Sem verbas, cientistas brasileiros buscam bolsas em Portugal

Número de pesquisadores do Brasil que se candidataram a bolsas mais do que dobrou entre 2018 e 2019

Giuliana Miranda
Lisboa

Em meio aos sucessivos cortes de financiamento à ciência no Brasil, cada vez mais pesquisadores brasileiros têm apostado nos programas de fomento à pesquisa de Portugal. Após um período de austeridade econômica, o país europeu aumentou os investimentos em ciência e tecnologia nos últimos três anos.

Dados da FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) compilados a pedido da Folha indicam que a quantidade de brasileiros pleiteando --e conseguindo-- bolsas de pós-graduação em Portugal disparou nos últimos anos.

Em 2016, apenas três brasileiros tiveram bolsa aprovada pelo órgão, que é o principal instrumento público de financiamento à pesquisa em Portugal. "Até setembro de 2019, o número subiu para 62. Uma alta de 1.966%.

O número total de brasileiros se candidatando às bolsas mais do que dobrou em um ano: foram 185 em 2018 e 388 em 2019.

A carioca Maria Mayrinck com aparelho para pesquisa
A carioca Maria Mayrinck finaliza mestrado na área de engenharia ambiental em Portugal - Universidade do Algarve/Divulgação

O número, no entanto, pode ser ainda maior, uma vez que pessoas com dupla cidadania portuguesa ou de outro país da União Europeia muitas vezes não estão contabilizadas na categoria de brasileiros.

Além da FCT, várias universidades também dispõem de bolsas próprias, muitas delas ocupadas por brasileiros, que formam com folga a maior comunidade de alunos estrangeiros no país europeu (cerca de 32% dos estudantes internacionais).

Já no Brasil, o governo federal anunciou uma série cortes a verbas para ciência. Uma das principais agências de fomento, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) afirmou que não financiará novos pesquisadores em 2019.

Aluna de doutorado na Universidade do Minho, no Norte do país, a brasileira Lina Moscoso diz que o fato de ter uma bolsa de pesquisa portuguesa acabou ampliando o escopo de sua pesquisa, focada em mídias alternativas do Brasil, de Portugal e da Espanha.

"Acho que estar na Europa abre mais o leque [da pesquisa]. Talvez, se eu estivesse no Brasil, tivesse feito só sobre o Brasil, até porque o país tem uma diversidade enorme", diz. "Eu incluí Portugal na investigação porque estou aqui. É um país que está começando a despertar para isso [mídias alternativas], há um crescimento. No fim foi bom eu ter incluído Portugal também, porque dá fazer um comparativo importante. Enriqueceu meu trabalho", diz.

Com um trabalho na área de engenharia ambiental, a carioca Maria Mayrinck tem uma bolsa de pesquisa no Cima (Centro de Investigação Marinha e Ambiental) da Universidade do Algarve, onde finaliza o mestrado.

A instituição, que foi a segunda no país a aceitar o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) como forma de ingresso para a graduação, atingiu em 2019 a marca de 10% de seus estudantes oriundos do Brasil.

"Acho que a bolsa internacional ajuda a diversificar a pesquisa. No meu caso, a ideia é internacionalizar ao máximo as informações que eu trago da minha experiência no Brasil", diz.

Em nota, a FCT destacou o aumento de estrangeiros fazendo pesquisa em Portugal. "Um 'ecossistema' favorável de promoção e de partilha de conhecimento permitiu a Portugal atrair recursos humanos qualificados, pelo que os investigadores estrangeiros representam já cerca de 10% do total. A ciência apenas tem a ganhar com o multiculturalismo e intercâmbio cultural e profissional de pessoas altamente qualificadas, como são os membros da comunidade científica", diz a instituição.

Quem opta por uma bolsa portuguesa enfrenta um processo que pode ser burocrático, demorado e caro. A parte mais complicada, segundo os bolsistas, é a validação dos diplomas brasileiros.

O concorrido processo seletivo para as bolsas de pós-graduação leva em conta o currículo acadêmico dos candidatos. Por isso, para conseguir uma boa pontuação e ter chances de obter o financiamento, é fundamental ter a graduação validada. E é aí que começam os obstáculos.

Embora a lei portuguesa tenha sido alterada para diminuir a burocracia, diversos estudantes relatam demora além do prazo legal de 180 dias para a finalização do processo. Os custos da documentação podem ultrapassar os 300 euros (cerca de R$ 1.300).

"Não é uma maravilha. É um processo que tem muitas dificuldades e é demorado", avalia Maria Mayrinck.

A doutoranda Lina Moscoso tem a mesma opinião. "O processo é longo e é preciso estar preparado. Fiquei um semestre inteiro à espera do resultado. Fui aprovada em março, recebi o resultado em julho e só comecei a receber em abril do ano seguinte", compara.

Para a ex-presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) Helena Nader, a saída de pesquisadores, principalmente de doutorado e pós-doutorado, pode ter impactos na ciência produzida no Brasil. 

"Já dá para falar em fuga de cérebros", avalia. "Só que mais grave do que a fuga de cérebros é a fuga do brasileiro da ciência, dos jovens talentosos que acham que já não dá para fazer pesquisa no Brasil. Isso é muito sério", diz.

Nader chama a atenção também para o fato de que, ao contrário das bolsas do governo brasileiro, as verbas estrangeiras não exigem que os pesquisadores retornem ao país após os estudos. "Muitos vão para não voltar."

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