Descrição de chapéu Copa do Mundo

Djokovic e derrota croata levam uma dupla alegria a entardecer na Sérvia

Em Belgrado, apesar de minoria, alguns torceram para os vizinhos da Croácia

Eduardo Geraque
Belgrado

O entardecer em Belgrado, capital da Sérvia, teve uma dupla felicidade.

Primeiro, a vitória de um orgulho nacional no tênis. Novak Djokovic triunfou em Wimbledon pela quarta vez. Depois, o resultado da final da Copa do Mundo em Moscou. A alegria nem foi tanto com a vitória da França, mas pela derrota dos rivais croatas.

No centro de Belgrado, na Sérvia, dezenas de bares e cafés sintonizaram na transmissão da final masculina de Wimbledon
No centro de Belgrado, na Sérvia, dezenas de bares e cafés sintonizavas na transmissão da final masculina de Wimbledon - Eduardo Geraque/Folhapress

Nas ruas e nos cafés ao ar livre, alguns grupos de sérvios até que torceram para os vizinhos croatas. Durante o primeiro tempo, quase de forma simultânea, enquanto Novak Djokovic fechava o jogo em Londres, a Croácia marcava seu primeiro gol na final do Mundial e empatava o jogo. Houve comemorações contidas. Em homenagem aos vizinhos e aos amigos que são de lá, dizia um morador local.

Mas a maioria, antes de torcer para a França, queria mesmo ver a derrota da Croácia, país que desde a guerra sangrenta do início dos anos 1990 tem uma relação muito tênue com a Sérvia. Ambas são ex-repúblicas da Iugoslávia.

“Foi uma dupla vitória que tivemos hoje”, afirma Ivan Milic, torcedor do Estrela Vermelha, time de futebol sérvio campeão mundial em 1991.

“Eles também odeiam a gente. Não tem como torcer por eles, apesar de termos sido um só país no passado”, afirma o morador de Belgrado, que comemorou bastante todos os gols dos franceses.

Entre o tênis e o futebol, o segundo teve uma pequena vantagem nas ruas da cidade, enquanto a final de Wimbledon coincidia com uma parte do primeiro tempo do jogo.

Mas havia pessoas que pulavam de um bar para outro, dependo do que estava passando na TV. Só em um lugar, sem nenhuma discussão, o tênis teve lugar cativo.

Nas margens do Danúbio, perto de um grande parque, onde uma singela placa diz, em inglês, seja bem-vindo ao Novak Tennis Center.

Lá dentro, além das 12 quadras impecáveis de saibro e duas de piso duro, a foto gigante estampada em uma das paredes não deixa dúvidas.

O dono da academia, que no verão recebe atletas para treinar em alto nível, é o mesmo que estava em Londres, em quadra, jogando para mais um título de Grand Slam.

A final de Wimbledon, assim como havia sido no sábado (14) a semifinal entre o sérvio Djokovic e o rival Rafael Nadal, é que teve ares de final de Copa para o pequeno e seleto grupo que acompanhou o jogo no bar do centro de treinamento pela televisão.

Algumas pessoas nem olhavam para o jogo e ficavam de costas, fumando um cigarro. Outras resmungavam e se contorciam na cadeira. Mulheres, crianças e homens. Todos entendiam muito bem o que estava ocorrendo no jogo.

“Não posso assistir, porque tenho que trabalhar aqui no bar”, diz o barman Vojislav, que sai correndo aos primeiros gritos dos outros torcedores que estão perto da TV para, sim, ver os lances da partida.

Novak, como todos chamam o maior tenista sérvio de todos os tempos, é esperado na academia logo depois do sucesso em Wimbledon. Pode ser que o mais recente troféu venha para a vasta galeria que existe no local.

 

Na Sérvia, as finais de Wimbledon e da Copa do Mundo tiveram a mesma importância na imprensa local.

Os eventuais triunfos de Djokovic e da Croácia deixariam os dois lados felizes e orgulhosos, era a tônica dos jornais. E o fato de o tenista sérvio ter uma relação próxima com alguns jogadores da seleção da Croácia foi a polêmica da semana no cenário esportivo local. Djoko declarou apoio ao time croata. Com isso, chegou a ser chamado de traidor da pátria por alguns sérvios mais exaltados.

Na visão do antropólogo Ivan Djordjevic, da Academia Sérvia de Ciências e Artes, a repercussão da atitude do tenista, que visava pregar a união dos dois países pelo esporte, pode indicar que o sucesso croata na Copa piorar a relação entre as duas nações.

“Enquanto para os croatas essa campanha na Copa vai ter um grande impacto positivo na homogeneização da nação, porque o futebol está relacionado com o nacionalismo croata desde a independência, ela também pode ter esse efeito negativo nas relações com a Sérvia”, disse o pesquisador à Folha. “No fundo, vamos dizer, esse é um sucesso que doe para os sérvios.”

O que não significa, segundo ele, que os ataques ao tenista Djokovic não estejam revestidos por um nacionalismo banal, segundo o pesquisador sérvio. “Acredito que pelo menos 70% das pessoas em Belgrado estão apoiando a Croácia do fundo de seus corações. Isso é o passado, é o presente e o futuro da região”, afirma Djordjevic.

O centro de Belgrado, durante a final da Copa do Mundo, onde até uma mulher assistiu ao jogo enrolada na bandeira na Croácia, além de vários grupos terem comemorado os gols da seleção rival, reforçam a tese do pesquisador. E mostram como é complexa a relação entre as várias etnias na península balcânica.

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