Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Com novo campus no Rio, Impa quer estreitar laços com indústria e popularizar a matemática

Construção na floresta da Tijuca vai se basear em sustentabilidade e terá baixo impacto ambiental

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São Paulo

Matemática tem tudo a ver com natureza, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, onde se localiza incrustada na mata atlântica remanescente da floresta da Tijuca a mais prestigiosa instituição dedicada à disciplina do Brasil, o Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada).

Essa relação será potencializada com o início das obras do novo campus no próximo dia 14 de abril. O local será construído com o que há de mais moderno em termos de sustentabilidade e impacto ambiental, em área adjacente à atual, também em conexão com a natureza.

Os quatro pavilhões se apoiarão em pilares, minimizando o impacto na fauna e na flora locais. A construção será feita a partir de peças pré-fabricadas, o que elimina a necessidade de um extenso canteiro de obras e barateia o custo do empreendimento. Haverá reaproveitamento da água da chuva (além de obras de drenagem do terreno) e captação de energia solar com placas fotovoltaicas.

A nova sede do Impa, de 8.762 m², será somada à atual, de cerca de 12 mil m², a apenas 400 m do novo complexo. A área a ser construída representa menos de 4% do terreno de 251.824,72 m², doado ao Impa pelos irmãos Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto Marinho, donos da Rede Globo e do grupo de mesmo nome.

“Com forte ligação com o bairro onde iniciou suas operações e onde tem até hoje a sua sede administrativa e a redação do Jornalismo, a Globo fez a doação do terreno ao Impa onde está sendo construído o novo campus para que a instituição pudesse permanecer no Jardim Botânico”, afirmou a Globo em nota à reportagem.

Mais de dez anos atrás, houve uma polêmica quanto ao uso terreno, com abaixos-assinados para impedir a construção de um estacionamento no local. Segundo a emissora, embora houvesse licença da prefeitura da cidade para construção na área, a Globo não chegou a executar o projeto, optando pela doação. “A empresa fica satisfeita de que o Rio de Janeiro possa abrigar ali uma instituição que é referência no Brasil e no mundo na produção de conhecimento científico de alta qualidade”, encerra a nota.

Para o matemático Marcelo Viana, diretor do Impa, o novo campus vem sobretudo para diversificar e ampliar as atividades do instituto, especialmente na intersecção com a indústria e a educação.

O instituto já tem pesquisadores que atuam em temas ligados à extração de petróleo e à inteligência artificial, por exemplo. Uma das próximas apostas é o trabalho com blockchain, tecnologia que permite registrar e transmitir informações de forma rápida, segura e transparente na internet, afirma Viana, que também é colunista da Folha.

“A gente quer cada vez mais trazer problemas dos nossos dias para a pesquisa e também mais recursos nessa época de escassez. No país, temos centros de pesquisa de altíssimo nível, mas falta levar esse conhecimento de dentro das paredes da academia para os processos produtivos. Isso o Impa tem capacidade de fazer”, diz o matemático.

Outra atividade do Impa que tem impacto nacional é a organização e promoção da Obmep, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. O evento anualmente reúne 20 milhões de crianças e adolescentes e funciona não só como instrumento de popularização da ciência e da matemática mas como uma espécie de caça-talentos: não são poucos os casos de alunos cujas trajetórias foram transformadas pela participação na olimpíada.

A matemática tem um enorme potencial para gerar riqueza. Em alguns países, as atividades que envolvem matemática geram 15%, 16% do PIB, e o Brasil não está produzindo o suficiente, não forma bons matemáticos o suficiente”, diz Viana.

Está na mesa também a possibilidade de o Impa lançar sua própria graduação, uma espécie de supercurso de matemática. O plano é ter sob suas asas, desde cedo, as maiores promessas da área.

Além disso, o Impa quer atrair os melhores matemáticos de outras partes do mundo —daí a existência, no novo projeto, de acomodações para abrigar os pesquisadores.

Em 1952, quando foi fundado, o Impa não tinha sede própria e ocupava uma sala do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Em 1957, foi para um casarão em Botafogo e em 1967 mudou-se para um prédio histórico no Centro do Rio. A sede atual foi inaugurada em 1981, para abarcar o contingente de pesquisadores e atividades.

O projeto do novo campus é da Andrade Morettin Arquitetos e Associados, intitulado “Instituto de Pesquisa de Impacto Mínimo”. O design visou integração com a natureza e uma adequada modulação climática das edificações e rendeu para os arquitetos o Prêmio Reconhecimento, da Fundação Lafarge Holcim, da Suíça.

Hoje o Impa se configura como uma organização social, ou seja, recebe verbas públicas por contrato (o acordo com o governo federal está vencido desde 2016, mas encontra-se em vias de renovação) e tem autonomia para fazer parcerias e contratar pessoal.

A expansão do Impa, que deve custar R$ 100 milhões, é bancada pelos Ministério da Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e pelo Ministério da Educação (MEC), além de doações da iniciativa privada. A previsão é que a obra demore três anos para ficar pronta.

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