Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Sem destino, moradores viveram 10 h de angústia após novo alerta em MG

Sirene anunciou possível nova ruptura, mas risco foi afastado à tarde

Brumadinho (MG)

A angústia de pessoas que acordaram às 5h30 da manhã deste domingo (27) com o som da sirene de alerta de rompimento de barragem, em Brumadinho (MG), acabou por volta das 15h.

O alarme tocou porque a barragem 6, próxima da que se rompeu na sexta (25), passou a apresentar risco iminente de rompimento. Trata-se de um repositório de água, com volume de 1 milhão de metros cúbicos, que poderia causar um alagamento que atingiria até 24 mil pessoas, segundo os bombeiros, considerando desabastecimento de água e energia.

De acordo com a Defesa Civil, a inundação seria ainda pior do que a de lama, porque a água desceria com mais velocidade e atingiria mais áreas. Com a avaliação de que a barragem está estável, as pessoas puderam retornar às suas casas ---até 3.000 seriam evacuadas em Brumadinho, segundo o Corpo de Bombeiros.

Na cidade, a circulação estava restrita, com a Polícia Militar controlando a passagem por regiões de risco. Os acessos à entrada do município também foram bloqueados, pois a avaliação das forças de segurança era de que a presença de mais pessoas traria mais tumulto. Todos os bloqueios foram retirados após a situação voltar ao normal.

O complexo de barragens, na Mina do Feijão, é operado pela Vale. Desde o rompimento na sexta, que espalhou lama e matou 37 pessoas até agora, a empresa faz a drenagem na barragem 6, para diminuir o volume de água e o risco de um novo rompimento.

O volume já diminuiu para 140 mil metros cúbicos, o que possibilitou a retirada do alerta sobre rompimento. A correnteza de água aumentou nas áreas enlameadas e no Rio Paraopeba, devido a essa drenagem controlada. A previsão para término do bombeamento é de 10 a 15 dias.  ​

Notícias falsas de que a barragem 6 havia se rompido circulam entre os moradores da região de tempos em tempos desde sexta. Das 20h de sábado (26) até as 4h deste domingo, os trabalhos de busca dos bombeiros foram interrompidos para que a drenagem fosse intensificada.

Neste domingo, os moradores acordaram de madrugada com o alerta. Muitos deixaram suas casas imediatamente, e outros fizeram o mesmo após uma ronda de bombeiros e agentes da Defesa Civil de casa em casa no bairro Parque da Cachoeira, uma das áreas de risco.

Em uma das ruas de Parque da Cachoeira, onde a lama engoliu casas, já havia poucos residentes na manhã de domingo. Muitos já tinham ido para casas de parentes ou para o centro de apoio da Vale em Brumadinho.

Uma delas era Maria de Lourdes Assis Ferreira, 57, que teve a lama invadindo seu quintal. Ela voltou à sua casa neste domingo para retirar pertences, mas, devido à interdição, não pôde entrar.

 “É toda uma história que foi embora, um capítulo que acabou com final triste”, afirmou chorosa. Embora a casa não tenha sido invadida, a estrutura do imóvel rachou. Ela disse ter retirado apenas documentos.
Houve quem resistisse a ir embora. Oswaldo Patrício, por exemplo, afirmou que sairia, “mas depois do jogo do Cruzeiro”. 

Em Córrego do Feijão, também uma área afetada pela lama e que corria risco, os moradores deixaram suas casas sem ter informação de onde poderiam se abrigar e se teriam onde passar a noite.

Joana D'Arc Pinto, 58, disse que ouviu a sirene tocar e logo depois os bombeiros apareceram para reforçar que ela deveria deixar a região ao lado de outros quatro parentes, incluindo uma criança de sete anos. A criança foi levada pela mãe para outra cidade. "O Corpo de Bombeiros disse: 'vocês têm que sair agora'".

Joana se dirigiu ao Centro Comunitário do Córrego do Feijão sem saber, em meio à interdição, onde iria dormir.

