Apesar de avanços, abismo entre estados equivale a três anos de aprendizado

Avaliação federal que compõe Ideb expõe desigualdade regional

Brasília e São Paulo

A melhora média do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2019 esconde desigualdades regionais persistentes da educação brasileira. O abismo entre os indicadores médios dos estados chega a ser o equivalente a mais de três anos de aprendizado.

A rede estadual do Espírito Santo, por exemplo, tem as maiores notas em matemática (289,14) e língua portuguesa (286,95) no ensino médio. Com relação ao Maranhão, são 43 pontos a mais na primeira disciplina e 34 na segunda.

Estudiosos consideram que 12 pontos na escala de notas equivalem a uma progressão de um ano inteiro de aprendizado. Uma diferença, portanto, de mais de três anos de aprendizado em matemática.

Parte dos resultados do Ideb foi divulgada nesta terça-feira (15) pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido). O indicador, principal termômetro da educação brasileira, é calculado a cada dois anos pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), órgão do MEC (Ministério da Educação).

São levados em conta no Ideb o desempenho de estudantes em avaliação de matemática e língua portuguesa, chamada Saeb, e as taxas de aprovação escolar. A avaliação federal é feita ao fim de três etapas: anos iniciais (5º ano) e finais (9º ano) do ensino fundamental e ainda o ano final do ensino médio.

Estudos e os próprios dados do Ideb mostram que o nível socioeconômico dos alunos tem grande influência nos resultados educacionais. Colaboram com a situação as desigualdades de investimento em educação e atrasos educacionais históricos, sobretudo no Norte e no Nordeste.

Na comparação entre as regiões, a média do Sul (280,9) em matemática é mais de 29 pontos acima do que a do Norte (251,82), também no Saeb ensino médio. A distância entre as duas regiões em português é de 23,5 pontos.

São consideradas ideais notas de 350 e 300, respectivamente. Isso significa que, mesmo quem está no topo, ainda têm, na média, resultados insatisfatórios.

Essa distância é maior do que em 2017, quando, em matemática, 24 pontos separavam o desempenho médio do Norte e do Sul —em português, eram 21. Em 2007, a situação era ainda mais grave: no primeiro Ideb, a diferença entre as regiões chegava a 35 e 28 pontos, respectivamente.

Nos anos iniciais do ensino fundamental, etapa em que há uma tendência de melhora nos últimos anos, a diferença também é considerável.

Em matemática, 25 pontos separam o Sul (235,29) do Norte (210,06), e a discrepância em português é de 24 pontos. Já nos anos finais há uma diferença de 21 pontos em matemática e 17 em língua portuguesa.

Somente seis unidades federativas tiveram avanços relevantes (acima de 12 pontos) no ensino médio, nas duas matérias, entre 2009 e 2019. São elas: Pernambuco, Goiás, Piauí, Distrito Federal, Tocantins e Espírito Santo. Bahia, Pará e Rio Grande do Sul tiveram, no ano passado, médias inferiores a 2009 nas duas disciplinas.

No ensino fundamental, levando em em conta os resultados das redes públicas (que incluem escolas municipais e estaduais), a evolução é um pouco mais favorável.

Nos anos iniciais, só duas redes (Distrito Federal e Minas Gerais) tiveram avanço desde 2009 inferior a 12 pontos —e somente em matemática. Já nos anos finais, cinco estados não conseguiram um avanço relevante e nenhuma retrocedeu na comparação com 2009.

A desigualdade histórica também fica clara ao olharmos essa evolução desde 2009.

No ensino médio, Pernambuco é a rede que mais evoluiu nesse período. Ao avançar 24 pontos em matemática e 29 em língua portuguesa, chegou às médias de 272,77 e 276,30, respectivamente.

Entretanto, essas notas ainda são inferiores às do Rio Grande do Sul (que tem 282,16 em matemática e 282,98 em português). Isso ocorre mesmo que a redes públicas gaúchas tenham, na média, registrado maiores retrocessos em termos de aprendizado em matemática nesta etapa.

O Ceará é o estado cujas redes públicas mais avançaram nas duas etapas do ensino fundamental. Nos anos iniciais, a média cresceu 47,54 em língua portuguesa e 43,94 em matemática.

Ainda assim, a média em língua portuguesa, de 219,83, é quase igual à de Minas Gerais —que chegou a 219,72 em 2019 depois de uma redução de 20,15 pontos desde 2009.

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