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Copa do Mundo

Putin vence o mata-mata, mas disputa nos pontos corridos segue

Presidente conseguiu até aqui entregar uma Copa com organização impecável

Igor Gielow
Moscou

Do ponto de vista de imagem, Vladimir Putin pode reclamar o troféu de vencedor da Copa do Mundo da Rússia tanto quanto os franceses.
 
O Mundial transcorreu com tranquilidade e o enorme aparato de segurança nas cidades-sede evitou quaisquer incidentes graves.
 
Mesmo os atritos políticos pontuais, principalmente envolvendo croatas e sérvios, foram contornados. Sobrou o protesto do grupo Pussy Riot contra Putin no gramado, na final, mas ninguém presente no estádio entendeu o que era a invasão de campo. E o contratempo do temporal na hora da premiação.

Vladimir Putin, ao lado de Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante cerimônia de entrega da taça no estádio Lujniki, em Moscou
Vladimir Putin, ao lado de Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante cerimônia de entrega da taça no estádio Lujniki, em Moscou - Alexander Nemenov/AFP

Nada disso, obviamente, altera o isolamento da Rússia em relação ao Ocidente.

Esse objetivo pode começar a se desenhar a partir do encontro de Putin com o americano Donald Trump, que ocorrerá nesta segunda (16) em Helsinque.
 
A final só teve a presença de dois líderes da União Europeia, o francês Emmanuel Macron e a croata Kolinda Grabar-Kitarovic, porque seus times estavam em campo.
 
E só Macron tem peso geopolítico. Dos outros sete líderes presentes, apenas um, o armênio aliado da Rússia, não pode ser descrito como um autocrata. Até um indiciado por crimes de guerra, o sudanês Omar al-Bashir, esteve presente.
 
No Brasil não foi muito diferente, com dez chefes de Estado na final, mas a volta da Copa à Europa após 12 anos deveria ensejar uma presença maior de autoridades do continente na tribuna. 
 
Isso dito, o russo colheu um triunfo importante ao atingir sua meta: mostrar ser capaz de realizar o maior evento esportivo do mundo apesar de seu distanciamento do Ocidente.
 
Já a Fifa, ela mesma precisando de um reforço positivo após tantos escândalos de corrupção, se derreteu em elogios previsíveis à organização. Putin se disse satisfeito e saudou a interação dos fãs com os russos.
 
Até a desacreditada seleção russa foi bem no torneio. Putin havia sido cauteloso antes do começo da disputa, já que o time era o pior no ranking da Fifa presente na Copa.
 
Quando ensaiou embarcar no sucesso da seleção de Stanislav Tchertchesov, após a vitória contra a campeã mundial Espanha, o time caiu nos pênaltis para a hoje vice-campeã Croácia, nas quartas.
 
“As pessoas não torceram para o futebol. Torceram para a Rússia”, afirmou Serguei Markov, um dos principais ideólogos do Kremlin nos anos 2000, hoje afastado de Putin.
 


É algo a ver. Pesquisa feita pela empresa Superjob ao fim da primeira fase da Copa mostrou que, para 60%, o Mundial não muda a imagem de Putin.
 
Ao longo do torneio, o presidente evitou mudar sua agenda, restringindo-se a eventos da Copa.
 
Não há vitória sem custo, naturalmente.
 
A abertura da Rússia a milhares de turistas estrangeiros, com as ruas de Moscou em uma atmosfera de festa nunca vista, tem o potencial de cobrar um preço político do Kremlin.
 
“Como será quando as portas se fecharem?”, questionou em artigo o cientista político Alexei Kolesnikov, fazendo uma analogia com o alerta que antecede a partida do metrô moscovita.
 
A liberalidade do ambiente dificilmente seguirá a mesma, a começar pela proibição do consumo de álcool nas ruas, que é lei e deverá voltar a ser aplicada.
 
A considerar o método não científico de conversar pontualmente com torcedores, a imagem da Rússia melhorou bastante entre estrangeiros.
 
Mas esse público também foi informado, pela mídia internacional com liberdade para atuar na Copa, de que gays são perseguidos e  que o dissenso político é combatido no país todo, além de haver travas à liberdade de expressão.
 
Qual imagem, a tradicionalmente negativa ou a nova, mais positiva, irá prevalecer?
 
Externamente, é cedo para dizer. Internamente, contudo, fatos da realidade já se interpõem ao fator de bem-estar da Copa.
 
A reforma da Previdência, impopular por elevar idade mínima para aposentadoria, e o aumento do principal imposto do país entraram em discussão durante o Mundial.
 
Se Putin quis encobri-los, falhou. Sua popularidade despencou da casa dos 80% para 65%. “A Copa é momento. Os problemas ficam”, diz Denis Volkov, do instituto de pesquisas Levada.
 
Há ainda a questão do legado da Copa, mas essa percepção é diferente da ocorrida no Brasil pós-2014. Há elefantes brancos, mas boa parte da infraestrutura já existia e, em alguns pontos, foi melhorada.
 
Assim, para ficar na metáfora futebolística, Putin venceu o mata-mata. O campeonato por pontos corridos segue.


AS POLÊMICAS POLÍTICAS DA COPA
 
A Copa em si
Críticos de Putin acusam a Fifa de legitimar um governo autoritário ao associar-se ao Kremlin
 
Suíça
Jogadores de origem kosovar provocaram sérvios, que consideram Kovoso parte de seu país
 
Sérvia
Torcedores cantaram hinos antifascistas e mostraram bandeiras com tons discriminatórios
 
Croácia
Jogador e dirigente provocaram a Rússia após derrotar o time, dedicando a vitória à rival Ucrânia
 
Egito
O astro Salah virou garoto-propaganda da autocracia da Tchetchênia, onde a seleção ficou hospedada

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