Aproveite o isolamento social para se aproximar do céu

Chegada do inverno deve proporcionar boa visão de estrelas e planetas

Vanessa Henriques
São Paulo

Durante a quarentena, o céu não passou despercebido. Abril começou com uma superlua, quando a Lua cheia coincide com o perigeu, sua máxima aproximação da Terra.

Em meados do mesmo mês, São Paulo registrou entardeceres alaranjados, que renderam muitos cliques para as redes sociais.

As próximas semanas também devem ser promissoras. A aproximação do inverno, com dias secos e menos nublados, favorece a observação de astros, estrelas, satélites e planetas.

Nem todos têm uma visão desimpedida do céu, artigo de luxo em cidades com muitos prédios e poluição atmosférica e luminosa. Ainda assim, é possível identificar alguns corpos celestes da janela de casa. O que não pode faltar é calma.

"A observação do céu exige paciência e dedicação, não se pode ver tudo o que o céu oferece em cinco minutos no intervalo do programa de TV", afirma o astrônomo Eder Canalle. Ele recomenda que se reserve um tempo para relaxar e se desconectar.

Os dias nublados podem ser aproveitados para observar nuvens —existem vários tipos além do mais conhecido, o cumulus. Algumas se movimentam mais rápido, outras mais devagar, e encontram-se em diferentes altitudes. Com as crianças (mas não só), também pode ser divertido imaginar desenhos em seus formatos, a chamada pareidolia.

Nuno, 1, desenha o pôr do sol com sua avó, Maria Emília Fernandes
Nuno, 1, desenha o pôr do sol com sua avó, Maria Emília Fernandes - Humberto Simigaglia Jr/Arquivo Pessoal

Outra oportunidade trazida pela quarentena é tirar uns minutos para ver o pôr do sol —tomando o cuidado de nunca olhar diretamente para o astro. "No pôr do sol, é possível ver a mudança de coloração no céu devido à posição da Terra em relação à nossa estrela", afirma a doutoranda em geografia e divulgadora científica Kizzy Resende.

À noite, as possibilidades aumentam, e quanto mais escuro, mais estrelado será o céu. Porém, mesmo em locais com baixa visibilidade é possível avistar estrelas mais brilhantes, planetas, meteoros (o que popularmente chamamos de estrela cadente) e a Lua.

Tudo isso é visível a olho nu, mas o uso de instrumentos ópticos pode incrementar a experiência. Com um binóculo é possível enxergar as crateras da Lua e o formato dos planetas, que deixam de ser apenas pontos de luz no céu. Os anéis de Saturno e a grande mancha de Júpiter são vistos com a ajuda de um telescópio.

Para uma observação caseira, há programas e aplicativos que simulam o céu —o mais conhecido é o Stellarium (gratuito para PC e Mac, R$ 12,99 para Android, R$ 10,99 para iOS).

Nele é possível simular o céu de qualquer dia e horário e selecionar o que será exibido (planetas, satélites, meteoros, etc). Uma das ferramentas mais interessantes é a que mostra, com a ajuda de desenhos, os formatos das constelações de acordo com diferentes mitologias.

"Há de se tomar cuidado para que os recursos visuais não virem protagonistas frente à beleza do próprio céu", lembra Canalle.

Kizzy indica também o aplicativo gratuito Heavens Above, que mostra a posição de satélites artificiais, como a Estação Espacial Internacional e o telescópio Hubble.

Para as crianças, pode ser uma oportunidade de ver na prática conceitos das aulas de ciências e geografia. Uma atividade simples é incentivar a observação do pôr do sol todos os dias, anotando o horário e um ponto de referência em relação ao astro (como uma árvore ou um prédio). Com o passar dos meses, elas perceberão que os horários e a posição variam, em decorrência do da translação da Terra.

O corretor de seguros Humberto Simigaglia Jr. e a geógrafa Melanie Fernandes Ribeiro costumavam observar o céu antes da quarentena. As horas em casa, além do céu de outono, que rende boas fotos, fizeram com que eles passassem a ver o pôr do sol todos os dias da sacada da casa em São Paulo. "É o tempo que consigo largar o trabalho para relaxar", diz Humberto.

O filho deles, Nuno, com quase 2 anos, também entrou na brincadeira. "Às vezes ele nos lembra de ir para a janela", diz Melanie. Apesar de ter decorado o horário do pôr do sol, ele chegou a pedir para vê-lo pela manhã, o que foi uma oportunidade para ensiná-lo sobre o horário do fenômeno. Os pais também o incentivam a desenhar o que está assistindo.

Para Kizzy, a prática ajuda a despertar o interesse das crianças para a mecânica dos fenômenos. "É importante incentivar a observação da natureza e o ensino por investigação, apresentando desde cedo a importância da ciência para compreendermos o planeta."

Uma noite olhando o céu

Veja sugestão de passo a passo para observar os astros no mês de maio; os horários citados se referem a São Paulo e podem variar nas diferentes regiões do país, a depender da latitude

PÔR DO SOL E VÊNUS

Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com pôr do sol e Vênus às 17h45 em São Paulo
Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com pôr do sol e Vênus às 17h45 em São Paulo - Reprodução/Stellarium

A observação começa com um convite para ver o pôr do sol (sem nunca olhar diretamente para ele), por volta das 17h30, no horizonte oeste —em oposição ao leste, onde o sol nasce. Nessa direção, será possível enxergar um ponto brilhante mais à direita do sol, o planeta Vênus.

A CONSTELAÇÃO DE ÓRION

Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com a constelação de Órion às 18h30
Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com a constelação de Órion às 18h30 em São Paulo - Reprodução/Stellarium

No mesmo horizonte, entre Vênus e Sirius, a estrela mais brilhante no céu, são visíveis Rigel, Betelgeuse e as Três Marias, todas da constelação de Órion, o caçador da mitologia grega —aplicativos ajudam a entender o desenho.

A LUA E O CRUZEIRO DO SUL

Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com Lua e cruzeiro do sul às 19h30
Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com Lua e cruzeiro do sul às 19h30 em São Paulo - Reprodução/Stellarium

Vamos agora ao horizonte leste, onde a Lua está nascendo. Em maio, ela estará cheia hoje. Na direção sudeste, mais ao alto, temos o Cruzeiro do Sul, uma das constelações mais fáceis de se reconhecer, porém a menor delas.

JÚPITER E SATURNO

Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com Júpiter e Saturno às 23h30
Simulação no Stellarium da noite do dia 7 de maio de 2020, com Júpiter e Saturno às 23h30 em São Paulo - Reprodução/Stellarium​

Ainda no horizonte leste, porém mais tarde (por volta das 23h30), outros planetas são visíveis. Mais ao alto, e mais brilhante, estará Júpiter. Abaixo, Saturno. Para quem aguentar mais um pouco, é possível ver Marte a partir da 1h.

Os melhores dias para observação em maio

7.mai
Dia de plenilúnio, ou Lua cheia
A partir das 18h30, no horizonte leste

11.mai
Conjunção (quando há dois ou mais objetos próximos no céu) da Lua, Júpiter e Saturno
A partir das 23h, no horizonte leste

15.mai
Conjunção da Lua e Marte
A partir da 1h da madrugada, no horizonte leste

22.mai
Conjunção de Mercúrio e Vênus
A partir das 18h, no horizonte oeste

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