Os moradores retirados foram orientados a ir para quatro pontos de encontro em Brumadinho ---o Morro do Querosene, uma igreja, o centro comunitário e a Estação do Conhecimento, que funciona como ponto de apoio da Vale aos atingidos. Muitos porém, ficaram na própria UBS do bairro Parque da Cachoeira, sem informação.

Segundo a Defesa Civil, as pessoas não ficariam desabrigadas e seriam alocadas em hotéis ou abrigos caso tivessem que passar a noite fora.

As áreas de risco e que foram alvo de evacuação foram Córrego do Feijão, Parque da Cachoeira, Pires, Cohab e a área central de Brumadinho. Em Parque da Cachoeira e Pires, a evacuação chegou a ser finalizada. Eram cerca de 25 famílias retiradas do primeiro local e 40 pessoas do segundo.

Durante todo o período de alerta de rompimento da barragem, de 5h30 às 15h, as buscas dos bombeiros por corpos e resgate de eventuais sobreviventes foram interrompidos. Isso porque as forças de segurança estavam concentradas na evacuação e porque havia risco para os bombeiros caso houvesse a inundação.

PÂNICO ÀS MARGENS DO RIO PAROPEBA

A manhã foi de pânico também para os moradores das ruas República do Chile e República da Bolívia, no bairro residencial de Santo Antônio, em Brumadinho.

Eles foram acordados pouco depois das cinco da manhã pelas sirenes de alerta da Vale e por carros da Defesa Civil com alto-falantes, que informavam que os moradores deveriam deixar suas casas por risco de rompimento de uma nova barragem. As duas ruas ficam às margens do rio Paraopeba, que recebe as águas do Córrego do Feijão. 

Se essa outra barragem, que estoca apenas água, se rompesse, haveria o risco o Paraopeba subir ao nível nas casas.

Nos anos de grandes enchentes, as duas ruas são as mais castigadas pelas águas do rio. Na grande enchente de 1997, a água chegou aos telhados das casas. E a última enchente que chegou às casas, em cerca de um metro, aconteceu em 2011.

Nas inundações causadas por chuva, a água sobe devagar e permite a saída dos moradores sem riscos maiores que a perda de bens. Desta vez, o que se temia era a chegada de um volume e velocidade de água que não permitisse fuga.


Os moradores do bairro Santo Antônio não foram os únicos que se assustaram. Todo o centro comercial de Brumadinho fica na parte baixa da cidade, assim como os bairros de moradias populares Cohab e Progresso 2.

Durante boa parte da manhã e início da tarde, as duas principais entradas da cidade, que são acessadas pelas BRs 381 e 040, ficaram fechadas pela Polícia Militar. Ninguém tinha permissão de entrar na cidade, a não ser policiais e profissionais de socorro. Também dentro da cidade foram colocadas barreiras nos acessos às partes baixas da cidade.

No Centro, o comércio praticamente não funcionou. E grupos de dezenas de moradores subiram a pé a ponte principal sobre o Paraopeba para conferir a cor barrenta da água e ver os peixes mortos que desciam na corrente. “Tem curumba, mandi, dourado, surubim, piau, tudo descendo o rio, morto. Uma tristeza. Não é mais rio, olha só... isso é lama. Não tem como o peixe respirar”, disse Mário Fernandes, conhecido como Xavante, morador do Centro que estava ontem na ponte.

Também estava sobre a ponte Zélia da Consolação Alves, com os sobrinhos Lucas e Jade. Ela é moradora da rua República da Bolívia, e disse que fugiu para a casa de uma sobrinha assim que ouviu a sirene. “Tá tudo muito estranho. O Paraopeba virou um córrego depois do rompimento da barragem. Agora, voltou ao normal, pelo menos no volume. Quem sabe o que vai acontecer se a outra barragem romper”, disse.

Carolina Linhares, Rubens Valente e José Antônio Bicalho
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