iniciativa do governo italiano, mas que não há acordo firmado entre o país e a instituição. Ele afirma que a prioridade no momento é a obtenção de verbas, até mesmo para a construção de um centro educacional com áreas para exposição.

"Apreciamos a intenção dos italianos, mas tem que ficar claro que a gente não consegue recuperar as coleções com empréstimos. Neste momento não nos interessa porque não temos onde colocar", diz Kellner.

O diretor também é resistente à ideia de expor as peças primeiramente no Instituto Italiano de Cultura porque avalia que, ao chegarem ao Museu Nacional, o ineditismo em torno da coleção já teria passado e o público teria um interesse menor em conhecê-la.

"Nossa prioridade é o centro educacional, onde, aí sim, poderia haver uma exposição, quem sabe, de Herculano e Pompeia", diz Kellner. O objetivo é construir o centro em um terreno adjacente ao Museu Nacional, com áreas para exposição e atividades recreacionais. 

Outros países já estabeleceram cooperações com a instituição. O governo alemão doou quase R$ 1,5 milhão em verbas, enquanto o British Council repassou R$ 150 mil.

"Conseguimos recuperar vários materiais da [imperatriz] Tereza Cristina graças à verba do governo alemão. É isso que a gente precisa agora. 'Know how' sozinho não é suficiente. O Brasil tem gente que sabe fazer", afirma Kellner.

A imperatriz de origem italiana, casada com D. Pedro II, foi lembrada pelas autoridades da Itália durante o anúncio da cooperação. Tereza Cristina trouxe ao Brasil peças recuperadas em escavações promovidas em Herculano e Pompeia —e que séculos depois seriam atingidas no incêndio no Museu Nacional.

Em conversa com jornalistas, a vice-ministra Lucia Borgonzoni disse que é interessante para a Itália reconstruir esta coleção, por considerá-la importante em termos de acesso à cultura de seu país. 

Brasil e Itália vêm estreitando laços desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que tem ascendência italiana. Em abril, o filho do presidente, deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL), foi ao país se encontrar com o líder da Liga, o vice-premiê e ultradireitista Matteo Salvini, que costuma fazer acenos ao presidente. 

Borgonzoni, membro do mesmo partido, jantou nesta terça-feira (18) com o ministro da Cidadania Osmar Terra. Ela disse que conversou com o ministro sobre a possibilidade de intensificar a valorização da língua italiana no país.

"Fiquei muito impressionada com a ligação com a Itália, quase todo mundo aqui é descendente de italiano. A relação do Brasil com a Itália vai além das questões políticas, é uma origem comum que une os dois povos. Tem uma questão de solidariedade", afirmou.

O anúncio da possível cooperação foi realizado após uma reunião no início do mês entre Alberto Bonisoli, ministro dos Bens e das Atividades Culturais da Itália, e Antonio Patriota, embaixador do Brasil na Itália. Segundo nota do ministério, ambos conversaram sobre como fortalecer as relações entre os dois países e Bonisoli informou que a Itália colaboraria com o empréstimo de peças ao Museu Nacional. 

"O objetivo é permitir que o público brasileiro, em particular jovens e estudantes, voltem a desfrutar aquela parte da herança cultural de origem italiana que foi destruída pelo incêndio", diz o texto. 

À Folha o embaixador Antonio Bernardini afirma que é preciso conversar mais vezes com o diretor do Museu Nacional, mas garante que não existe a possibilidade de oferecer ajuda financeira à instituição.

Bernardini diz que o principal objetivo do governo italiano é permitir que o brasileiro tenha contato com a cultura do país por meio das peças que serão trazidas ao Instituto Italiano de Cultura, preenchendo, assim, a lacuna deixada pelo incêndio que atingiu a coleção greco-romana do Museu Nacional.

Ele afirmou, ainda, que o encontro com o ministro Osmar Terra foi muito positivo e que Brasil e Itália estão interessados em estreitar os laços. Segundo o embaixador, há possibilidade de novas cooperações entre os museus de ambos os países.   

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