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07/08/2003 - 13h41

Uribe completa um ano de linha-dura e popularidade

VALQUÍRIA REY
da BBC, em Bogotá

Um ano depois de Álvaro Uribe ter chegado à Casa de Nariño, sede da presidência na Colômbia, os colombianos estão convencidos de que nunca tiveram um presidente como ele.

Uribe quase não dorme, não consome bebidas alcoólicas, faz ioga e usa gotinhas de florais (remédios alternativos feitos com flores) inúmeras vezes ao dia. No entanto, além desses hábitos, ele tem mostrado uma maneira de governar e um estilo de fazer política diferentes.

Reuters - 27.mai.2002
Alvaro Uribe, presidente da Colômbia
Com 73% de popularidade, a mais alta que um presidente colombiano conseguiu em seu primeiro ano de governo, Uribe conta com apoio em todas as faixas etárias e classes sociais.

"Ele inaugurou um estilo de governo, que lhe permite manter a grande popularidade", diz o analista Ricardo Vargas. "Há muito mais presidente do que governo".

Segurança

"É uma espécie de governar através da micropolítica, tentando resolver pequenos problemas comunitários, que o faz estar sempre presente no contato direto com o povo e nos meios de comunicação", acrescentou Vargas.

Há um ano, em seu discurso de posse, Uribe ratificou seu lema de campanha: Trabalhar, trabalhar e trabalhar. Vargas lembra que nos fins de semana, ele não descansa, viaja por várias regiões do país para discutir problemas com líderes e autoridades locais.

Na avaliação do cientista político Diego Cardona, a ausência de forças alternativas de oposição contribuiu para a manutenção da alta popularidade de Uribe.

"Em qualquer país do mundo, onde há uma oposição organizada, a popularidade do presidente baixa no primeiro ano de governo", afirma. "Não contamos com movimentos politicos ou de opinião que possam ser uma alternativa real."

A política de segurança do governo, bandeira defendida desde a campanha presidencial, é também fator determinante para a manutenção da alta popularidade de Uribe.

Durante a sua candidatura, Uribe foi um dos principais críticos do processo de paz entre o então presidente Andrés Pastrana e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Com o fracasso das negociações, a maioria dos colombianos viu nele a única saída à encruzilhada em que se encontrava o país. Um ano depois, a prioridade do governo continua sendo a segurança.

"Os colombianos sentem que agora têm um país muito mais seguro que há um ano", diz Alfredo Rangel, um dos mais bem conceituados analistas militares do país.

Essa sensação é respaldada pelas taxas de homicídios, que baixaram 26%, e de sequestros, reduzidas em 30%.

Também diminuíram as ações da guerrilha contra a população e as sabotagens contra a infra-estrutura econômica em cerca de 25%.

Reality Show

Aos 51 anos, o advogado liberal Álvaro Uribe não gosta de entrevistas. Mas parece viver um reality show diário frente às câmeras.

As emissoras de televisão locais transmitem na íntegra as cenas do presidente apresentando um guerrilheiro desertor à população, realizando uma reunião do conselho de ministros ou chegando a cavalo para a inauguração de uma feira agroindustrial em Bogotá.

As câmeras também estão lá às 4h30 da manhã, quando Uribe aparece de calção de ginástica, fazendo jogging, rodeado por guardas-costas.

O presidente não abandonou o esporte nem quando se instalou em Arauca, um dos principais palcos dos conflitos entre governo e rebeldes e para onde ele transferiu seu gabinete no último mês.

Para o jornalista Antonio Caballero, crítico do presidente, essas imagens não têm nenhum efeito prático, mas exercem grande influência na percepção dos colombianos sobre o seu governo.

"Ele não fez nada, ou o que fez é ruim", diz Caballero. "Mas as pessoas têm a impressão de que ele fez alguma coisa e de que o que fez é bom."

Caballero é quase uma voz solitária na imprensa colombiana. Num editorial publicado essa semana, "El Tiempo", principal jornal de circulação nacional no país, descreve o presidente como um fenômeno inédito na política colombiana, que quebrou todos os esquemas e precedentes.

Já a revista de notícias "Semana", classifica os primeiros 12 meses do governo Uribe como "o ano em que voltou a esperança".

"O mais positivo desse governo tem a ver com a capacidade de devolver ao país uma perspectiva de esperança e de futuro", afirma Gabriel Murillo, especialista em política colombiana.

"Ao término do governo de Andrés Pastrana, chegamos a uma etapa de frustração muito grande." Murillo critica, no entanto, a falta de investimentos do governo na solução de problemas sociais.

A professora de educação física Marcela Mercado concorda. Para ela, ao priorizar a segurança pública, Uribe está relegando áreas como cultura, educação e criação de empregos.

Já o advogado Julio Tejera condena a escalada no número de prisões no último ano. "É muito preocupante a quantidade de pessoas que estão indo todos os dias para a prisão."

Paramilitares e guerrilha

Segundo o analista militar Alfredo Rangel, um dos grandes triunfos de Uribe o início de negociação com grupos paramilitares de direita, mas afirma que o governo ainda está longe de derrotar os grupos guerrilheiros esquerdistas.

De acordo com ele, estruturas fundamentais das Farc e do Exército de Libertação Nacional (ELN) permanecem inalteradas.

Rangel afirma que a diminuição das ações militares desses movimentos não representa uma derrota, como querem demonstrar o Exército e a polícia, mas uma estratégia das guerrilhas.

Mas Alfredo Rangel reconhece que Uribe tem uma maneira eficaz de se comunicar com a opinião pública. Segundo ele, os colombianos gostam de ter um presidente com uma imagem de austero e trabalhador.

"Todos têm a oportunidade de vê-lo trabalhando, incansável, dia e noite, para melhorar não apenas a situação de seu gabinete, mas das diferentes regiões do país", observa Rangel.

"As atitudes firmes do governo, as cobranças de resultados às forças militares, aos ministros e aos principais funcionários lhe dão resultados inéditos na Colômbia".

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