Descrição de chapéu dinossauro

Fragmento de cometa pode ter causado o fim dos dinossauros, aponta estudo

Por enquanto, a hipótese mais comum é que a pancada interplanetária tenha sido desferida por um asteroide

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São Carlos (SP)

O objeto celeste que desabou no golfo do México há 65 milhões de anos, pondo fim ao reinado dos dinossauros, provavelmente era um fragmento de cometa lançado no rumo da Terra por Júpiter e pelo Sol, afirmam cientistas da Universidade Harvard (EUA).

Para Amir Siraj e Abraham Loeb, autores de um estudo sobre o tema publicado recentemente no periódico Scientific Reports, a hipótese é a que leva em conta o maior número de detalhes associados ao impacto. O pedaço de cometa, se for responsável pela extinção em massa, explicaria bem a composição química do objeto, época da pancada, tamanho da cratera e disposição do Sistema Solar que desencadeou a queda do bólido.

Caso eles estejam corretos, a descoberta ajudará até a repensar a vigilância atual contra ameaças cósmicas capazes de atingir a Terra, já que os cometas que seriam a fonte desse tipo de acidente vêm de regiões remotas e relativamente menos estudadas do espaço. “A queda do objeto deve ter sido uma cena incrível, mas não queremos ver isso de novo”, disse Loeb à Harvard Gazette, órgão de imprensa da universidade.

A formação da cratera de Chicxulub, com diâmetro de 150 km e profundidade de 20 km, está ligada à mais recente das grandes extinções em massa da história da Terra, e uma das mais severas —calcula-se que três quartos das espécies de animais e vegetais do planeta deixaram de existir. Entre os grupos de seres vivos que desapareceram estão os dinossauros não avianos (já que as aves, sobreviventes, também são dinos), répteis voadores e marinhos e diversos invertebrados.

Ao cair na Terra, o objeto não só causou um megatsunami como levantou quantidades colossais de poeira na atmosfera, desencadeando ainda uma onda de incêndios planetários. O resultado seria algo parecido com um inverno de alguns anos de duração, reduzindo severamente a quantidade de luz solar que alcançava o planeta.

Há poucas dúvidas sobre o papel do desastre na extinção em massa, embora a ocorrência concomitante de grandes erupções vulcânicas na Índia, também escurecendo o céu e alterando o clima, possa ter piorado ainda mais a situação da biosfera (veja infográfico).

Por enquanto, a hipótese mais comum é que a pancada interplanetária tenha sido desferida por um asteroide, ou seja, um grande pedaço de rocha espacial oriundo do cinturão que existe entre Marte e Júpiter. A questão, porém, é que a composição química do objeto que despencou no golfo do México não parece bater com a da grande maioria dos asteroides.

Acredita-se que o meteorito da extinção em massa fosse um condrito carbonáceo —trocando em miúdos, um objeto que preservou as características minerais que tinha desde a origem do Sistema Solar, e que seria rico em compostos de carbono, materiais voláteis e água. “Segundo nossa compreensão atual do processo de formação do Sistema Solar, rochas com essa composição se formaram a uma maior distância do Sol”, explica Gabriel Gonçalves, doutorando do Laboratório de Astrobiologia do Instituto de Química da USP.

Daí vem a suspeita de que o culpado seria um cometa, normalmente ligado a essas regiões mais longínquas e com a composição “certa”, pelo que sabemos. No entanto, os cálculos feitos por Siraj e Loeb indicam que nem asteroides nem cometas poderiam ser catapultados na direção da Terra na frequência necessária para causar os impactos observados até hoje. No caso dos primeiros, condritos carbonáceos chegariam até aqui apenas uma vez a cada 3,5 bilhões de anos; no dos segundos, uma vez a cada 4 bilhões de anos, no mínimo —o planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos de idade.

Entretanto, a coisa muda de figura se considerarmos que cometas de órbita muito ampla, que passam pelo Sol apenas a cada cem ou 200 anos, podem sofrer acidentes estranhos no caminho. Segundo Siraj, a gravidade de Júpiter pode atuar sobre eles como se fosse um botão de fliperama, jogando-os para perto do Sol antes do tempo.

A gravidade da estrela, por sua vez, arrancaria um pedaço do cometa e o catapultaria no rumo da Terra. A frequência de chegada desse tipo de pedregulho seria bem mais elevada —uma vez a cada 250 milhões de anos, talvez.

“Tradicionalmente assume-se que o impacto tenha sido causado por um asteroide por conta da grande quantidade de um metal chamado irídio encontrada no limite final da Era dos Dinossauros, proporção normalmente encontrada nesse tipo de objeto espacial e não particularmente nos cometas. Sabemos disso por meio de análises de meteoritos provenientes de asteroides”, explica a paleontóloga Aline Ghilardi, da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte). “Para comprovar ou refutar o estudo de Siraj e Loeb, precisaríamos de amostras diretas, fragmentos remanescentes do objeto responsável pela formação da cratera de Chicxulub.”

Se os fragmentos de cometas distantes realmente estiverem ligados a eventos como a extinção dos dinossauros, isso trará uma série de desafios para os projetos de monitoramento de ameaças à Terra, diz Gonçalves. “São corpos mais difíceis de se detectar, pois são escuros, vêm de regiões longínquas, dificultando a previsibilidade de suas órbitas, que se tornam ainda mais complexas graças a interações gravitacionais e aos eventos de quebra”, explica. Vai ser importante ficar de olhos (e telescópios) bem abertos. ​

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